Lua Nova e Eclipse Solar em Touro: Foco ou dispersão?

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Colleen Pinski – National Geographic Magazine – Reprodução

A Lua Nova em Touro desta terça-feira é também um Eclipse Solar Anular (29 de Abril, 03h14min, hora de Brasília). O eclipse anular é um tipo de eclipse parcial do Sol, em que o diâmetro da Lua não é suficiente para encobrir o Sol, criando-se uma espécie de halo ou anel de fogo.

Segunda Lua Nova do ano astrológico, este eclipse fecha a primeira estação de eclipses do ano e de certa forma sinaliza a diminuição da tensão psicológica dos últimos meses. A Grande Cruz Cardinal vai gradualmente se desfazendo, ficando ativa até o dia 25 de maio, se permitirmos uma orbe bem ampla de 10 graus.

O eclipse ocorre no grau nove de Touro (8°51’), conjunto a Mercúrio a 12°31’ e ao Nodo Sul a 28°24’ de Áries. Faz também um sextil próximo a Netuno em Peixes e um sextil amplo a Júpiter em Câncer e ainda trígono a Plutão em Capricórnio e quincunce aplicativo a Marte. Há uma ênfase extraordinária em Terra e Água, sendo Marte o único ponto em Ar e Urano o único de fogo, indicando um mapa pesado, realmente denso, em que outras perspectivas mais leves não vêm facilmente. Fogo e Ar tornam-se funções inferiores e vão para o inconsciente. A carência de Ar nos fala de uma falta de objetividade e de distanciamento racional e quando há um ponto único por elemento como é o caso aqui, este ponto tende a ficar “dormente”, inconsciente e quando irrompe, o faz de forma compulsiva, impondo-se a tudo o mais, como a recuperar o tempo em que esteve inoperante. Pouco Fogo também aponta para uma falta de visão, de otimismo e de motivação e ignição e novamente temos um único ponto neste elemento, Urano em Áries. Com tal ênfase em Terra e Água a tendência é vermos o mundo de forma muito literal, favorecendo a “realidade” e estendendo nossa subjetividade para o mundo à nossa volta. Assumimos que todos pensam, sentem e vivem como nós, ou pelo menos deveriam, pois o nosso jeito é o jeito “certo”.

 

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Boiada – Bond 2012 – Reprodução

Touro é o bebê descobrindo o próprio corpo de forma sensorial, perdido em si mesmo, de modo que tem dificuldade de olhar para fora (isso só vai acontecer na próxima fase de desenvolvimento, em Gêmeos). Assim, a maior parte do tempo tendemos a ver o mundo e resolver as coisas de forma prática, literal e subjetiva, mas de vez em quando a função inferior irrompe e torna-se dominante, levando a comportamentos extremistas. É quando de repente, a despeito de tudo o que viemos fazendo, temos “surtos” de objetividade excessiva (Ar) e de otimismo exagerado e infundado (Fogo), contradizendo diretrizes e ações tomadas anteriormente. Às vezes estes “surtos” têm um efeito positivo, mas em muitas outras pode ser devastador. Como resultado, nossa ação carece de equilíbrio e coerência.

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Reprodução Photobox

A conjunção com Mercúrio indica um afunilamento das percepções, uma dificuldade em ver o ponto de vista de outros, uma visão de vida que tende a ser rígida e inflexível. Por outro lado, os aspectos que Sol e Lua fazem com Júpiter e Netuno adicionam um pouco de imaginação e fantasia, mas de novo, como estes planetas estão em Água há certamente uma fertilização e fecundação pois a Terra absorve a Água tornando-se úmida e propícia ao plantio, porém, a densidade é aumentada e continuamos focados apenas em nossas próprias impressões e sentimentos. O Grande Trígono em Água formado por Júpiter-Saturno-Quíron pode significar uma compaixão que nos obrigue a olhar para fora, mas Grandes Trígonos são complicados porque tendemos a tê-los como garantidos e não nos esforçamos por utilizar os talentos e benesses por eles prometidos, o que em última instancia implica desperdício.  O trígono a Plutão favorece a profundidade e a habilidade de lidar com crises, mas de novo, um trígono pode ser mal aproveitado e não há garantias de que empregaremos devidamente os recursos por ele oferecidos. A conjunção com o Nodo Sul sugere que questões do passado podem aflorar dificultando o avanço em direção a algo realmente novo, pois o Nodo Sul sempre nos puxa para o que é mais fácil e cômodo. E por último, há ainda um quincunce amplo, mas aplicativo a Marte retrógrado em Libra, simbolizando tensão, irritação e uma grande incongruência entre a vontade idealista, mas frágil de Marte em Libra, a diretriz maior do Sol e a necessidade de segurança e nutrição da Lua. A motivação vem e vai, instável, sem constância alguma e dispersamos energia movendo-nos de uma causa a outra, sem finalizar nenhuma, desperdiçando tempo e recursos. A Lua Nova acena com a promessa da realização de algo sólido e tangível, mas o potencial talvez não se cristalize porque o homem da ação e execução, Marte, pode se perder em abstrações excessivas e ideais de perfeição. Ou, indo numa outra direção, talvez o excesso de pragmatismo Taurino embote completamente uma abstração saudável e necessária e que poderia adicionar leveza e beleza – substância demais pesa, qual pão com muita massa e pouco fermento. Richard Idemon diz que quincunces sempre falam de paradoxos, e no caso de Touro-Libra é exatamente a discrepância entre Ideal e Real. Libra anseia por perfeição estética, algo impossível na dimensão do real, porque tão logo manifestamos a visão no plano concreto, ela é percebida como falha porque é da natureza da realidade ser imperfeita, além disso toda idéia é potencialmente perfeita enquanto está sendo planejada uma vez que está ainda no reino das possibilidades infinitas, todavia, para que algo seja concretizado, precisamos fazer escolhas entre todas essas possibilidades, e pôr a mão na massa, na matéria bruta e imperfeita, o que imediatamente implica limitar o ideal.

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Reprodução Photobox

Vênus, a regente do eclipse, está exaltada em Peixes, uma posição bastante favorável por ser extremamente imaginativa e compassiva, o que diminui a excessiva literalidade e brusquidão de Touro. Porém Vênus está fora de curso*, submersa em suas próprias fantasias, perdida em si mesma. Alguns autores (2) relacionam planetas fora de curso com irritação e tendência a procrastinação, que obviamente deve ser combatida.  Considerando que o planeta não vai fazer aspecto com nenhum outro até entrar no próximo signo, acredito que isso traz um isolamento e dificuldade de comunicar os objetivos e anseios relacionados àquele planeta. Neste caso, vejo uma certa inabilidade em trazer à tona e concretizar as aspirações, sonhos e visões desta Vênus tão sonhadora; uma tendência a procrastinar na resolução de conflitos relacionais, algo realçado por estar Marte, o planeta da ação, retrógrado em Libra, também regido por Vênus.

A Interpretação de Bernadette Braddy para esta série de eclipses confirma isso. Este eclipse faz parte da Série Saros 16 Sul de acordo com a nomenclatura de Brady, ou Série 148, de acordo com a Nasa. Esta série iniciou-se a 21 de setembro de 1.653, às 16:12, no Pólo Sul. Brady aponta que Netuno está no Ponto Médio entre a Lua Nova e o Nodo Sul e que Marte está no Ponto Médio entre Urano e Netuno e sua interpretação é a seguinte: “Sob a influência desta família de eclipses indivíduos se encontram lidando com questões de energia desperdiçada ou motivação mal direcionada, particularmente ao lidar com grupos. Pode haver inspirações repentinas, mas que são potencialmente insatisfatórias. Ações reais não devem ser tomadas.”

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Menino Africano Interage com Touro – Reprodução Photobox

Colocando tudo junto, não se trata de ser pessimista, de fazer drama ou de ver somente os aspectos difíceis dessa Lua Nova. Na verdade, é exatamente o contrário: trata-se de ser realista como exige Touro. De se permitir longas deliberações ao invés de ação impulsiva e imprudente.

A grosso modo, o Eclipse Solar e Lua Nova de hoje vêm propiciar um chão sólido onde firmarmos os pés depois de todos os terremotos a que estivemos sujeitos nos últimos meses. Sugere um novo ciclo de manifestação no plano real das mudanças que adotamos recentemente, algo que seja prático. Sim, é tempo de plantar novos e fecundos começos (Lua Nova em Touro), porém sem tomar medidas radicais; é preciso não criar expectativas excessivas e cuidar para não tentar abraçar o mundo com as pernas, porque o resultado poderá ser de fato desperdício de energia e de recursos (Vênus-Peixes/Marte-Libra). É preciso também cuidar com a tendência a ver as coisas de forma unilateral, excessivamente focada, qual burro com viseiras ou antolhos, que só permitem ver o que está à frente, sem possibilidade de cogitar o que está ao lado ou atrás (Touro). Lembrar de ter distanciamento e objetividade (Ar) e permitir que a intuição e a imaginação (Fogo) se manifestem de vez em quando. É preciso também atentar para a regressão aos padrões antigos que já deveriam ter sido ultrapassados e transmutados, ou no mínimo utilizar a segurança do conhecido como trampolim para os novos desafios, ao invés de permitir que isso seja ponto de estagnação (Nodo Sul).

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Reprodução Photobox

A Grande Cruz Cardinal, ainda bastante ativa, demanda que continuemos fazendo ajustes. A Grande Cruz é como um cruzamento de trânsito em avenidas super movimentadas. Todos querem passar, todos têm pressa e se todos vão ao mesmo tempo o desastre é fatal. Para que se consiga trafegar sem problemas é preciso grande coordenação e negociação, onde um cede a vez ao outro, onde ajustes são necessários para que a ação e tráfego possam fluir. Como pano de fundo desse eclipse, a Grande Cruz exige que façamos estes ajustes entre o sonho visionário e a realidade concreta; entre o tangível (Touro), o intangível (Peixes) e o ideal (Libra); entre nossa visão focada e concentrada e o mundo à nossa volta.

De resto, é tocar a vida adiante, fazendo estes ajustes onde for necessário e sendo grato pelas dádivas que se nos apresentam, apreciando seus prazeres de forma inteira, como quando se chupa fruta madura e suculenta, mas sem necessariamente se empanturrar ao ponto da indigestão. A simplicidade, o realismo, o pragmatismo, a cautela e a deliberação de Touro aliados à sensibilidade de Vênus em Peixes podem funcionar como contraponto ao excesso de tensão e ação dos últimos tempos, desde que fiquemos atentos ao grande potencial de dispersão de energia implicado nesta Lua Nova. símbolo do novo ciclo.

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Boiada – José Antonio da Silva – Reprodução

De forma mais específica, para se ter uma pista dos efeitos pessoais deste eclipse, volte 18 anos no tempo, exatamente a 17 de abril de 1996, que foi quando ocorreu o último eclipse desta série, a 28° de Áries. Vale a pena verificar o que estava acontecendo na sua vida naquele período porque os temas desencadeados são os mesmos. Outra coisa: eclipses e Lunações são sentidos mais intensamente quando tocam algum ponto sensível no mapa natal, como um planeta ou um ângulo e sua manifestação e feitos são verificados na área de vida representada pela casa em que ocorre. Caso você tenha planetas ou ângulos entre os graus 3 a 13 dos signos fixos (Touro, Leão, Escorpião e Aquário) certamente sentirá seus efeitos de modo agudo.

