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AQUÁRIO – Roubando o Fogo dos Deuses

AQUÁRIO

Aguadeira
Reprodução – Desconheço o Autor

Aquário é um signo de desapego e sendo início de ano, se estiver com tempo, aproveite para se desapegar de coisas que sabe que não precisa mais. Limpe a vida, limpe o coração e desapegue-se para estar livre para as novidades que virão! Sue Tompkins (1) nos diz que o símbolo de Aquário, o Aguadeiro era representado antes também por uma mulher e o conteúdo da ânfora que ele ou ela despeja produz as duas linhas do glifo do signo. Corresponde ao mês de fevereiro, um tempo, segundo ela, que os Romanos separavam para limpar suas casas e anexos ou edícolas. A palavra fevereiro, diz Tompkins, significa, literalmente, “mês de purificação”, “assim, o Aguadeiro pode ser interpretado como lavando o passado para ficar pronto para uma novo começo, fresco e limpo. Uma imagem muito apropriada para um signo reformador, progressista e orientado para o futuro”. As linhas do glifo também fazem referência às ondas do mar, às ondas elétricas, afinal, Aquário é associado com a eletricidade,  e às energias eletromagnéticas e às próprias energias da terra, complementa ela.

aquario simParticularmente, acho que as ondas do glifo de Aquário também lembram as ondas dos raios, que eu associo com o planeta Urano. Sei que na antiguidade Zeus-Júpiter era o deus associado com raios e trovões. Mas acho que a forma como Urano se manifesta como energia psíquica é muito semelhante à descarga ou queda de um raio: é completamente imprevisível, você não sabe onde vai cair, quanto tempo vai durar nem quando irá ocorrer novamente. É uma liberação de energia fulminante, que tanto pode iluminar quanto destruir. E o Aguadeiro a derramar a água da sua ânfora sempre me chama a atenção para o fato de ele ter a água (sentimentos) contida num recipiente fora dele mesmo e ele derrama essa água sem entrar em contato com ela, daí a tendência a racionalizar as emoções e os sentimentos – é mais fácil analisá-los, percebê-los de longe do que senti-los.

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Reprodução

Signo de AR, Aquário é FIXO, MASCULINO, ATIVO, POSITIVO, YANG. Ideal é palavra chave quando se trata de Aquário, também chamado de Aguadeiro, já que é retratado como uma figura humana com uma ânfora. Pessoas com muitos planetas ou ângulos em Aquário e ainda com forte ocupação da Casa 11, a casa natural deste signo, são naturalmente voltadas para as causas sociais e humanitárias. Elas desejam transformar o mundo e o ser humano na sua melhor versão. Elas têm um IDEAL e se guiam por ele, pela visão da melhor versão daquela pessoa, situação, mundo. Assim como Prometeus, cujo mito exploramos abaixo, elas conseguem enxergar potenciais onde outros só percebem problemas e limitações – às vezes estão tão sintonizadas com este ideal que esquecem de perceber a pessoa real a seu lado. O folclore astrológico diz que é o mais sociável dos signos, o signo dos amigos.

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Jacob Jordaens – Aquário – Reprodução

PROGRESSISTA, inovador, inventivo e amante da LIBERDADE, é extremamente mental e OBJETIVO, já que é o signo que traz o elemento AR na sua forma mais refinada, mais burilada. Civilizado e desapegado, Aquário tem uma grande facilidade de ver as coisas de fora, de longe, como se não fizesse parte do quadro, daí sua capacidade de prever as tendências. Tanto desapego e amor à liberdade pode implicar em alguma dificuldade com a intimidade e a vivência dos sentimentos, que podem ser sentidos, às vezes, como ameaçadores, já que, ao contrário da mente e da razão, sentimentos são coisas incontroláveis e incompreensíveis. Terrivelmente RACIONAL, Ele detesta tudo o que é ou parece irracional, porque a RAZÃO é a coisa mais lógica pela qual o ser humano deveria se pautar. Muitas vezes, ele é tão correto, tão racional e resolvido, que são as outras pessoas ao seu redor que perdem as estribeiras ou têm atitudes loucas, só para ver se provocam alguma reação “humana” nessa pessoa de emoções super controladas!

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Aquário – Vitrais da Catedral de Chartres, Chartres, França – Wikimedia Commons Reprodução

Pode ser o melhor dos amigos e a mais animada das companhias, desde que os temas sejam leves ou abstratos, porque se vier com choros e dramas, esqueça, pernas para que te quero! De modalidade Fixa, ele, que é um catalisador de mudanças na vida de outros, muitas vezes pode ser extremamente conservador e avesso a mudanças na própria vida – ele muda, se for nos seus próprios termos, no seu próprio tempo. Isso reflete uma ambivalência que nasce da dupla regência do signo: Aquário é regido tanto por Saturno quanto por Urano, dois arqui-inimigos, portanto, não poderia ser diferente, este é um signo bastante contraditório e cheio de surpresas. A regência de Urano lhe dá o amor pela liberdade, igualdade, fraternidade, além da inventividade, excentricidade e aquele ar meio elétrico e diferente que lhe é bem característico. O outro regente, Cronos para os gregos e Saturno para os romanos, nós já encontramos em Capricórnio. Urano era seu pai, o deus dos céus estrelados, aquele que deu origem às gerações de deuses olímpicos ao se deitar com Gaia, a Mãe Terra.