Lua Nova e Eclipse em Touro 2014

 

(*) Um planeta fica Fora de curso ou vazio quando não fará mais nenhum aspecto maior com outros planetas antes de entrar no signo seguinte. Este termo é mais comumente atribuído aos movimentos da Lua.

Leia sobre a Lua Nova e eclipse Solar em touro de 2013

Leia sobre a Lua cheia em Touro de 2013

 

Fontes Consultadas:

(1) Berdadette BRADY – The Eagle and The Lark – Predictive Astrology

(2) Jill MELICHAR, citada por Molly CLIBORNE GAUTHIER em seu site: mollysastrology.com

(3) Karen HAMAKER-ZONDAG – Aspects and Personality

(4) Sue TOMPKINS – The contemporary Astrologer’s Handbook

 

A Semana Astrológica: Seus Ideais têm Substância?

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Reprodução a partir da Fanpage Photobox

28 de Abril a 4 de Maio

Semana de eclipse do Sol e alguns outros acontecimentos importantes.

A Lua começa a semana ainda minguante em Áries, torna-se nova e depois vai inflando através dos signos de Touro, Gêmeos e Câncer. O Grande Trígono em Água Júpiter-Saturno-Quíron continua bastante ativo, assim como a Grande Cruz Cardinal e juntos compõem o cenário de fundo sobre o qual acontecimentos mais imediatos se manifestam.

A semana começa preguiçosa com a Lua fora de Curso em Áries na segunda-feira, quando demoramos a engrenar, talvez até tendo que pegar “no tranco”. Mercúrio em quincunce com Marte anuncia um dilema que estará presente toda a semana: a abstração idealista de Marte Rx em Libra versus o planejamento e busca de realização concreta de Mercúrio e Sol em Touro. Depois de Mercúrio é o Sol quem fica quase a semana toda em quincunce com Marte (de 30 de abril a 4 de maio), simbolizando que este dilema ocupará de fato nossos dias. Este quincunce faz parte do ciclo de Marte retrógrado e vem de novo tirar do baú conflitos na relação com o Pai. Mais: Mercúrio e Sol querem realizar algo tangível e concreto no mundo, mas Marte perde-se em abstrações idealistas e hesita, sempre descobrindo uma falha no plano, algo a ser burilado, aperfeiçoado. Paixão pelo ideal e pelo projeto são essenciais, mas a hesitação talvez nos custe tempo precioso e se não temos cuidado perdemos oportunidades de ouro porque o timing fica prejudicado. Isso é mais preocupante porque este quincunce Mercúrio-Sol-Marte está operante e ativo na Lua Nova e Eclipse Solar que ocorre na terça-feira e que vem realçar este tema ideal x realização tangível. Outro ponto de atenção neste Eclipse solar é o fato de seu regente, Vênus, estar fora de curso em Peixes e de Marte continuar retrógrado. De qualquer forma o eclipse vem inaugurar um novo ciclo, que, por ser em Touro, demanda que atitudes concretas sejam tomadas e que manifestemos no real (Touro) nossos melhores anseios da Totalidade (Vênus em Peixes), atentando para o equilíbro entre o tempo de idealizar e o tempo de excutar.

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Reprodução a partir da Fanpage Photobox

Na quarta-feira A Lua ainda em Touro depara-se com o primeiro grande desafio do ciclo ao opor-se a Saturno em Escorpião, que questiona se temos estamina e resiliência suficientes para levar nossos projetos a cabo, questionamento este que ganha peso com o quincunce Sol-Marte ficando exato na quinta-feira. Marte Rx em Libra apresenta os mais baixos índices de estamina com que se pode contar, mas é ajudado na quinta pela Lua em Gêmeos. O questionamento torna-se agudo com Mercúrio também se opondo ao mesmo Saturno na sexta-feira. Somos desafiados a testar se nossos planos são verdadeiramente factíveis e se resistem à luz fria da realidade. Será que nossos projetos têm substância ou são apenas ideais vazios?

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Reprodução da Fanpage Photobox

 

Ainda na sexta-feira Vênus ingressa em Áries, signo em que fica bem desconfortável, pois é de seu detrimento, um signo belicoso e contrário à natureza harmoniosa de Vênus. O desconforto é maior porque é como estar em viagem, longe de casa, e o único lugar disponível para hospedagem é a casa do seu inimigo… Mas obviamente, há um lado positivo em tudo.

No sábado a Lua crescendo já em Câncer faz uma belíssima conjunção com Júpiter, formação que vale a pena observar no céu da noite de sábado e madrugada de domingo. E por falar em domingo, este será mais um em que a Lua ativará a Grande Cruz Cardinal, simbolizando rusgas familiares que teimam em vir à tona no almoço dominical.

Uma ótima semana, cheia de ideais e de substância para você!

 

A Grande Cruz Cardinal e a Calcinatio Alquímica – E se você fosse o 100° Macaco?

como-o-fogo-queimaÉ quarta-feira, 23 de abril, dia “D” da Grande Cruz Cardinal. Mercúrio entrou em Touro, e depois de instilados pelos ideais fogosos de Áries nossa mente se volta para o literal, o tangível e o realizável. Depois de harmonizar-se com Marte Rx em Libra, dando-lhe uma mão e algum apoio no meio do fogo cruzado em que ele se encontra, a Lua minguante Aquariana chega a uma encruzilhada em que se depara de novo com Saturno em Escorpião. Céu e Inferno parecem colidir dentro de nós, divididos estamos entre nossas mais elevadas visões evolucionárias e nossos instintos reptilianos, que nos lembram de forma crua que ainda há muita obscuridade a ser combatida, muito lixo a ser reciclado, muito material inconsciente a ser depurado, lá fora e aqui dentro.grande cruz

No dia “D” da Grande Cruz Cardinal, Marte Rx em Libra é catapultado aos Céus onde duela com Urano para logo em seguida ser sugado às profundezas do Mundo Inferior, onde peleja com o senhor absoluto deste reino, o obscuro Plutão – tema que é repetido de certa forma, pela Lua em Aquário e Saturno em Escorpião.  Só que na verdade sabemos que não é exatamente um duelo, uma vez que ele vem defrontando-se com estes pesos-pesados há muitas semanas, simultaneamente. Da mesma forma que dentro de nós nem sempre conseguimos lidar com os problemas e situações um por vez porque às vezes tudo resolve acontecer ao mesmo tempo e temos que achar maneiras de acomodar e lidar com tudo, pois não há como deixar para depois.

Na feitura dos dias vamos nos deparando com desafios que exigem presença de espírito e ação. Há coisas que nos exigem atitude imediata no Aqui-Agora, como óleo fervente na panela, que se não for cuidado pode causar um incêndio desastroso; e há outras que vão assando lentamente no forno interior, que precisam de tempo e temperatura adequados para ficarem prontas para servir. De um jeito ou de outro, um processo poderoso toma lugar na cozinha cósmica do mundo atualmente. Uma Calcinatio Alquímica que vem queimar, calcinar, purificar a matéria bruta que somos nós. Mas o que é a Calcinatio?

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O velho Rei queima no forno – Imagem alquimíca – Adam McClean – Reprodução

A CALCINATIO, juntamente com a SOLUTIO (Água), a SUBLIMATIO (Ar) e a COAGULATIO (Terra), é um dos mais importantes dos processos alquímicos. Está relacionada ao elemento Fogo e aos planetas Marte, Plutão, Saturno, e às vezes Urano. No processo alquímico original o alquimista aquece a prima matéria até que todo líquido se evapore dela, reduzindo-a cinzas. É essencialmente um processo de PURIFICAÇÃO. Liz Greene diz em seu seminário O Simbolismo Alquímico no Horóscopo (1) que “as imagens em torno da Calcinatio quase sempre implicam a frustração do desejo até que as emoções se exauram por si mesmas e o velho Rei ou animal selvagem seja queimado, chegando-se à sua essência. O fogo purifica das sujeiras e, nesse caso, a sujeira é líquida, a imagem do anseio pela união. Os animais da calcinatio são o Leão e o Lobo, os quais desde tempos imemoriais estão ligados com as paixões, com a fome e o orgulho, com a arrogância e o desejo. (…) O leão, no mito egípcio, está relacionado com Sekhmet, um dos vingativos ‘Olhos de Rá’, que personifica o calor abrasivo do sol do deserto. O leão personifica as paixões nobres, o “eu quero”; ele é o infante sôfrego e imperioso que é o centro do universo, ansiando pelo poder absoluto e destruindo tudo o que não pode ter. E o lobo, que é um dos animais de Cibele, a voraz mãe-deusa da Ásia Menor, está eternamente faminto”.

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Reprodução

Paixões. Fome. Orgulho. Arrogância. Desejo. Soam familiar? Como não?, diria o Cuiabano. Estas palavras remetem-nos diretamente à nossa ação no mundo a partir do etos progressista-capitalista, de acordo com o qual as sociedades modernas vivem e tentam “prosperar”. Somos esse leão do “eu quero”, agindo como se fôssemos o centro do universo, arrogantes, explorando, dominando, destruindo tudo em nossa saga por poder absoluto. No processo exaurimos e esgotamos as energias renováveis do planeta, poluindo, deteriorando, preocupados apenas com o ter, o “eu quero”, o “eu posso”, como o infante terrível que precisa ter todos os seus desejos pueris satisfeitos, quando e como queira. E o lobo da nossa ganância é voraz, consumindo a tudo no buraco negro da posse, do nunca é o bastante, do quero sempre mais. Orgulhosos, em nossa ganância descontrolada, não admitimos nossa sombra colossal, nossa fraqueza maior: a húbris humana, que acredita que o homem pode tudo, que está acima do Bem e do Mal, e na sanha por progresso, lucro e grandeza, tem como credo primeiro o maquiavelismo de “os fins justificam os meios”.

Chris Hedges, jornalista e escritor americano, traça um perfil bastante sombrio, na verdade aterrador, de nossa sociedade moderna em seu discurso “O mito do progresso humano e o colapso das sociedades complexas”, (2) feito em Santa Mônica, Califórnia, em 13 de outubro de 2013, e transcrito pelo site Truthdig.com (veja o texto completo em inglês aqui).

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Gregory Peck em Moby dick, de Hohn Huston(1956). Foto: Kobal – Reprodução

Nesta fala, ele começa rememorando o livro Moby Dick, de Herman Melville, cuja caça sangrenta à baleia do título é na verdade uma parábola para a personalidade e cultura americanas e ocidental, e por que não dizer, para nosso etos capitalista – esse tema da caça à baleia chega a ser mesmo literal, tendo em vista a matança impetrada contra baleias, golfinhos e afins em alguns países. Tendo esta metáfora como pano de fundo, ele diz que o sistema financeiro americano, e por conseqüência, o mundial, assim como a participação democrática, não são mais do que miragens, ilusões. Os ecossistemas do planeta se desintegram por toda a parte, com aquecimento global, acidificação dos oceanos e a ação humana predatória e depredatória  generalizada. O planeta simplesmente não suporta o ritmo de consumo em que vivemos, ou melhor, em que a elite e classes mais abastadas vivem. “O assalto corporativo na cultura, jornalismo, educação, artes e pensamento crítico deixou aqueles que falam a verdade marginalizados e ignorados, como Cassandras desvairadas, que são vistas como ligeiramente desequilibradas e depressivamente apocalípticas. Somos consumidos por uma mania de esperança, que nossos mestres corporativos provêem, às custas da verdade” (2), ele diz, à guisa de explicação do porquê estas coisas não são amplamente discutidas e debatidas. Sociedades decadentes, ele alerta, “sempre fazem guerra contra a arte, a cultura e contra indagações intelectuais independentes por esta razão. Elas não querem que as massas olhem dentro do abismo” (2). Eles condenam e vilipendiam os que ousam pensar, diz ele, citando Noam Chomsky, Ralph Nader e Cornel West e Edward Snowden, como pensadores que têm tentado dizer a verdade. Hedges relembra que a espécie humana, liderada pelos europeus e euro-americanos, “vem numa saga planetária de 500 anos, furiosamente conquistando, saqueando, pilhando, explorando e poluindo a terra”, cometendo verdadeiros genocídios ao aniquilar etnias indígenas inteiras no processo. Mas o jogo acabou, ele diz. “As forças técnicas e científicas que criaram uma vida de luxúria incomparável, como também poder econômico e militar sem igual para uma pequena elite global, são as forças que nos condenam agora. A mania de expansão e exploração econômicas incessantes tornaram-se uma maldição, uma sentença de morte”. Sociedades complexas, ele alerta, “têm o péssimo hábito de se destruir no final. Através da história humana, o colapso das sociedades complexas acontece não muito depois que elas alcançam seu período de maior magnificência e prosperidade” (2). Ele lembra que foi assim com os Maias, os Sumérios e a civilização da Ilha de Páscoa, e poderíamos acrescentar os Romanos e os Gregos, que apesar de não terem sido extintos como etnia, seus impérios certamente foram.

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Uncle Hubris – Robert Grossman – Reproduçção

Um dos mais patéticos aspectos da história humana é que cada civilização se expressa mais pretensiosamente, compõe seus valores parciais e universais mais convincentemente e clama imortalidade para sua existência finita, no exato momento em que a decadência que leva à morte já começou”, refere-se Hedges à fala de Reinhold Niebuhr, teólogo dos Estados Unidos.

O discurso de Hedges é bastante longo e me desculpo por me estender tanto sobre ele aqui, mas acredito que seja uma visão muito lúcida e cortante do atual estado de coisas neste planeta e com ele queria trazer presente um panorama claro da vida como a vivemos hoje para continuar com o raciocínio anterior, dos processos alquímicos, o que nos leva de volta à CALCINATIO.

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O Leão sem patas já não pode correr atrás de suas presas – Imagem alquímica – Reprodução

Uma das imagens mais fortes da Calcinatio é a do Leão que tem suas patas amputadas, simbolizando que sua capacidade de ação e de posse está limitada e ele tem que se submeter e vivenciar essa frustração. “O leão já não pode dar patadas em nada, nem perseguir a presa se já não tiver as patas. É um símbolo do corte das paixões por um ato volitivo consciente” (1), diz Liz Greene. Outra imagem também poderosa é a do lobo que precisa queimar, sob as vistas e permissão do alquimista. E a queima do lobo ou amputação das patas do leão simbolizam, num nível muito profundo, a frustração do desejo, “é o sacrifício voluntário de algo para que outra coisa possa surgir” (1). Se nunca sentimos esta frustração, nunca passamos do estágio do leão e do lobo, e esse parece ser o mal da nossa civilização, particularmente da nossa era, acostumados que estamos a ter tudo o que queremos, quando queremos, sejam coisas, pessoas, poder, dinheiro, sem querer nos dobrar a limites quaisquer que se apresentem, mesmo aqueles que nos alertam de forma máxima que não há mais fronteiras a serem quebradas, não há mais mundos a serem conquistados, nem riquezas infinitas a serem exploradas ou possuídas.

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O Lobo precisa ser queimado – Imagem alquímica – Reprodução

Uma outra imagem pertinente da Calcinatio é o Purgatório, o lugar da queima dos pecados e da purificação. “O fogo, bem como o ardor e a frustração, também purifica e ilumina. A iluminação, ou um sentido do grande significado contido na experiência, é um dos objetivos da Calcinatio, bem como a pureza que brota da absoluta honestidade consigo mesmo” (1)

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Hell – Hieronymus Bosh – Reprodução

Tendo em mente todas estas imagens horríveis, de leões sem patas, lobos sendo queimados, purgatórios, vejo que a Grande Cruz Cardinal vem simbolizar essa Calcinatio Alquímica que precisa ocorrer em nossa consciência humana, em nossas sociedades, nas massas disformes do coletivo, mas especialmente no individuo infectado pela húbris e pela sede de poder que nos trouxe ao ponto em que estamos.

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O lobo devorador é queimado no processo da Calcinatio Alquímica – Reprodução

 

Uma vez que a frustração do desejo é instrumento fundamental na calcinatio, é sintomático, profundamente simbólico e ao mesmo tempo assombrosamente literal que Marte esteja tão debilitado nesta Grande Cruz da encarnação. Marte representa o desejo, a vontade e a sobrevivência individuais e estando tão enfraquecido, retrógrado em Libra, simboliza que nossa vontade individual precisa se dobrar à vontade maior (Júpiter-Urano-Plutão); é o individuo contra as forças cósmicas, representadas por Urano-Plutão, que não estão somente lá fora, mas também na psique individual. Precisamos, pois, permitir que a Calcinatio de fato calcine nossa vontade, nosso desejo infrustrado de ter sempre mais; permitir que o fogo queime o lobo que a tudo devora; precisamos aprender a lidar com nossa frustração, aprender a conter o infante terrível, coletivo e individual, que está nos levando à destruição; deixar que o fogo queime e purifique as estruturas e sistemas capengas que criamos e que estão nos levando para o abismo; precisamos passar pelo pugatório e purificarmo-nos de nossa húbris imperiosa e cega. Se não nos dobrarmos diante das evidencias do colapso provocado por essa húbris e ambição desmedida, estaremos fadados a desaparecer, exatamente como os dinossauros, os Sumério, os Maias, os Romanos… Com o agravante de que o homem antes tinha terras distantes e desconhecidas para explorar e hoje isto já não existe, pois é a própria Terra que entra em colapso. Ah, tem o espaço sideral, o universo inteiro à nossa disposição, ao alcance da mão da nossa húbris. Será mesmo, Cara Pálida?

centesimo macacoUma nova consciência precisa surgir se é para continuarmos como espécie neste planeta. E isso começa no plano individual, mas precisa adquirir massa crítica para que se torne um fenômeno coletivo, como na hipótese da Ressonância Mórfica, também conhecida como Teoria do Centésimo Macaco*, proposta pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake, em A New Science of Life: The Hypothesis of Formative Causation (1981), segundo a qual, campos mórficos existem como estruturas que se estendem no espaço-tempo moldando a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material (3). Segundo a Teoria da Ressonância Mórfica, as informações se propagam no interior dos campos mórficos, alimentando uma espécie de memória coletiva, assim, mesmo quando apenas um indivíduo muda um comportamento e o repete um número suficiente de vezes, a informação dessa repetição vai se propagando a outros indivíduos gradativamente, até que um número específico de indivíduos é atingido, e a informação torna-se de domínio comum coletivo, daí a idéia de que o centésimo é o individuo crítico para que a mudança seja global. Isso é uma teoria muito parecida com a do Inconsciente Coletivo, postulada por Carl Jung, como o próprio Sheldrake admite, dizendo que a diferença básica entre as duas teorias é de que Jung referia-se exclusivamente à experiência humana, enquanto ele, Sheldrake, afirma que este é um princípio atuante em todas as partes do universo. (Caso queira ler mais sobre a Teoria do Centésimo Macaco e a pesquisa de Sheldrake, visite estes blogs e sites: Escoladeredes; Vivenciaemcura; Galileu).

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Agora eu pergunto: e se você ou eu formos o centésimo macaco? E se nossa ação individual for o fator decisivo na transformação e na mudança que tanto queremos ver no mundo? Isso muda um pouco a perspectiva das coisas, não? É o caso então, de parar de dar justificativas pobres e tolas para não agir de forma íntegra e consciente no mundo. Como? Desde ações pequenas, práticas e simples, como não jogar lixo na rua, desligar a torneira, apagar a luz do ambiente que não está sendo usado e questionar-se sobre seus hábitos de consumo diariamente, a outras maiores e mais conceituais, como por exemplo, agir de forma responsável em todos os âmbitos da sua vida, respeitar a vida em todas as suas manifestações (mineral, vegetal, animal, animada, inanimada), refletir sobre o impacto de suas ações em maior escala no planeta e por aí afora.

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Chris Hedges tem um tom claramente socialista em sua fala. E embora eu pessoalmente acredite que o sistema capitalista está fadado ao fracasso simplesmente por não ter sustentação possível, também não acho que o Socialismo seja a cura para nossos males atuais. Um é a sombra do outro, como em toda situação de polaridade. Já tivemos tantos sistemas implementados ao longo da história humana, capitalismo, comunismo, socialismo, liberalismo, anarquismo… Todos eles propondo utopias falíveis e inexecutáveis, simplesmente porque não consideram as idiossincrasias da natureza humana em sua singularidade. Por isso, não acredito em “ismos”, nem acho que a grande mudança que precisa ocorrer em nossa era necessariamente se dê por sistemas políticos e financeiros, pois todos eles têm suas falhas e suas sombras. Não tenho respostas, pelo contrário, tenho um monte de perguntas, que parecem apenas levar a outras perguntas. Mas para mim a Teoria da Ressonância Mórfica faz todo o sentido, assim como a Teoria do Inconsciente Coletivo de Jung. Daqui do rés da minha humilde experiência humana, eu continuo a dizer que a mudança fundamental, essencial, é a do individuo, é a mudança pessoal. Em algum momento um individuo será o centésimo macaco e fará toda a diferença. E esse individuo pode vir a ser eu. Ou você. Portanto, não nos furtemos de fazer nossa parte, por menor e mais inútil que pareça. Quem pode saber quando uma pequena ação ou atitude será o fator decisivo?

Pense nisso.

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Reprodução
  • A Teoria do 100° Macaco

“O Centésimo Macaco é o nome de um novo mito. Trata-se de uma estória que apareceu, é repetida e serviu de tema literário nos últimos vinte anos. Tem origem muito recente e, no entanto, como os mitos gregos a respeito da Guerra de Tróia, não está claro onde terminam os fatos e começam as metáforas. A estória se baseia em observações científicas sobre colônias de macacos no Japão. A versão mais amplamente difundida escreveu-a por Ken Keyes Jr., que apresento a seguir em forma condensada e parafraseada.