Drawing of Aquarius, the eleventh zodiacal sign, appearing in William Hone's Hone's Everyday Book.
Desenho de Aquarius, no Livro de Todos dos Dias de William Hone – Reproduçao de Wikimedia Commons

LIBERDADE e IGUALDADE são duas de suas palavras-chave, assim como JUSTIÇA. Aquário vem depois de Capricórnio e busca destruir as estruturas e hierarquias tão amadas pelo signo da Cabra, porque a seu ver, essas estruturas impedem a igualdade e a justiça. Profundamente afinado com a VERDADE, mesmo que seja a verdade como ele a vê, às vezes torna-se difícil para seus pares, amigos ou amores, que esperam dele uma postura mais parcial, que ele simplesmente não pode oferecer, pois quem busca ser justo tem que ser IMPARCIAL. E, claro, assim como Sagitário, outro signo afinado com a verdade, muitas vezes, para defender a verdade, ele se torna grosseiro, frio, sem tato e franco por demais, ferindo os brios de corações mais sensíveis.

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Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender – Reprodução

Aquário é o signo da pessoa comum, do Zé das Couves ali da esquina, da Dona Maria sua vizinha, do Fulano  ou do Beltrano qualquer, ou seja, é o signo da pessoa ordinário, que detesta os privilégios das classes dominantes tão adorados por Capricórnio. Para ele todos são iguais e têm os mesmos direitos. É o signo dos ideais humanitários, cristalizados nas três palavras de ordem da Revolução Francesa, período em que Urano foi descoberto: LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE. Aqui encontramos a grande família humana  no seu conceito mais abstrato e de fato, é um signo seriamente preocupado com a melhoria da vida para todos, com uma visão de mundo mais justo para todos.

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Selo da Ukrania – Reprodução

Ao contrário de Capricórnio, Aquário não acredita em “deveres” ou coisas chamadas “obrigações”, nem mesmo em relação á própria família ou aos laços de sangue. Ele manda às favas todos os “tem que” da vida e se você quiser que ele NÃO faça algo, é só dizer que ele “tem que” fazer. Ele é o grande REBELDE do Zodíaco e está pouco se lixando para o que você pensa ou deixa de pensar sobre ele. Aliás, outra de suas frases famosas é aquela “o que você pensa sobre mim não é problema meu”. Entendeu? E não espere que ele vá se explicar ou se justificar por qualquer coisa que tenha feito ou dito, fez, tá feito; disse, tá dito! Ao invés de obrigações, o que ele se preocupa mesmo é com PRINCÍPIOS e CONVICÇÕES, que norteiam sua forte CONSCIÊNCIA SOCIAL. No lugar das tais obrigações e deveres ele se vale da cooperação e da livre escolha, mas o problema é que o ideal nem sempre se sai bem nas situações cotidianas e é comum se ver o Aguadeiro agindo de forma dogmática ou autoritária, exatamente da mesma forma que aqueles tiranos ditadores que ele tanto critica!

AQUÁRIO
Aquário – Reprodução

INDEPENDENTE, OBSTINADO, inconvencional, não ortodoxo, às vezes chegando a ser excêntrico, ele vai lutar com unhas e dentes para defender sua própria liberdade e também a dos outros e liberdade de expressão é uma das suas mais nobres bandeiras. Paradoxalmente, é um dos signos mais tolerantes que há, vivendo de acordo com o mote “viva e deixe viver”, mas ao mesmo tempo, para defender suas caras convicções e princípios, pode se tornar EXTREMISTA e RADICAL nas suas posturas e opiniões, personificando a própria INTOLERÂNCIA que tanto combate. Ele também é completamente IMPREVISÍVEL e quando você pensa que finalmente o conhece, ele aparece com outra faceta totalmente diferente de si mesmo. Está sempre surpreendendo e adotando posturas antes impensáveis! Por isso Aquário também está associado ao imprevisível e inusitado e isso está relacionado a Urano.

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Livro das Horas – Reprodução

E sim, como signo de Ar, é ultra-sociável e profundamente interessado em pessoas, em gente, embora isso se dê muito mais do ponto de vista intelectual do que emocional – é quase um interesse científico no ser humano como objeto de estudo. Verdade seja dita, ele muitas vezes é visto mesmo como INDIFERENTE e frio, mas, de novo,  isso nasce do desejo de ser sincero e imparcial. Ele é extremamente amigável sim e se interessa muito na humanidade como um todo, porém, quando se trata de intimidade, ele é muito seletivo e deixa pouquíssimas pessoas chegarem perto – contato físico, por exemplo, é algo que pode ser muito perturbador e desagradável para ele, portanto, respeite seu espaço pessoal, dê-lhe espaço físico e, principalmente, emocional! Não o sufoque ou você nunca mais o verá! Sue Tompkins diz que muitas pessoas que pensam que Aquarianos são frios simplesmente não perceberam que foram, na verdade, rejeitadas, ou seja, não passaram no crivo seletivo dele. Das coisas que ele mais detesta e que podem fazê-lo rejeitar alguém estão o esnobismo, conversas fúteis, falta de sinceridade ou de propósito ou, pior ainda: estreiteza de pensamento, os chamados pobres de espírito. Mentalidades tacanhas, não, por favor! Mas sim, ele precisa de gente, tem necessidade maior dos amigos do que da própria família, podendo até dizer que sua verdadeira família é composta de seus amigos.

 

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Saturno, regente tradicional de Aquário – Maria Eunice Sousa
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Urano – Símbolo – Maria Eunice Sousa

Um dos mitos associados a Aquário é o de Urano, o DEus dos Céus Estrelados. Urano teve muitos filhos, dentre eles, Saturno e outros titãs, além dos Gigantes, criaturas ctônicas e grotescas de 100 mãos, cuja mera visão causava profundo desgosto ao seu pai, que era altamente idealista e de gosto muito estético. Tão repulsiva era a visão de seus filhos que Urano os aprisionou no Tártaro, as entranhas do Mundo Inferior. Esse costuma ser um padrão comum em Aquário, esse gosto estético refinado e idealista, que detesta ter que lidar com o lado mais animalesco da natureza humana, incluído aí os ritmos orgânicos do próprio corpo, que pode, às vezes, ser sentido como alienígena. Cronos, com a ajuda de sua mãe Gaia, resolveu tomar providências para libertar o irmãos e numa noite, quando Urano veio se deitar com Gaia ele segurou seus genitais com a mão esquerda e com a mão direita empunhando uma foice, cortou-os fora, atirando-os ao mar. Da espuma do sêmen nasceu Afrodite, e não é à toa que ela é a deusa da beleza e do senso estético, tendo nascido de um pai tão idealista. Do sangue derramado na terra nasceram as Erínias, também conhecidas como Fúrias, personificações da vingança e que puniam os mortais. Urano desaparece e não se sabe dele depois disso na mitologia. Cronos assumiu o seu lugar como regente dos deuses.

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A castração de Urano por Saturno – Afresco de Giorgio Vasari e Cristofano Gherardi, c. 1560 (Sala di Cosimo I, Palazzo Vecchio). Reprodução

Esse mito de Urano já nos diz muito sobre a natureza de Aquário. Mas há outro mito ainda mais emblemático relacionado ao signo, o mito de Prometeus. É uma estória longa, mas vale a pena. Liz Greene (3) diz que Prometeus é o grande “assistente social cósmico”. Prometeus era um titã da mesma geração de Cronos e sua origem é um tanto controversa. Seu nome significa “aquele que prevê”. Ele tinha um irmão chamado Epimeteus, que era o seu oposto nesse sentido, pois seu nome significava “aquele que aprende apenas com o acontecimento”. Na briga entre Cronos e Zeus, porque ele sabia como a encrenca findaria, Prometeus ficou do lado de Zeus. Diz-se que ele o ajudou no parto de Atena, que nasceu da cabeça de Zeus e que era a deusa da estratégia e do pensamento racional. Por causa disso ela o ensinou várias artes, entre elas a agricultura, arquitetura, matemática, artesanato, carpintaria, medicina, astronomia, astrologia, navegação e muitas outras habilidades.

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Damon Hellandbrand – Aquario – Reprodução

Prometeus ensinou todas essas artes ao homem. Uma das versões de sua origem é a de que ele próprio, Prometeus, teria criado o homem de barro e água, com a permissão de Atena. Liz Greene, em seu livro A Astrologia do Destino (3), diz que o fato de ter ensinado todas essas artes ao homem torna Prometeus o Daimon do impulso cultural. Antes de Prometeus, o homem não podia ver nada com clareza, não percebia os ciclos da natureza, portanto, não conseguia tirar proveito deles com a agricultura, por exemplo; ele também não sabia como criar animais e não enxergava um palmo diante do nariz no sentido de se projetar no futuro. “Então, aqui está a verdade em uma palavra: toda habilidade e ciência humana é um dom de Prometeus”, Greene cita Asclépios, e diz que “esse impulso de boa fé em relação à humanidade é um dos temas dominantes de Aquário”. Por isso Aquário rege a ciência e a tecnologia, porque são coisas que trazem o progresso e os avanços para a humanidade.