Ao longo da costa do Japão, os cientistas estudam colônias de macacos habitantes de ilhas isoladas, há mais de trinta anos. Para poder manter o registro dos macacos, eles colocavam batatas doces na praia, para que os animas as comessem. Os macacos saíam das árvores para pegar as batatas e, assim, expunham-se a ser observados com total visibilidade.       Um dia, uma macaca de 18 meses chamada Imo começou a lavar a sua batata no mar, antes de comê-la. Podemos imaginar que seu sabor tornava-se assim mais agradável, pois o tubérculo estava livre da areia e do cascalho e, talvez, ligeiramente salgada.      Imo mostrou aos outros macacos de sua idade e à sua mãe como fazer aquilo; os animais jovens mostraram às próprias mães e, aos poucos, mais e mais macacos passaram a lavar as batatas em vez de comê-las com areia e tudo.              No princípio, só os adultos que tinham imitado seus filhos aprenderam o jeito novo; gradualmente, outros também adotaram o novo procedimento. Um dia, os observadores perceberam que todos os macacos de determinada ilha lavavam suas batatas doces.         Embora isso fosse significativo, o que foi ainda mais fascinante de registrar foi que, quando essa mudança aconteceu, o comportamento dos animais nas outras ilhas também mudou: todos eles agora lavavam suas batatas, e isso apesar do fato de que as colônias de macacos das outras ilhas não tinham tido contato direto com a primeira.        O Centésimo Macaco é uma alegoria da Nova Era que oferece esperança às pessoas que trabalham para operar mudanças em si mesmas e salvar o planeta, e que às vezes duvidam de se seus esforços individuais e se afinal de contas causarão alguma diferença ” (copiado do blog Vivencia em Cura)

Referências Bibliográficas

(1) Liz Greene & Howard Sasportas, A dinâmica do Inconsciente, Ed. pensamento

(2) Chris Hedges, The myth of human progress and the collapse of complex societies

(3) Rupert Sheldrake – A New Science of Life: The Hypothesis of Formative Causation (1981)

A Semana Astrológica – Por que Você Está vivo?

grande cruzSemana atípica, começando com um feriado prolongado que vem se desenrolando desde a sexta-feira.

Semana de fato atípica com tanta coisa acontecendo, dentro e fora de nós. A Grande Cruz é a grande protagonista da semana, (e do ano) especialmente de segunda a quarta-feira. Um após o outro, os planetas se alinham dando exatidão à configuração chamada Grande Cruz Cardinal. Segunda, terça e quarta-feira vêm a exatidão dessa configuração acontecer numa seqüência quase cronometrada. Urano quadra Plutão retrógrado (segunda, 16h28min)*, em seguida, Marte movendo-se para trás, enfrenta primeiro Júpiter (terça, 16h04min), depois Urano (quarta, 03h55min) e Plutão (quarta, 10h18min). No fim, todos lutam a mesma batalha, mesmo que de pontos de vista diferentes. Todos estão emaranhados, atacando-se mutuamente e defendendo-se, numa dinâmica vibrante que exige decisão rápida e ação imediata. Todos forçando uma morte e um renascimento, dolorosos, porém necessários. Todos obrigando-nos a ir fundo dentro de nós mesmos, em busca de força interior e daquilo que é de fato importante, essencial. Todos perguntando-nos: “Por que estás vivo? Por que estás neste tempo-lugar em que te encontras? Qual é o objetivo? Qual a tua responsabilidade no atual estado de coisas?”

De fato, Briga de Cachorro Grande!

Sendo esta a semana em que a Grande Cruz Cardinal se faz exata, exatos talvez fiquem também nossos conflitos, e no olho do furacão, talvez consigamos finalmente colocar o dedo na ferida e identificar o que está errado, que ação precisa ser tomada e de que forma.

Quatro dias super intensos, que simbolizam a culminação de processos que vêm se desenrolando nos últimos meses, e por que não dizer, anos, no plano individual e coletivo, consciente e inconsciente.
Transformação à vista!

“Quando a determinação encontra o caminho – através da aceitação e da boa vontade – novas perspectivas aparecerão que levarão ao crescimento interior” (1), é o que parece nos dizer esta Grande Cruz. As coisas parecem se demorar, criando mais tensão do que podemos suportar, e, quando achamos que não podemos mais tolerar, a própria aceitação das coisas tal como são, mostra-nos uma saída. Esta é a semana do “transforma ou transforma”. Temos a oportunidade de reaver parte da nossa Sombra que projetamos no outro ou no coletivo e neste contexto, sempre é bom lembrar que só mudamos o que aceitamos, enquanto negamos, damos murro em ponta de faca e lutamos contra nós mesmos, ao invés de a nosso favor.

O drama da Grande Cruz Cardinal tem como pano de fundo nesta semana a Lua viajando primeiro por Capricórnio, depois por Aquário, quando se torna minguante (terça-feira). A Lua minguante simboliza a finalização de um ciclo importante e muito impactante. Esta semana oferece oportunidades de assentarmos, pelo menos em parte, tudo o que tem sido revirado nos últimos meses, e prepararmos o terreno para o ciclo novo que se inicia com o Eclipse Solar do dia 28. Sendo Aquariana, a Lua que míngua sugere que pelo menos tentemos manter um certo distanciamento e visão desapegada ao ponderarmos todas as questões, enquanto Mercúrio  entrando em Touro (quarta-feira, às 06h16min) nos ajuda a “ruminar” e ser mais realistas quanto a expectativas e resultados.

Na quinta-feira a Lua desinfla mais um pouco em Peixes, fundindo-se a Netuno, e junto com o Grande Trígono em Água, dá um clima de Participation Mystique à quinta e à sexta-feira. Vênus, ainda dilacerada pelo contato com Quíron no domingo, 20, faz trígono com Saturno e as feridas podem se reabrir, ou podemos achar uma reserva extra de resiliência no meio da aparente falta de sentido de certos aspectos ou situações em nossa vida.

Na sexta-feira Mercúrio funde-se ao Sol em Touro. Tendemos a ver tudo de forma afunilada, conforme nosso próprio ponto de vista, com dificuldades para sair da nossa subjetividade, que exige uma “palpabilidade” limitante. O fim de semana sugere mais interiorização e repouso com a Lua ficando vazia depois da conjunção com Vênus das 17h03min na sexta-feira, até as 07h01min do sábado, quando entra em Áries. Porém, mesmo ao entrar em Áries a Lua permanece incomunicável, sem aspectos, indicando que a introspecção continua por muitas horas, com o potencial ainda de nos sentirmos irritados e fora de sintonia com nossos próprios sentimentos.

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Stepping out of my own Shadow – Johnny & Kyrah de Wit – Reprodução

Ainda no sábado Mercúrio harmoniza-se com Netuno em Peixes e a mente ávida por literalidade cede um pouco à imaginação luxuriante de Peixes.

No domingo a Grande Cruz recebe estímulo extra com a Lua Ariana conjunta a Urano em Áries. Mais um domingo em que o almoço de família pode trazer à tona esqueletos escondidos em armários que podem ser de repente escancarados pela audácia e brusquidão Arianas.

Aproveitemos estes ventos para ventilar e arejar a casa, os armários, as relações, a vida!

Reinventemo-nos! Transformemo-nos!

Ótima semana para você!

 

  • Horários de Brasília

(1) Johnny De Wit, artista plástico holandês.

 

A Semana Astrológica – Vibrando o Amor Universal

Semana de 14 a 20 de Abril

Joao batista conrado - desenho de lousa
João Batista Conrado – Desenho de Lousa – Reprodução – Veja outras obras do artista: http://www.arteducacao.pro.br

Temos pela frente uma semana rara e especial. Uma semana cheia de configurações extraordinárias, que nos deixam em grande expectativa e instilam em nós um senso de reverência e assombro diante dos mistérios do Universo. Como pano de fundo para o drama protagonizado pela Grande Cruz Cardinal, temos durante toda a semana uma forte ativação do elemento Água, através de dois Grandes Trígonos que se formam na quarta-feira, um deles permanecendo ativo até o fim de junho. Marte passa a ser o único ponto em Ar, dificultando nossa clareza de raciocínio e desapego emocional das coisas, ou isso talvez venha sinalizar que tudo o que vivenciamos nestes tempos extremos precisa ser sentido de forma profunda e visceral, precisa do nosso envolvimento e comprometimento integral. Toda essa ativação de Água vem sugerir que permaneçamos vibrando o Amor Universal. Felizmente a entrada do Sol em Touro fornece ancoragem, um canal que nos ajuda a aterrar e a não perder o prumo no olho do furacão.

Na segunda, Mercúrio, ao juntar-se a Urano e quadrar Plutão, traz à luz da consciência os temas que têm sido cozinhados em fogo lento em nossas caldeiras internas e também nos bastidores do grande palco coletivo. Plutão estacionário torna essa consciência aguda, como um espinho enfiado na carne.

Na terça temos um eclipse poderoso, abrindo uma Tétrade de Luas Vermelhas (seqüência de quatro eclipses totais da Lua, que ocorre apenas de tempos em tempos), que se desenrola entre 2014 e 2015; um eclipse que vem jogar luz e propiciar insights no âmbito dos relacionamentos, em nível micro e macro, individual e coletivo – Leia sobre o eclipse aqui.

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Wilk Wieslaw – Reprodução

Na quarta e quinta somos embebidos nas Grandes Águas Universais de dois Grandes Trígonos formados pela Lua em Escorpião, Júpiter em Câncer e Netuno-Vênus-Quíron em Peixes, seguido do outro, também Aquoso, entre Vênus-Quíron em Peixes, Saturno em Escorpião e Júpiter em Câncer. Vênus em Peixes também inicia um quincunce a Marte Rx em Libra. Aprofundada fica ainda mais a nossa percepção da importância dos tempos que vivemos, sensibilizando-nos de forma pungente com tudo o que se passa à nossa volta. Nossas emoções e sentimentos estão à flor da pele, sentimo-nos em carne viva. Extasiados ficamos com a incrível velocidade com que tudo parece acontecer. Temos uma sensação de aceleração e ao mesmo tempo de atemporalidade, de estarmos congelados no tempo, tão carregadas são estas energias.

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Johfra Bosschart – Reprodução

A sexta-feira nos encontra ainda vivenciando fortes sentimentos, como simbolizado pela quadratura da Lua em Sagitário a Netuno-Vênus-Quíron em Peixes.

No sábado a Lua, ainda na fase cheia, entra em Capricórnio e no domingo é o Sol que torna-se Terroso ao entrar em Touro às 00:56, oferecendo chão firme que nos dá um mínimo de sustentação  e suporte para a quadratura exata de Júpiter-Urano, que ocorre às 2:56 e depois para a oposição Júpiter-Plutão às 18:33. Vênus faz conjunção exata a Quíron às 13:39, também no domingo de Páscoa, que promete ser intenso e bastante turbulento.

Diante de tudo isso, o que podemos fazer é permanecer reverentes perante a força do tempo e dos ciclos cósmicos que vivemos. Permanecermos abertos à Vida e vibrando o Amor Universal

Raffaello Sanzio
Raffaello Sanzio – Reprodução

“Que se faça a Tua Vontade, pois nós somos pequenos e incautos e de nada sabemos!”