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Prometeus traz o Fogo à Humanidade Heirich Fueger – 1817 Reprodução

O mito continua. Zeus foi ficando muito zangado com todas essas artes ensinadas ao homem por Prometeus e temia que logo o homem se acharia um deus. Zeus também foi se irritando com Prometeus por outras coisas. Um dia, por exemplo, Prometeus foi convidado a decidir sobre quem deveria ficar com que porções de um boi sacrificado, quais deveriam ser dadas aos homens e quais seriam oferecidas aos deuses. O Titã, que sempre privilegiava os homens, escondeu a carne maciça debaixo do bucho do boi e todos os ossos limpos debaixo de uma rica gordura e disse a Zeus para escolher. Zeus escolheu a sacola de ossos e ficou zangadíssimo ao perceber a trapaça e por isso negou o fogo aos homens, “que comessem a carne crua”, disse ele. Prometeus não acatou a decisão e roubou o fogo sagrado dos deuses e o deu ao homem. Como punição, Zeus acorrentou Prometeus a uma montanha no Cáucaso e todos os dias uma águia, a ave símbolo de Zeus, vinha comer-lhe o fígado. À noite o fígado se regenerava e no dia seguinte o sofrimento se repetia.

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Dante Gabriel Rosetti – Pandora Reprodução

Além de punir Pometeus, Zeus ordenou a Hefestos, o deus da forja, que fabricasse uma mulher de barro e nela inspirou vida através dos Quatro Ventos. Essa era Pandora, que foi enviada a Epimeteus e que, orientado por seu irmão para não receber nenhum presente de Zeus, recusou-a a princípio. Mas, por causa do sofrimento infindável de Prometeus, ele acabou se casando com ela. Pandora abriu aquela famosa caixa, de onde saíram todas as pragas que poderiam perturbar a humanidade: Trabalho, Doença, Velhice, Insanidade, Vício e Paixão. A humanidade teria cometido suicídio coletivo, não fosse Esperança, a enganadora, que também estava na caixa e que mantinha o homem em expectativa de melhorias. Alguns dizem que Esperança é o pior de todos os males, pois nos mantém iludidos. O sofrimento de Prometeus tem fim quando ele é trocado por Quíron, que enfrentava um destino igualmente cruel na forma de uma ferida sem cura que doía de forma excruciante. Zeus concordou com a troca, mas exigiu que Prometeus usasse um anel que o identificasse como um eterno prisioneiro e para que ele jamais esquecesse do pecado que havia cometido.

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Prometeus no Cáucaso – Reprodução

O mito de Prometeus o coloca como o grande benfeitor da humanidade, porque sem o Fogo Sagrado dos Deuses, o homem não teria visão, não intuiria o futuro, não teria a centelha divina que o eleva acima da natureza meramente animal e ctônica. Porém, do ponto de vista dos deuses este roubo foi um grande pecado, um crime, porque a natureza é muito ciumenta de seus segredos. Pesquisadores e cientistas em geral sabem bem o que é isso, e muitas vezes, ao propiciar avanços à humanidade, abrem uma verdadeira Caixa de Pandora, basta lembrar a desilusão de Einstein com o uso que deram à sua Teoria da Relatividade. O roubo também o faz sentir-se isolado de seus pares, assim como Prometeus ficou isolado no Cáucaso, porque ele se diferencia, ele vai além do óbvio, do comum, daquilo que já é conhecido. Assim, a solidão intelectual ou mesmo humana também lhe é característica.

Aquarius --- Image by © Harry Briggs/Corbis
Harry Briggs/Corbis – Reprodução

E um signo tão luminoso, altruísta e imparcial não deve ter Sombra… Será? É claro que tem! Parte desta sombra tem a ver com o signo oposto complementar, Leão. Aquário, como oposto de Leão, tem horror a se sentir egoísta e egoísmo é parte da sua sombra. A estória de George Orwell “A Fazenda dos animais”, ilustra bem essa questão e a frase “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros” é geralmente utilizada para trazer à tona a questão da igualdade como vista por Aquário quando negativo – a igualdade é ótima para a humanidade, mas não para ele, que tem grande dificuldade em viver o que prega, sendo, quando negativo um grandessíssimo hipócrita, dizendo uma coisa e fazendo outra completamente diferente. No livro Astrology for Lovers, Liz Greene (4) diz que “enquanto Aquário conscientemente se esforça por ser abnegado, seu lado sombrio é completamente auto-centrado; enquanto sua dedicação aos outros é geralmente impecável  na vida ordinária, sua sombra se dedica a a confirmar sua posição de controle” – sim, Aquário é outro signo que tem problemas de controle, mas não poderia ser diferente, sendo ele regido por Saturno, o grande controlador do Universo.