Meditemos, oremos, ancoremo-nos!

Uma semana de reverência, amor e paz para todos!

Guadalajara no México Foto AFP
Eclipse da Lua Vermelha visto do México – AFP Reprodução

Lua Cheia e Eclipse Lunar em Libra – A Transformação da Alma Coletiva

FullLunarEclipse uthah people Nesta terça-feira temos um eclipse total da Lua (15/04/2014, 04h46min da manhã, Brasília) com a Lua a 25°15’ de Libra e o Sol a 25°15’ de Áries (na Lua Cheia Lua e Sol sempre estão em oposição, e num eclipse Lua, Terra e Sol estão em alinhamento).

Um eclipse é uma lunação super potente, ou seja, potencializa a energia dos acontecimentos, internos ou externos, e no mapa natal, sua ação é sentida na área da vida representada pelo eixo de casas onde acontece. Esperado com grande entusiasmo por uns e com pavor por outros, este eclipse tem dado o que falar há muitas semanas, ou meses. Não faltam fontes sensacionalistas predizendo (mais uma vez) um fim do mundo, causado pelo eclipse da Lua “Sangrenta” e pelo Tétrade, uma seqüência de quatro eclipses totais que ocorrem entre 2014 e 2015. Apocalipse, Armagedon… Será? Mas além das predições apocalípticas, o que tem este eclipse de especial? Vamos olhar este eclipse mais de perto?

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Imagem Alquímica de um Eclipse – Reprodução

Série Saros 122

Eclipses ocorrem em séries denominadas Série Saros (Saros significa repetição). Eles começam num Pólo da Terra, e vão gradativamente viajando pelos séculos afora, até alcançar o Pólo oposto. Então as Séries Saros têm começo, meio e fim. Cada série se desenrola por muito mais de mil anos, com eclipses ocorrendo a cada 18 anos e cerca de 11 dias. O último desta da Série Saros 122 aconteceu em 4 de abril de 1996 e os temas desencadeados na sua vida no presente momento têm a ver com os temas que estavam senso acionados naquela época – vale a pena tentar recapitular. Bernadette Brady, em seu livro The Eagle and The Lark, usa a floresta como metáfora para explicar a idéia das Séries Saros: “Imagine todo o conceito dos eclipses como uma floresta. Cada Série Saros é uma árvore na floresta e cada eclipse individual, é como uma folha de uma árvore específica (…) Tentar trabalhar com um eclipse como um evento individual sem levar em conta a série a que ele pertence é equivalente a pegar uma mão cheia de folhas no chão da floresta e tentar descobrir a história da árvore, sem saber que as folhas em nossa mão pertencem a várias árvores diferentes” (1). No total, cada Série Saros contém 70 ou mais eclipses. Cada uma deles apresenta as mesmas características da Séries Saros a que pertence, e para saber quais características são estas, olhamos o “mapa natal” da Série em questão.

Saros Série 122 Nasa
Início da Série Saros 122

Este eclipse pertence à Série Saros 122 (nomenclatura da Nasa) (2) (3). Começou a 14 de agosto de 1022, às 14h51min no Pólo Norte, e termina no Pólo Sul a 29 de outubro de 2.338. De acordo com a estudiosa de eclipses Christine Arens (3), quando se levanta o mapa do começo de uma série de eclipses, deve-se usar sempre GMT, Greenwich Mean Time, e a cidade específica para a qual se quer analisar a influência do eclipse. Neste caso, usei Brasília. O mapa mostra Saturno conjunto à Lua em Aquário, em oposição ao Sol em Leão. Vemos ainda uma T-Square entre Marte em Leão, em conjunção exata com o Nodo Norte, oposto a Netuno em Aquário e os dois em quadratura a Júpiter em Escorpião, que é o único ponto em Água. Então esta é uma série que traz em seu DNA assuntos da polaridade indivíduo x coletivo, ser especial x ser comum, diversão x dever. É uma série também bastante “cerebral”, visto que há uma ênfase grande em Ar, indicando que é uma série particularmente pertinente para os relacionamentos em geral e que há uma tendência a racionalizar demais as coisas. Há possibilidade de desperdício de energia, uma vez que Marte está emaranhado com Júpiter e Netuno, mas mesmo assim, sendo ainda ponto focal de uma Pipa/Papagaio envolvendo Netuno, Urano e Vênus, esse Marte é também profundamente idealista e um amante da justiça e da honra. Por estar em conjunção exata com o Nodo Norte, sua ação adquire uma qualidade fatídica, ou seja, a ação de Marte é particularmente potencializada ou realçada nesta série. Mas tirando isso, esta não é uma série notadamente estressante ou complicada, como bem enfatiza Christine Arens(3). Então, por que tanta celeuma ao redor deste eclipse?

eclipses
Eclipse – Imagem Alquímica – Reprodução

A celeuma não provém exatamente do eclipse em si. A questão é a conjuntura em que este eclipse ocorre e o fato de eclipses funcionarem como catalisadores, ou seja, eles precipitam eventos que estavam dormentes ou “esperando” para acontecer. A Série Saros 122 não é especialmente tensa, mas este eclipse do dia 15 de abril é provavelmente o mais tenso da série. Por que? Por causa da mais-do-que-falada Grande Cruz Cardinal. O mapa deste eclipse em específico mostra sim, uma tensão fabulosa, formidável!

Eclipse Lunar 15 de Abril
Eclipse total da Lua, 15/04/2014, 4h42min, Brasília, com ênfase na Grande Cruz Cardinal

Primeiro, Lua e Sol estão hipnotizados um pelo outro, sem fazer maiores aspectos com nenhum outro planeta, trazendo uma qualidade ainda mais extrema a este eclipse. A favor temos o fato de o regente da Lua Cheia e Eclipse em Libra, Vênus, estar em condições razoáveis, ou seja, está Peixes, signo de sua exaltação, embora deixando uma conjunção com Netuno e caminhando para outra conjunção com Quíron. Por outro lado, o regente de Áries, Marte, retrógrado em Libra, está em dificuldades, como já discutimos em vários posts anteriores. Como vimos acima, Marte também tem papel fundamental e fatídico nesta Série Saros e o fato de ele estar atualmente retrógrado joga luz extra sobre seu papel e atuação nesta configuração. Ora, Áries e Libra formam o eixo do relacionamento, assim como Vênus e Marte, seus regentes, são dois planetas relacionais. Considerando que a Série Saros 122 é uma série extremamente aérea, e Ar é o elemento dos relacionamentos, isso traz uma ênfase extra à questão. Além disso, a Grande Cruz aciona este eixo sobremaneira com Marte e Urano em oposição – e Urano ganha a ajuda de Mercúrio – trazendo também para o olho do furacão o eixo parental, Câncer e Capricórnio com a oposição Júpiter-Plutão. Aliás, Plutão está estacionário-retrógrado, ou seja sua ação será sentida de forma aguda e extrema. Trocando em miúdos, os desafios se avolumam nos relacionamentos e parcerias de todo tipo e também no eixo mais social, clã x sociedade, valores familiares x valores coletivos. Aqui Júpiter tende a proteger a família, o clã, o senso de pertencimento, os laços sanguíneos e afetivos, mas Plutão é implacável e passa por cima de tudo e todos em seu trabalho de destruir para reconstruir. 

Os temas da Grande Cruz Cardinal, assim como da quadratura Urano-Plutão têm sido exaustivamente discutidos por astrólogos de todo o mundo desde 2010. Eu mesma já falei sobre isso neste blog várias vezes, especialmente no post da Lua Nova de Áries. Então, não vou me estender sobre impactos sociais, econômicos, políticos, etc, até porque entendo pouco de Astrologia Mundial. Quero focar na questão dos relacionamentos em geral e abordar apenas algo que é ao mesmo tempo muito óbvio e muito sutil. Na mandala natural zodiacal, essa Grande Cruz cai no eixo da Encarnação, Ascendente-Descendente e Fundo do Céu-Meio do Céu. Os signos cardinais, Áries, Câncer, Libra e Capricórnio estão diretamente relacionados com nossa posição e encarnação no mundo. Nascemos (Áries), de uma família (Câncer), depois encontramos outros com quem formamos parcerias (Libra) e que nos ajudam ou nos obrigam a definir nossa posição no mundo (Capricórnio). Então essa Grande Cruz coloca sob escrutínio questões sobre a sobrevivência individual (Marte-Áries) e da espécie (Plutão em Capricórnio). Mas principalmente, a Grande Cruz Cardinal simboliza uma transformação profunda na Alma Coletiva, e estando esta alma pronta para essa transformação, quaisquer eventos que ocorram vêm apenas refletir a mudança que toma lugar no inconsciente coletivo. Por um lado, temos abusado e super explorado o planeta, colocando em risco as futuras gerações por causa da poluição, escassez de água e de outros recursos, manipulação genética de organismos vivos cujos resultados no longo prazo ainda são desconhecidos e todos os desmandos causados pelo homem; por outro, criamos e desenvolvemos armas de destruição em massa que poderiam destruir e extinguir a vida na Terra algumas dezenas, quiçá, centenas de vezes. O mundo pára todos os dias sob ameaças de hecatombes nucleares ou biológicas e nós, reles mortais nem chegamos a saber – acredito que Fukushima inspire cuidados neste contexto. Então, a forma como temos vivido não tem sustentação, e certamente podemos esperar um belo chacoalhão da parte de Júpiter-Urano-Plutão, algo que nos desperte para nossa estupidez e falta de visão humana e espiritual, e para nossa relação imediatista e predatória com a vida e com o planeta.

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Reprodução

Outro ponto importante é a visão moderna e secular das relações afetivas, em que temos dificuldade de equilibrar dependência e autonomia, seja dentro dos núcleos familiares, seja nas relações a dois. Nas últimas décadas vimos surgir uma busca excessiva por independência e auto-suficiência, tanto que hoje parece “doença” precisar do outro. Bono Vox já dizia numa música, no início dos anos 90, que “a mulher precisa do homem como um peixe precisa de uma bicicleta”(4), sinalizando o sentimento de obsolescência que acomete o masculino em nossa era. A mulher, depois de séculos de submissão, foi para o extremo oposto, reivindicando independência total e absoluta do macho, criando outro problema: a solidão extrema e o desencontro afetivo que grassa hoje em dia e do qual reclamam igualmente homens e mulheres. A geração nascida com Saturno, Urano e Netuno em Capricórnio parece extremamente cética e niilista em termos de relacionamentos e busca alternativas na bissexualidade, um fenômeno também cada vez mais comum. Então, este eclipse e esta Grande Cruz, entre muitas outras coisas já ditas, vêm propor uma transformação na forma como masculino e feminino têm sido vivenciados e expressos; mais, vem propor mudanças radicais na forma como temos conduzido nossos relacionamentos diversos, na esfera individual, eu-tu (Áries-Libra), na esfera familiar-social (Câncer-Capricórnio) e na esfera maior, nas formas de administração dos recursos e na nossa relação com o planeta e com o coletivo (Júpiter-Urano-Plutão). Uma mudança radical precisa ocorrer na nossa noção equivocada de independência e autonomia a qualquer custo e especialmente na noção mais que equivocada de que o homem é o Senhor Absoluto da Terra. É preciso haver um equilíbrio delicado entre precisar do outro sem ser um peso para ele. Especialmente nas relações entre feminino e masculino. Porque somos auto-suficientes só até um certo ponto. Chega uma hora que todos precisamos uns dos outros, mesmo que não queiramos nos dobrar a isso. O planeta também tem nos mostrado com clareza cruel que o homem precisa se dobrar à evidência de que ele não controla tudo, de que um dia a conta chega na porta e neste caso, a conta está altíssima! É preciso haver também um equilíbrio de poder, para que não haja dominação e exploração. Essa necessidade de equilíbrio no poder e de se repensar as relações é um dos pontos fortes desta Grande Cruz, tanto individual quanto coletivamente – E aqui leia-se nações poderosas x nações pobres/exploradas.

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A Pomba e a Águia – Reprodução

Símbolo Sabiano para 26° de Libra

O Símbolo Sabiano do grau 26 de Libra, vem confirmar estes temas. O símbolo do grau 26 traz a seguinte imagética: “Uma águia e uma grande pomba branca transformam-se uma na outra”(3). Bom, a águia e a pomba são dois símbolos universais. A Águia é uma ave belíssima, imponente, portentosa. É símbolo de força, coragem, foco, perspicácia, agilidade, qualidades de uma caçadora implacável. Era a ave de Zeus-Júpiter, um símbolo masculino. É considerada a rainha do reino das aves, rainha dos céus e simboliza também renascimento e regeneração. Já a pomba é o pássaro sagrado de Afrodite e simboliza o oposto de algumas qualidades da águia. Também é uma ave belíssima, mas pela delicadeza e graça e não pela imponência. A pomba é símbolo da paz, amor, de ternura, do feminino e no Cristianismo é o símbolo do Espírito Santo. Podemos associar a águia com o signo de Áries, o caçador e a pomba branca com Libra, o signo do pacificador, do equilíbrio. O símbolo Sabiano diz que estas duas aves são vistas se metamorfoseando uma na outra.  A sugestão mais óbvia deste símbolo é que neste ciclo precisamos alternar em nós a águia e a pomba, alternar em nós força e gentileza; perceber ou mesmo utilizar as qualidades de ambas as aves simultaneamente, porque haverá situações em que precisaremos equilibrar estes valores; ser flexível e estarmos dispostos a nos colocar no lugar do outro, a ver as coisas sob seu ponto de vista para sermos mais justos e menos etnocêntricos.  Outra sugestão, menos óbvia deste símbolo é que em termos sociais e coletivos, possivelmente veremos pombas dóceis e amorosas transformando-se em águias implacáveis e vice versa, águias normalmente vistas como fortalezas tornarem-se cordatas e presas da força sutil da pomba. Portanto, não podemos subestimar ninguém – em tempo, a Águia é o símbolo dos Estados Unidos. O símbolo para 26 de Libra segundo Charubel traz uma imagem parecida. “Uma garça-real. Denota percepção fina, alguém que está muito atento a tudo o que acontece ao seu redor; ele não pode ficar apático sob nenhuma circunstancia; uma pessoa sensível passível de ser levada a extremos. Este é um ponto muito sensível do zodíaco”. E para terminar a referência simbólica, trago ainda Sephariel: “Um homem forte enviado e emplumado, com uma lança dirigida, pronto para o ataque, um cavaleiro do campo; Denota aquele que será firme na defesa de seus direitos e dos direitos de seu país, sempre pronto para a luta da vida diária, e possuído de coragem e determinação que, junto com seu estado de alerta e cautela, darão a ele vitória sobre seus inimigos. É um grau de vitória” (6). Colocando tudo junto percebemos que essas três fontes simbólicas trazem imagéticas muito parecidas para o grau 26 de Libra, e acredito que especialmente relevantes para o cenário político mundial, quando sabemos que há tensões enormes ao redor da Rússia e do Oriente Médio. Estas regiões passam por delicado momento em que qualquer passo em falso pode significar o início e um conflito mundial sem proporções.

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Vulcão – Reprodução

O Eclipse na Grande Cruz

Voltando à vaca fria, que neste caso não é fria, é escaldante, combustiva: esta Grande Cruz Cardinal, que vem sendo construída desde o ano passado, propondo e exigindo mudanças individuais e coletivas, sacudindo o mundo, política, econômica, religiosa e coletivamente, tem seu ápice nesta semana, com a exatidão das quadraturas entre Júpiter e Urano, Júpiter e Plutão, Urano e Plutão, depois Marte-Júpiter, Marte-Urano, Marte-Plutão, uma após a outra, nos dias 20, 21, 22, 23, sem trégua. Aliás, Como eclipses são famosos por precipitarem e anteciparem acontecimentos, salienta-se que toda esta tensão atribuída à Cruz Cardinal já comece a se manifestar bem antes.

E como isso se dá em termos individuais?

Eclipses simbolizam inícios e términos. Para algumas pessoas novas etapas e novos ciclos estão começando; para outras uma era termina, coisas são finalizadas, especialmente na área dos relacionamentos. Todos temos sentido a tensão se acumulando há meses, e de forma mais intensa nas últimas semanas. A área de vida onde sentimos isso mais fortemente é mostrada pelas casas ativadas pela Grande Cruz. Vivemos um momento raro, único, quando temos a oportunidade de dar a Grande Virada pela qual ansiamos tanto. De modo geral somos requisitados a fazer um exame minuciosos de vida e identificar onde uma mudança de atitudes faz-se necessária; onde repetimos padrões doentios ou neuróticos que precisam ser modificados; onde há desequilíbrio e principalmente, qual a qualidade das nossas relações, quais as motivações reais para nos mantermos em determinados relacionamentos. desentLibra é o signo do equilíbrio e da harmonia. Mas este equilíbrio nem sempre significa algo “agradável”. Porque Libra sempre vai tentar corrigir o desequilíbrio seja ele qual for. Então por exemplo, se há uma situação em que tudo parece agradável demais, pacífico demais, bonito demais, mas aquilo está tudo muito “igual”, tendendo a uma única polaridade, Libra pode funcionar como uma força disruptiva, de crise, que vem “movimentar” a cena, que estava parada demais. Tome por exemplo uma dança de roda, em que todos têm que dançar de forma sincronizada, e como estão de mãos dadas, qualquer passo errado tem efeito no passo do vizinho. Às vezes tudo flui e todos dançam num passo só, coordenados e perfeitamente sincronizados. Mas às vezes percebemos que há um elemento dissonante no grupo. Há situações em que o grupo está coeso e forte, dançando afinados ao ritmo da música e o elemento dissonante será obrigado a fazer um esforço e se ajustar ao grupo. Mas às vezes é o grupo que pode estar dançando fora do ritmo e este elemento dissonante pode ser muito saudável, porque ele vem obrigar o grupo a perceber que algo não está bem, que algo está fora de lugar, fora do ritmo. Essa Grande Cruz vem nos mostrar a dissonância nas nossas relações, a dissonância no mundo. Às vezes somos o elemento dissonante e equivocado que precisa se ajustar e se alinhar; mas em outras tantas, nossa dissonância tem razão de ser porque vem mostrar que o sistema está falido, que o modo de se fazer as coisas precisa mudar. Uma Grande Cruz Cardinal traz à tona grandes crises, grandes questionamentos, grande atividade, grandes mudanças. Tudo aqui é Grande, tudo é crítico e por isso mesmo traz em si possibilidades de transformação drástica e verdadeira.

portrait (detail), malcom liepke Para que não sejamos esmagados neste processo, precisamos estar muito atentos à nossa Verdade Interior, para termos clareza de ONDE devemos estar e O QUÊ devemos estar fazendo. Para isso é preciso estar centrado, atentos, inteiramente presentes no Aqui-Agora. É preciso tomar decisões internas que levem a mudanças de atitudes reais e comprometidas, antes que elas nos sejam empurradas goela abaixo, ou para que não nos tornemos reativos e defensivos. Contribuamos para que a mudança ocorra de forma positiva verificando onde precisamos nos ajustar e onde precisamos ser dissonantes, onde e quando precisamos ser Águia e onde/quando nos tornarmos pomba. Isso exige uma percepção sutil e refinada, exige que sejamos inteiros e que estamos plenamente conscientes de nosso caminho e de nosso destino. Porque a transformação ocorre na alma individual e também na alma coletiva.

Perguntas  que ajudam a clarificar isso dentro de nós:

Estou vivendo a vida que realmente quero? Estou plenamente satisfeito com meus relacionamentos? Que áreas da minha vida estão desequilibradas? Do que já estou farto mas não tomo atitude para mudar? Onde preciso me ajustar e ser flexível? Onde preciso ser o elemento dissonante que provoca questionamentos?

Melanie Reinhart sugere também estas perguntas:  Áries – Qual pode ser  a “ação correta” neste período? Câncer – Quais questões relativas a segurança e nutrição precisam de atenção? Capricórnio – Que velhas estruturas estão sendo destruídas? Libra – E equilíbrio, em que ponto você está em relação a isso? (7)

Ache as respostas e tome as atitudes necessárias. Caso não haja respostas, continue perguntando, ou reformule suas perguntas. Às vezes fazer as perguntas certas é mais importante do que obter respostas.

Praticalidades:

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Diagrama do eclipse, como proposto pela Nasa. Horários do Leste dos Estados Unidos, cujo fuso horário é o mesmo de Mato Grosso – Reprodução

1 – O Eclipse Total da Lua poderá ser visto em todo o Brasil, desde que o céu esteja limpo. Verifique as condições meteorológicas na sua região.

2 – Pessoas com planetas entre o segundo e terceito decanataos dos signos Cardinais, Áries, Câncer, Libra e Capricórnio são mais fortemente afetadas pelas energias do eclipse e da Grande Cruz Cardinal.

3 – Atividades e práticas que ajudam a nos centrar foram sugeridas no post da Lua Nova de Áries 

 

Outros Posts sobre a Grande Cruz Cardinal e Marte Retrógrado:

Marte Retrógrado

2014, o Ano da Mudança

Lua Nova em Capricórnio 2014  

Se Correr o Bicho Pega…   

Lua Nova em Libra 2013   

Mercúrio Na Grande Cruz…

Lua Cheia em Libra 2013

Bibliografia

(1)    BRADY, Bernadette – The Eagle and The Lark – Weiser Books – San Francisco CA

(2)    Site da Nasa http://eclipse.gsfc.nasa.gov/LEsaros/LEsaros122.html

(3)    ARENS, Christine – Eclipses – Webinar promovido por Kepler College

(4)    U2 – Trying to Throw your arms around the world – Album Actchum Baby, 1992

(5)    Símbolos Sabianos por Emond Jones, como mostrado pelo software Astrológico Solar Fire

(6)    CHARUBEL & SEPHARIEL – The Degree of the Zodiac Symbolised – The Aries Press, Chicago

(7)    REINHART, Melanie – A wild ride! – www.melaniereinhart.com

Marte Retrógrado – Quando o Pai é o Inimigo

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Reprodução

Marte está retrógrado em Libra desde o dia 1° de março e fica nesse movimento ainda até o dia 19 de maio, sendo peça fundamental na Grande Cruz Cardinal que movimenta todo o mês de abril. Mas para além dessa Grande Cruz, qual o significado de Marte retrógrado? Que temas ele representa quando aparece no mapa natal? O que tem a nos ensinar? Com a oposição Sol-Marte acontecendo hoje (oito de abril, 17h54m, hora de Brasília), vamos refletir um pouco sobre o simbolismo de Marte retrógrado.