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Aquário -Horóscopo do Livro de Nascimentos de iskandar – Wikimedia Commons

Outro pecado de aquário é a hubris, o sentimento de estar acima do bem e do mal, exatamente por ter conquistado a Natureza e seus segredos. A hubris é a arrogância intelectual, o que nos faz ir além da ética e de valores morais porque achamos que nossos motivos são “justos”, algo na linha do jargão maquiavélico “os fins justificam os meios”. Ocorre que na luta pela evolução, na ânsia de ajudar a humanidade e de melhorá-la, Aquário deixa de ver o individuo humano, a pessoa que está ao seu lado – se for para salvar a humanidade, qual o problema se alguns humanos forem perdidos no processo? Outra frase famosa associada a este signo é “Eu adoro a humanidade, o problema são os humanos”, assim, para ele talvez seja mais fácil se relacionar com a ideia da humanidade do que com o ser humano com quem compartilha a vida, seja este ser humano um filho/a, um parceiro/a, um irmã/o. E há ainda outro pecado: Ele critica tanto o Leão por querer ser especial e chamar a atenção, mas no fundo, apesar do discurso bonito de querer ser simples, ele secretamente, inconscientemente “anseia por ser admirado e adorado por todo mundo, até o grau de de se sentir compelido contra seus próprios princípios, por medo do que possam pensar dele” (4). Mas não, ele não necessariamente se dá conta disso!

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Aquarius – Salvador Dali

Entretanto, sem Aquário, o homem ainda estaria naquele nível ctônico, telúrico, morando em cavernas e sujeito ao destino imposto pela sua biologia. Feliz da humanidade que teve Prometeus (Aquário) como seu benfeitor e hoje evoluiu até onde chegamos. Resta-nos esperar (a enganadora Esperança de novo) que na sua hubris, não nos leve também à destruição.

No corpo Aquário rege os tornozelos e as pernas, até logo abaixo dos joelhos. Governa também o sistema circulatório. Urano, o co-regente de Aquário também tem o sistema nervoso, junto com Mercúrio. Rege também todas as doenças relacionadas a essas áreas do corpo.

O Visionário, O Assistente Social, O Cientista, O Revolucionário, O Anarquista, O Futurista, O Viajante do Tempo, O Forasteiro, O Abominável Homem das Neves

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MEDITAÇÃO PRA AQUÁRIO

Primeiro, olhe as imagens associadas a Aquário: o Aguadeiro, o próprio símbolo que parece duas ondas sobrepostas, Urano…

Olhe e fixe essas imagens  e deixe que elas conversem com você.

Contemplo o sentido desta frase: “Água da vida eu sou, derramada para os homens sedentos. E a Palavra disse: deixe o desejo em forma ser o governtante” (5).

Quando estiver pronto, faça esta meditação. OBS: A qualquer momento, se sentir qualquer desconforto, receio, mal estar, abra os olhos imediatamente e interrompa o processo!!!

Feche os olhos e faça um exercício respiratório de relaxamento. Gradativamente, solte os pés, pernas, coxas, quadris, tronco, ombros, braços, pescoço, cabeça… Até que você esteja completamente relaxada/o. Então visualize que está em seu lugar favorito de natureza. Sinta-se relaxado, tranqüilo. Qual é o clima? Faz sol, chove, venta? Observe o ambiente: tem mais alguém? Caminhe ao redor e se houver outras pessoas cumprimente-as amigavelmente, mas sem se demorar. Então perceba que se aproxima seu melhor amigo/a. Sinta a alegria de encontrar essa pessoa. Se sentir vontade, abrace-a. Observe sua expressão: está triste, alegre, zangado…? Por que? Olhe com atenção e veja se ele/ela quer lhe dizer alguma coisa. Escute. Ele lhe pede alguma coisa? O que você pode fazer pelo seu/sua amigo/a? Agora seu amigo/a lhe mostra uma grande tela à sua frente: o que você vê? Que ideais essa imagem reflete? São os seus ideais? São imagens desconfortáveis ou tranquilas? Como você se sente com a experiência toda? Agradeça a seu amigo/a e deixe-o/a ir embora. Aos poucos perceba-se de volta ao seu corpo e abra os olhos. Se sentir vontade, escreva ou ilustre o que vivenciou. Se quiser, partilhe sua experiência conosco.

Aquário rege as amizades, os grupos sociais, assim como nossas grandes esperanças, assim, ao terminar a meditação, reveja seus sonhos e metas nesta área de vida. Se necessário, faça ajustes, ou, do contrário, reitere as resoluções anteriores.

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Johfra Bosschart – Aquarius Reprodução

Amanhã trabalharemos o signo de Peixes, portanto fique atento, durante o dia, a como o signo vai se manifestar para você. Até lá!

Música para Aquário:

Osvaldo Montenegro – Aos Filhos de Aquário

Hair – Aquarius

Omar e os Ciganos – Abominável Homem das Neves

Amy Whinehouse – He can only hold her

Ivete, Gil e Caetano – Tá combinado

Marina – Como dois e dois

Taylor Swift – Change

Rebecca Trip – Aquarius

U2 – Walk on

Gwen Stefani – Cool

Suzane Vega – Tom’s Dinner

Arielle Dombasle – Extraterrestre

Programação das 12 Noites Sagradas: 

26/12 – Capricórnio

27/12 – Aquário

28/12 – Peixes

29/12 – Áries

30/12 – Touro

31/12 – Gêmeos

01/01 – Câncer

02/01 – Leão

03/01 – Virgem

04/01 – Libra

05/01 – Escorpião

06/01 – Sagitário

(1) Sue Tompkins – the Astrologer’s Handbook

(2) Edna Andrade, em Festas Cristãs

(3) Liz Greene – A Astrologia do Destino

(4) Liz Greene – Astrology for Lovers

(5) Alice Bailey ‘Esoteric Astrology’, Lucis Press 1951, p. 653

As 12 Noites Sagradas:SAGITÁRIO e a busca por significado

1SAGTChegamos ao fim da nossa Jornada das 12 Noites Sagradas! E Sagitário é o signo perfeito para terminarmos, porque nos deixa com um olhar no futuro e no que está por vir. Aproveito para agradecer profundamente a você que nos acompanhou nesta jornada, assim como a todos os autores consultados que dividiram seu conhecimento conosco.

Do site de Antroposofia Edna Andrade (1) nos diz: “Nesta última Noite Santa recebemos através do Portal do Sagitário os impulsos espirituais dos Arqueus, também chamados de Principados, para o fortalecimento da personalidade, de forma que tenhamos forças de estabelecer e sustentar impulsos mais abrangentes na nossa vida que nos orientem para o futuro e que contenham metas espirituais para a nossa existência.”

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Sagitário “Gzhu”, no Zodíaco Tibetano – Wikimedia Commons

“Atravessamos mais um dia, cai a noite e uma nova luz brilha no céu irradiando da Constelação de Sagitário, de onde emanam as forças espirituais dos Arqueus, os Seres da Personalidade, também chamados de Principados. Isto significa que eles não só possuem um Eu como sabem que o possuem e através dessa consciência intensificada eles criam uma imagem de si no exterior. Eles projetam no exterior a força de sua luta interna que é a própria luta do centauro, do ser humano emancipado por um lado na sua inteligência mas por outro lado, em luta constante para superar suas forças animalescas, seus instintos selvagens, suas forças egoísticas.”

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Arcanjo Miguel – Catedral de Chartes Reprodução

Os Arqueus são considerados os Espíritos do Tempo porque essa luta é a própria luta do desenvolvimento humano no nosso tempo, abrangendo algo que ultrapassa todas as etnias e se torna uma influência cultural na nossa civilização. Aqui a tarefa anterior dos Arcanjos, que era proteger a sabedoria cósmica das intenções egoístas é ampliada pelos Arqueus, estando expressa no desafio da nossa civilização moderna na luta entre o materialismo exacerbado e a preservação dos recursos naturais.”

“No portal sul da Catedral de Chartres, a escultura de Micael preside as 3 hierarquias. Rudolf Steiner constantemente se refere a ele como o Regente desta nossa Época, com a missão de dominar o Dragão, o ser mítico representado pelo nosso intelecto, quando a sabedoria cósmica é apropriada através da compreensão das leis, através da ciência natural e precisa ser colocada no mundo de forma mais ampla para o bem de todos. Tanto no aspecto pessoal de construção da personalidade como neste aspecto temporal, esta luta representa um cair e levantar constantes.”

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Sagitário – Ilustração Medieval – Reprodução

“Nesta décima segunda Noite Santa recebemos através do Portal do Sagitário os impulsos espirituais dos Arqueus, também chamados de Principados, para o fortalecimento da personalidade, de forma que tenhamos forças de estabelecer e sustentar impulsos mais abrangentes na nossa vida que nos orientem para o futuro e que contenham metas espirituais para a nossa existência.”

“Nesta noite reavalie as suas qualidades pessoais. Da região de Sagitário, os Arqueus, Espíritos da Personalidade, lhe trarão as forças da inteligência que erguem você, que sustentam você, e apontam a direção do futuro. Eles injetam clareza no seu pensar para que você perceba e assuma o compromisso com o que há de melhor em você.”

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Sagitário – Vitrais da Catedral de Chartres, Chartres, França – wikimedia Commons

Depois do mergulho profundo nas águas sombrias de Escorpião voltamos à superfície para virarmos NÔMADES e EXPLORAR o mundo, indo cada vez MAIS longe, em busca do SIGNIFICADO e do SENTIDO da Vida. SAGITÁRIO é FOGO Mutável, Masculino, Ativo, Positivo. Traz em si toda a FÉ, o OTIMISMO e a CONFIANÇA na vida que são tão elusivos para Escorpião. AVENTUREIRO, EMPREENDEDOR, ENERGÉTICO e GENEROSO, sua fé na vida é tão grande que nada costuma derrubá-lo por muito tempo. Depois dos piores problemas, ele levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima com o mesmo sorriso confiante no rosto. As pessoas costumam invejar a sua BOA SORTE, mas não é que ele não tenha problemas como todo mundo, é simplesmente que seu grande otimismo o leva a acreditar que não importa o tamanho da confusão, no fim tudo dará certo, e por ser tão otimista, os deuses parecem de fato favorecê-lo com muitas benesses e dádivas.