Princípios Básicos

Antes de falarmos do ciclo de Marte, alguns princípios básicos precisam ser levados em conta quando se fala de planetas retrógrados:

a)      Sol e Lua nunca ficam retrógrados;

b)      o movimento de retrogradação é uma ilusão de ótica que nos faz perceber o planeta deslocando-se para trás e isso acontece devido ao relacionamento do planeta em questão com o Sol, e devido às diferentes velocidades de rotação da Terra e dos demais planetas, assim, para os planetas interiores, Mercúrio e Vênus, a retrogradação ocorre em períodos próximos à conjunção inferior com o Sol, enquanto que no caso dos planetas exteriores (posicionados depois da Terra no sistema solar), a partir de Marte, o ciclo retrógrado está diretamente relacionado à oposição com o Sol;

c)       os planetas exteriores Urano, Netuno e Plutão, devido à lentidão de seu movimento e à distância do Sol, passam boa parte do tempo em movimento retrógrado e seu impacto no mapa natal é menos perceptível, a não ser que estejam próximos do ponto estacionário, quando adquirem ênfase especial, pois além de ter sua ação e significado realçados, provavelmente mudarão de direção nas progressões secundárias. Com Júpiter e Saturno não é muito diferente – aliás, de Júpiter em diante a retrogradação tem impacto mais definido em Astrologia Mundial e em Astrologia Horária e Eletiva;

d)      assim, os planetas cujo ciclo de retrogradação é mais perceptível em Astrologia Natal são Marte, Vênus e Mercúrio e considerando que Mercúrio fica 20% do tempo retrógrado (três vezes ao ano, em períodos de aproximadamente três semanas), isso não chega a ser tão traumático, com exceção de situações específicas em áreas regidas pelo planeta – o impacto também é menor porque certamente Mercúrio mudará de direção nas Progressões Secundárias. De forma que em Astrologia Natal os planetas cuja ação é alterada de forma significativa quando retrógrados são Vênus e Marte, dois planetas relacionados ao simbolismo do masculino e feminino. Vênus fica retrógrado cerca de 40 a 45 dias a cada 18 meses e Marte parece mover-se para trás de 60 a 80 dias, a cada 2,13 anos (Leia sobre Vênus retrógrado) (3)

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Maria Eunice Sousa

Retrogradação, um malefício?

A literatura sobre planetas retrógrados no mapa natal ou em tempo real varia de forma extrema, desde um autor dizendo que “Eu pessoalmente não acho o movimento retrógrado muito importante na maioria dos casos” (1), ao ensinamento tradicional em que “atribuíam-se aos planetas retrógrados características tais como debilitação, fraqueza, infortúnio e outros significados terríveis”. (2) No meio, alguns conceitos vagos e outros acurados. A Astrologia Tradicional vê a retrogradação como debilidade acidental, mudando a força do planeta; é certamente considerada em mapas de Astrologia Horária e Eletiva. Já a Astrologia Védica, contrariamente, atribui grande força e potência a planetas retrógrados. Na Astrologia Psicológica, diz-se, entre outras coisas, que as qualidades representadas pelo planeta são introvertidas, voltam-se para dentro e são mais difíceis de ser acessadas, exigindo trabalho interior especial na esfera regida pelo planeta ao longo da vida.

É muito difícil dizer algo realmente novo em Astrologia, um corpo de conhecimento milenar, que desenvolveu-se concomitantemente à evolução e progresso humanos, particularmente nos últimos 200 anos, com o desenvolvimento da consciência individual – lembre-se, num passado não muito distante somente nobres (muito nobres) podiam ser indivíduos, e certamente não da forma como pensamos o indivíduo hoje, todo o resto era uma massa disforme chamada plebe e nesse contexto horóscopos eram erigidos apenas para reis, papas e figuras muito influentes – portanto, não tenho a pretensão neste artigo, de acrescentar nada de novo a respeito de Marte Retrógrado que já não tenha sido dito pelos Grandes que escrevem e ensinam sobre o assunto. Baseio este artigo particularmente em quatro autores: Howard Sasportas, Liz Greene, Melanie Reinhart e Erin sullivan, cujo livro Retrograde Planets, permanece como o melhor e mais completo estudo sobre planetas retrógrados já editado, livro que definitivamente recomendo caso o leitor queira entender mais sobre o assunto (veja referências bibliográficas completas ao final do artigo).

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Marte – Reprodução

Marte, o Embaixador da Identidade

O primeiro dos planetas exteriores, Marte é considerado o embaixador da Tríade da identidade: Sol, Mercúrio e Vênus. Marte é a força da vida, o puro instinto de sobrevivência, aquilo que nos faz levantar da cama de manhã e atuar no mundo. É primitivo, é instintivo e intrinsecamente ligado ao corpo e sentido nele. O relacionamento entre Sol e Marte é um dos mais importantes no horóscopo porque a energia e ação de Marte são instrumentais para que o Sol possa se expressar. Sol e Marte são as duas figuras masculinas por excelência na astrologia e, de formas diferentes, apontam para o arquétipo do pai como figura masculina primeira na psique do menino ou menina. Marte, especialmente, como representante da figura do herói que toda criança pequena enxerga no pai, mas Sol e Marte também simbolizam o herói em cada um de nós, lutando batalhas particulares, simbolizadas pelo signo e casa em que caem no horóscopo, assim como pelos aspectos que fazem entre si e com outros planetas.

A Batalha entre o Rei e seu Embaixador

O ciclo de retrogradação seria então uma batalha entre o embaixador, Marte, e seu Rei, o Sol. “Essa batalha como vista através da função da retrogradação no mapa natal freqüentemente se manifesta nas pessoas como uma sensação de que sua energia e etos heróico foram roubados ou suprimidos. Elas têm que cavar mais fundo para achar seu senso de superioridade individual e freqüentemente se vêem perdidas no desempenho desta tarefa” diz Erin Sullivan(4).

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Irandhir Santos e W. J. Solha no filme “O Som ao Redor” Reprodução

O Pai como Inimigo

Geralmente o pai é visto como o ladrão que roubou essa energia e, de fato, verifica-se um distanciamento entre a pessoa e o pai biológico, de quem se busca compulsivamente atenção e aprovação. Obviamente o pai biológico não necessariamente é um carrasco, ou frio e distante de propósito, menos ainda um pai roubaria “conscientemente” a força de vida do filho ou filha. O que acontece com freqüência é que o próprio pai tem problemas com seu Marte e com sua força de vontade e senso de potência. “Sua própria vontade pode ter sido subordinada ou minada por circunstancias que a criança constela como um tipo de fado e que deve reivindicar de alguma forma”, aponta Sullivan (4). Com o tempo, a batalha com o Pai torna-se uma batalha com o mundo e como é comum em configurações de oposição, a psique utiliza-se do fenômeno da projeção e o Pai que nos impede e se interpõe em nosso caminho é vivenciado de novo através de figuras de autoridade ou de relacionamento próximo: o chefe, um policial, um professor, o marido, a esposa, e assim por em diante.

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Reprodução

Howard Sasportas, falando sobre a oposição Sol-Marte no mapa natal diz o seguinte:

Com a oposição de Sol e Marte surge a tendência de projetar Marte sobre os outros. Sente-se um forte desejo de auto-expressão, mas a força de vontade de outra pessoa parece afrontar esse desejo (a oposição de Marte). Você pode ter a sensação de que alguém está tentando impedi-lo de ser autêntico. A impressão é de que seu desejo de ser você mesmo está em oposição com o desejo da outra pessoas de ser ela mesma. (…) O individuo acha que os outros o estão desafiando ou então provocam brigas a fim de justificar a manifestação da própria vontade e força. O conflito pode se dar com um dos pais, muitas vezes com o pai.  (5)

Outros São heróicos – Eu Sou Heróico

Como disse acima, oposições são um prato cheio para projeções. No plano simbólico como no real há uma batalha de vontades. Sullivan lembra que o pai, ausente ou presente, é essa imagem projetada do herói-lá-fora e ele é uma figura dominante no período em que o ego está mais vulnerável no seu desenvolvimento, dos três aos sete anos. Gradativamente, se tudo corre bem, a criança, depois adolescente, vai aprendendo a internalizar a figura do herói e aprende a vê-la como parte de si mesma. O problema com Marte Rx é que há dificuldades maiores nesse processo de internalização da imagem do herói e o individuo continua a projetá-la em figuras exteriores. Mas a autora estressa que a transmutação de outros-são-heróicos em eu-sou-heróico pode ser feita, mesmo por indivíduos com Marte retrógrado no mapa natal. Em algum momento essa figura super poderosa precisa parar de ser a força controladora na vida da pessoa e ela finalmente se dá conta de que a batalha lá fora, é na verdade, uma batalha interna.

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Herê Fonseca, artista de Mato Grosso Reprodução

Melanie Reinhart afirma algo na mesma linha:

Se alguém nasce com o Sol em oposição a Marte retrógrado, aplicando para uma futura conjunção, um dos grandes temas na vida será a conclusão de algo, talvez uma tarefa ou luta interna, então, com freqüência há uma qualidade de energia removida a respeito daquela pessoa. Ou talvez às vezes ela exploda violentamente. A energia vital de Marte está atada a conflitos de família ou talvez esteja lutando uma batalha de dificuldades e privações ou dificuldades físicas ou ainda psíquicas. Elas podem ainda estar emaranhadas lutando a batalha de outras pessoas ou então sentem a agressividade do ambiente imposta sobre elas (6)

Uso e Abuso de Poder

Reinhart afirma que com Marte Rx outro grande tema é o uso e abuso de poder, já que o inicio da vida é geralmente marcado pela sensação de impotência e a conexão com a vontade e a iniciativa tem que ser construída com o tempo, experiência e introspecção. Quando se tem essa sensação de impotência – e um dos sinais mais óbvios é a dificuldade de dizer “não” – e se começa a trabalhar a questão, normalmente vai-se para o extremo oposto, e de uma “ovelhinha dócil” que não incomoda ninguém, a pessoa pode passar a comprar brigas desnecessárias e ver oposição onde não existe, talvez como forma de exercitar a incipiente assertividade – se a pessoa não se observa com cuidado, ela pode sim, passar a abusar do poder recém adquirido, seja em relacionamentos íntimos ou em esferas mais públicas. É sabido já há tempos que pessoas vítimas de abuso muitas vezes tornam-se abusadores depois. É uma espécie de super compensação.