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Zeus, o Deus do Raio e do Trovão – Reprodução

Claro, seu regente é nada menos que JÚPITER, Zeus para os Gregos, o poderoso Deus do Olimpo, regente de todos os outros deuses. Júpiter é chamado o Grande Benéfico. Com um regente assim, não se podia esperar nada diferente do que muita boa sorte, certo?

Sim, mas há alguns poréns: exatamente por confiar demais na boa sorte, Sagitário às vezes não se dá conta de a vida tem sim, limites, e de que algumas regras precisam ser respeitadas. Alguns de seus defeitos são a INDISCIPLINA e a FALTA DE CUIDADO, o EXAGERO, o que o leva a se meter em confusões que seriam dispensáveis.

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Símbolo de Júpiter, regente de Sagitário – Maria Eunice Sousa

A ABUNDÂNCIA parece seguí-lo e ele é abundante e generoso em sorrisos, em alegria, sendo sempre a ALMA DA FESTA com sua alegria e espírito festeiro. Da mesma forma, é extremamente popular, tendo legiões de amigos que o seguem como mariposas são atraídas para a luz.

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Sagitário by Salvador Dali – Reprodução

HONESTO, SINCERO, CÂNDIDO, ele chega a ser grosseiro tal a sua “sinceridade”, que muitas vezes é mesmo FALTA DE TATO. Também costuma ser EXAGERADO e um tanto DESASTRADO. Fisicamente costuma ter dentes grandes, para enfatizar o largo sorriso que tem permanentemente no rosto. Mas a parte do corpo que ele rege são os quadris e as coxas, e os nativos costumam tê-los bem avantajados. Corpo, aliás, que é vivenciado com desconforto, porque o corpo representa limites terrenos com os quais ele não quer lidar: o corpo precisa ser alimentado, o corpo precisa ser cuidado, asseado… O corpo precisa dormir, quando há tanta coisa para se explorar, se descobrir, se viver… mas o corpo precisa DORMIR!!! Assim, ele tenta esticar as horas do dia, tentando fazer com ele tenha 30 ou 50 horas, para viver tudo o que quer viver. Ironicamente, sem dormir adequadamente o Arqueiro vira um bicho enjaulado. É o corpo cobrando seu preço pelo maus tratos.

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Sagitário na iconografia antiga – De um livro Medieval de Astrologia – Wkimedia Commons

Ele está mesmo interessado é na visão MAIOR das coisas, na EXPANSÃO da vida. LIBERDADE, ESPAÇO, LUGARES ABERTOS e VIAGENS são essenciais para que ele se sinta confortável. Nada de rédeas ou amarras, ou ele sai antes que você se dê conta!  Ele precisa saber que todas as portas e janelas estão sempre escancaradas, mesmo que jamais vá usá-las, porque se puser tranca, ele terá um ataque de claustrofobia e jamais voltará!

INTUITIVO, está sempre antenado com as possibilidades que o futuro traz, e é isso que seu símbolo, a flecha, vem nos lembrar: uma seta sempre aponta para o alto, para onde seu olhar está voltado. Por isso mesmo tem dificuldade de viver no momento presente, pois sua visão é de LONGA DISTÂNCIA e é uma visão que ele detesta ter que explicar, porque ele simplesmente “sabe” que algo é assim, então não peça para ele colocar em Palavras ou conceitos lógicos. Bah! Que coisa mais chata esse negócio de ser sempre lógico e preso a conceitos rígidos! A visão maior dispensa lógica!

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Steve Hanks – Reprodução

As VIAGENS, especialmente de longa distancia não só estão sob sua jurisdição, como são alimento para sua alma. Ele ama viajar e correr mundo, de preferência com o mínimo de bagagem, porque gosta de andar leve, seja literal ou figurativamente. Outras viagens tão importantes quanto são as viagens empreendidas pela mente e pela imaginação. CONHECIMENTO também é seu alimento, por isso rege também o ensino superior, a FILOSOFIA, a RELIGIOSIDADE e as CRENÇAS. Está permanentemente em busca da conexão com o divino, fazendo as GRANDES PERGUNTAS da vida: Por que? Qual o sentido disso? Qual o significado? SIGNIFICADO é algo primordial, tão essencial que ele pode estar atravessando a pior das crises, mas se encontrar um sentido para tudo o que está acontecendo ele já se sente melhor. O que ele odeia mesmo é quando nada faz sentido.