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Reprodução

Agressividade Passiva

Isso nos leva a outra manifestação possível com Marte retrógrado, a agressividade passiva. Não, não é exclusividade de Marte Rx; pode ser simbolizada também por Marte em Peixes, Marte em Capricórnio, Marte-Saturno, Lua-Marte-Plutão, etc. Agressão passiva, diz Sullivan,  “é um jeito muito especial de ser ofensivo e defensivo ao mesmo tempo – alguns até podem achar que é econômico – não apenas você pode ficar zangado, como pode evitar que o outro retalie abertamente! É um beco sem saída, não apenas interno, mas externo também (…) um sentimento de raiva exalado, mais do que explicitado, a retrogradação provê um método para controlar os outros pela manipulação sutil e não pelo comando direto”(4).

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Reprodução a partir do Blog Escondido em Palavras

Competição, Ressentimento e Inveja

A competição aberta, traço inequívoco de um Marte bem disposto fica disfarçada de falta de interesse, ou pior ainda, de ciúme, inveja, ressentimento e rivalidade – dinâmica iniciada lá, com o pai. Claro, todos nós sentimos esses sentimentos sombrios de vez em quando, e são naturais, inerentes à natureza humana, “são expressões do ímpeto natural de ser o Número Um” (4). Mas um Marte potente é capaz de reconhecer seus limites; sabe reconhecer quando vale a pena ir atrás de um objetivo ou ceder quando percebe que é uma causa perdida. E sabe fazer isso graciosamente. Com Marte Rx, é comum a pessoa se sentir corroída por estes sentimentos de inveja e ressentimento, culpando o outro por ter ou tirar algo que ela julga seu por direito; ela tende a sentir-se pior ainda por ter tais sentimentos e a coisa toda pode virar um ciclo vicioso muito doloroso. “O que ela precisa perceber é que é ela que não está externalizando e expressando aquilo que ela sabe ser seu próprio poder, único e individual.” (4)

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Tim French – Reprodução

Casos de Abuso

E ainda que não seja regra, e que Marte Rx não signifique necessariamente abuso sexual, a questão não deixa de entrar como possibilidade neste quadro. Uma vez que o individuo não se sente capaz de se defender aberta e saudavelmente, ele/ela pode se achar vitimado por um namorado que não respeita o seu “não”, por um familiar abusador que se aproveita da relação de poder, ou mesmo por assédio vindo de estranhos, como exemplificado por um caso de estudo citado em Retrograde Planets, em que a pessoa em questão passou por duas destas situações de abuso. As repercussões, sobre as quais não vou me estender aqui, obviamente, são nefastas e difíceis de se lidar e exigirão da pessoa um trabalho longo, árduo e provavelmente penoso no processo de recuperação do senso de poder pessoal.

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Rodolfo Ledel – Artista Brasileiro – Reprodução

A Oposição Sol-Marte nas Progressões Secundárias

Com Marte Rx no mapa natal, Melanie Reinhart sugere que se observe em que estágio do ciclo de retrogradação a pessoa nasceu, se a oposição Sol-Marte já ocorreu ou ainda vai ocorrer e se Marte mudará de direção nas Progressões Secundárias. Quanto mais próximo da oposição exata, mais agudamente se vivencia estes temas. O período pré-oposição é mais marcado por uma tensão permanente, uma necessidade de estar sempre em guarda; e o período após o aspecto exato tenderia a ser um pouco mais facilitado, pois o indivíduo talvez intua mais rapidamente que o problema é na verdade interno, já que o aspecto é separativo. Já nas progressões, se Marte muda de direção, isso significa um grande ponto de mutação na vida. Os três anos em que Marte estaciona e depois fica direto são marcados por uma descarga extrema de energia reprimida e os conflitos tornam-se mais intensos que nunca. Reinhart diz que pode ser um período, a princípio, muito destrutivo, já que a pessoa não está acostumada a lidar com a energia, e de repente, ela pode entrar em contato com uma raiva antiga e visceral, pode ter recordações de fatos esquecidos e se meter em muita confusão no mundo exterior, pois é muito difícil determinar quem de fato é o inimigo. No fim, isso acaba levando a uma fase de renovada energia, novos projetos e a pessoa sente-se empoderada, dona de si, sem precisar pisar nos calos dos outros para se fazer notada.

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Qiu Anxiong – Reprodução

Sabe Aquele Belo Trígono Sol-Marte?

Mas não é só Marte retrógrado que pode causar problemas. No caso de Sol-Marte, trígonos também podem se revelar enganosos. Todos os outros planetas superiores estão em trígono quando retrógrados, e embora o mesmo não ocorra com Marte, é importante notar que, no caso de um trígono aplicativo, muito provavelmente Marte ficará retrógrado por Progressão Secundária. Sullivan afirma que o trígono Sol-Marte é extremamente enganador, porque quando em trígono com o Sol, Marte está no seu movimento mais lento, ou ficará retrógrado em cerca de 15 ou 20 dias ou terá retornado ao movimento direto 15 ou 20 dias antes do nascimento e estará ainda se recuperando da batalha. “Este trígono produz uma teimosia que não é normalmente associada com trígonos, que são geralmente considerados harmoniosos e confluentes (…) as qualidades do trígono podem até se manifestar, mas o impasse que um Marte lento pode gerar no desejo de se expressar produz frustração intensa na pessoa. De fato, a energia pode fluir entre Sol e Marte com graça e facilidade mas quão fácil é para a pessoa expressar assertividade e agressão? Há geralmente um curto-circuito entre o conhecimento interior da própria superioridade  e a manifestação concreta disso. O aspecto pode se manifestar como fantasias irreais de grandes realizações, um tipo de megalomania.” (4) Por progressão Marte ficará retrógrado entre os 14 e os 20 anos e este ano será muito importante. A oposição que ocorrerá entre Sol e Marte desafiará a “facilidade” do trígono natal, obrigando a pessoa a buscar força interior e a se auto-afirmar. Quando oposição em si ocorre, as coisas ficam realmente “quentes” internamente e o ano é marcado por uma rebelião à vida ou caminho anteriormente escolhidos.

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Gérard Di-Maccio – Reprodução

Pessoalmente Falando…

Na minha experiência com clientes tenho visto casos de Marte Rx no mapa natal ou progredido que exemplificam o que todos estes autores dizem, com algumas diferenças em detalhes. E em períodos em que o planeta está retrógrado, como agora, o número de clientes que o têm natalmente buscando consulta aumenta. É particularmente digno de nota a luta com o pai, que normalmente não é mais apenas um pai, mas O Pai, porque no pai humano, biológico, vê-se na verdade o Pai Arquetípico, geralmente travestido com as cores do Pai Terrível ou Tirânico. Um pai super poderoso ou abusador que, consciente ou inconscientemente, suprime a expressão da individualidade do filho ou filha. Em outros casos, o pai é impotente de alguma forma: fracassou na profissão, faliu completamente deixando a família em dificuldades, ou teve sua vontade suplantada por forças maiores que ele, o que causa uma frustração e senso de fracasso enormes, sentimentos aos quais o filho ou filha é agudamente sensível. Às vezes, a sensação de impotência vem de antes do pai, em gerações anteriores na linhagem masculina, com sucessões de homens que se sentiram emasculados de alguma forma. A luta do pai, do avô e talvez de várias outras gerações, torna-se então a luta do filho, uma busca por reaver o poder pessoal perdido, especialmente quanto Marte Rx cai na casa 12 ou em Peixes. Então a luta adquire nuances de Redenção do Pai e de redenção do masculino na família. Não necessariamente da forma como ocorre com Sol-Netuno ou Sol em Peixes, mas algo relacionado especificamente com a potência e a vontade masculinas e com o uso adequado do poder pessoal.

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David Edward Linn – Reprodução

Escolhendo Batalhas Apropriadas Para  se Travar

Que a pessoa com Marte retrógrado no mapa natal vai enfrentar muitas batalhas ao longo da vida, isso é fato, é inegável. É uma necessidade básica para seu desenvolvimento como indivíduo. Talvez ela demore a perceber que a batalha é primeiramente interna, consigo mesma; e que o pai provavelmente não quis de fato “roubá-la” de sua força e potência. Mas em algum momento ela terá que perceber que a luta é essencial para seu senso de identidade, de “eu”; que ela floresce e frutifica em tempos de guerra e é no campo de batalha, qualquer que seja ele, que ela dá o seu melhor. Ao invés de reclamar e se lamentar que o pai, o chefe, o prefeito, o governo, o professor, o marido, a esposa estão sempre lhe impedindo de ser quem é, ou de fazer o que quer, essa pessoa “deveria aceitar que sua visão de mundo é predisposta a batalhas e que ela deve achar batalhas apropriadas para lutar. Uma vez que o oponente é na verdade interno, o oponente deveria ser a própria pessoa – em termos atléticos, por exemplo, lutar para alcançar o seu melhor desempenho pessoal é a forma mais efetiva de satisfazer sua própria agressão” (4).

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A Liberdade Guiando o Povo – Delacroix (1798-1863) – Reprodução

Concluindo…

Então é isso: escolher cuidadosamente batalhas e guerras que valham a pena lutar, de forma consciente, aberta e limpa, como por exemplo nos esportes, na política, no Direito, na Segurança Pública, nas questões ambientais, etc. Não que seja algo fácil e simplista, mas dessa maneira, a energia da oposição e da luta, será aplicada de forma criativa e poderá produzir resultados formidáveis, estupendos e não só na vida pessoal. Em maior escala, as vitórias poderão representar ganhos e melhorias para todo o coletivo onde se esteja inserido.

Certamente Marte Retrógrado é uma excelente arma de guerra – só se leva mais tempo para aprender a usá-la de forma inteligente e efetiva. Mas é possível!

OBS: Para saber se você tem Marte retrógrado no mapa natal, veja aqui. A retrogradação é representada no mapa por um R em vermelho, com a perna cortada junto ao símbolo do planeta.

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Oposição Sol-Marte Rx – 8 de abril de 2014, 16:54, Cuiabá-MT

Vale a pena lembrar que por estar em oposição ao Sol, Marte está visível a olho nu no período de retrogradação. É uma estrela de brilho vermelho, que pisca incessantemente e que aparece não muito distante de Saturno, também muito brilhante, só que de brilho azulado. 

BIBLIOGRAFIA

(1)    ARROYO, Stephen – Relacionamentos e Ciclos de Vida, Ed. Pensamento, São Paulo

(2)    MARCH, Marion De & McEVANS, Joan – Curso Básico de Astrologia Vol II., Ed. Pensamento, São Paulo

(3)    FALLON, Astrid – Planetary Cycles at a Glance, Fallon Astrographics, London, UK

(4)    SULLIVAN, Erin – Retrograde Planets – Traversing the Inner LandscapeSamuel Weiser,Inc, York Beach, Maine, United States

(5)    SASPORTAS, Howard – A Astrologia e a Psicologia da Agressão, em A Dinâmica do Inconsciente- Ed. Pensamento, São Paulo, SP

(6)    REINHART, Melanie – The Best and the worst of Mars, in The Mars Quartet – Four Seminars on the Astrology of the Red Planet – CPA Press, London, UK

(7)    GREENE, Liz – Thugs and Warriors, in The Mars Quartet – Four Seminars on the Astrology of the Red Planet – CPA Press, London, UK

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A DINÂMICA DO INCONSCIENTE - LIZ GREENE E HOWARD SASPORTASerin