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Sagitário by Oswalda Griggas – Wikimedia Commons

Uma vez que Júpiter é seu regente e Júpiter rege as leis e a justiça, estes são assuntos também muito caros ao Arqueiro, assim como a moralidade e a ética. Quando negativo, ao invés de moralidade ele descamba para o moralismo. A política também é um assunto que o apaixona porque interessa à sociedade e Sagitário é um signo SOCIAL e ele quer saber como a sociedade funciona. Aliás, ele tem uma gama de interesses tão vasta que é difícil dizer no que ele NÃO está interessado, até porque  tem uma capacidade incrível de captar com grande facilidade a essência de qualquer assunto num piscar de olhos.  Também é muito interessado na moda e costuma ditar tendências sendo o primeiro a usar coisas que os mais tímidos só ousarão depois que aparecer na Vogue. Claro, às vezes ele erra feio. De modo geral não tem medo de usar cores berrantes e contrastantes na mesma produção, especialmente se tiver estamparias grandes e exóticas que o façam se sentir à vontade, confortável, como se estivesse sempre… De férias!

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Andarilho, um dos arquétipos de Sagitário – Google Imagens

Culturas estrangeiras, países estrangeiros são coisas que o fascinam e ele tem grande facilidade para línguas também. Ele gosta de ver o diferente, de EXPLORAR novas possibilidades e de ver as soluções que outros povos encontram para certas questões comuns e universais.

Tudo muito bem, tudo lindo e maravilhoso, como Sagitário gosta. Mas será que é só isso? Será que tudo é sempre tão luminoso assim? O que dizem os mitos e as figuras arquetípicas deste signo?

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Júpiter – Beham, (Hans) Sebald (1500-1550) 1539 – Wikimedia Commons

Do livro A Astrologia do Destino, de Liz Greene (2), trago uma tradução livre e resumida destes principais mitos, o texto é destacado em itálico para enfatizar os créditos e a fonte. Sagitário é regido por JÚPITER, Zeus para os gregos, o poderoso soberano do Olimpo. Como sempre, olhar a figura que rege o signo pode dar pistas preciosas a respeito de sua psicologia e dinâmica. Zeus era um deus extremamente competitivo e conquistador compulsivo. Ele desbancou o pai Saturno e lhe tomou o lugar, apesar de Saturno ter tentado engolir todos os filhos para impedir isso. Ele é um deus extremamente masculino, mas seu poder vem da Mãe Terra, Mãe Rhea, embora ele tente ignorar todos os detalhes que o lembrem disso. Apesar de ter vencido os Titãs, sua vitória e ascensão ao Olimpo se deveu muito a política e a negociações envolvendo Rhea e alianças de casamento, o mais importante deles sendo com sua irmã, Hera. “Quando ele aparece como o rei vitorioso dos deuses, superando os Titãs terrosos e estabelecendo seu próprio domínio celestial, ele reflete o surgimento na consciência coletiva de um principio espiritual que é maior do que Moira, que regia o destino e a vida de deuses e mortais até então” pondera Greene. Com o advento da consciência o homem não está mais completamente à mercê do mundo instintual, do “fado” do destino  que lhe era dado e do qual não havia como escapar. Assim, é mais que apropriado que Sagitário venha depois de Escorpião, “porque Zeus personifica aquilo que pertence ao espírito eterno e não à carne mortal”.

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Jupiter e Juno (Zeus e Hera) by Anibal Carracci – Domínio Público

Zeus surge pois da dominação da Grande Mãe e assume o poder no Olimpo. Ele não pertence à terra, mas sim ao éter. É o Deus do Trovão e do Relâmpago; é o Grande Pai, o Grande Rei, oferecendo a luz do espírito, que agora pode almejar libertar-se das garras da Necessidade, uma das três Moiras, também chamada Ananke, aquela que tecia o Fio do Destino.

Zeus representa pois, o espírito indomável, livre, solto, sempre conquistando, sempre em busca do próximo alvo. Deitava-se com deusas, mortais, ninfas, semi-deusas, solteiras, casadas, quisessem elas ou não. Nas suas conquistas transformava-se em tudo quanto era forma para seduzir sua presa: cisne, garanhão, chuva e isso indica a grande mutabilidade do signo, sempre mudando de forma, de idéias, de projetos… Não havia limites para seu poder de sedução. Promíscuo como era, sua prole era numerosíssima e isso simboliza a infinita fertilidade do deus e do espírito, que pode imaginar e visualizar tudo em sua intuição rica e sem limites.

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Mas ele não era tão livre assim, pois estava casado com Hera, com quem vivia em brigas perpetuas, algo como “entre tapas e beijos”. O motivo principal, claro, era a sua infidelidade e promiscuidade flagrante. E ela, como boa esposa ciumenta, espionava, perseguia, investigava e infernizava a vida não só das “outras”, como também da sua prole ilegítima – lembra o que ela fez com Hércules e Dionísio? Greene diz que Hera representa um espinho eterno no seu lado divino. “Esse contrato de casamento, porque há sempre um contrato, é uma obrigação e um laço permanente que o liga eternamente ao mundo feminino da forma” queira ele ou não. Sendo o Rei dos Deuses, ele não poderia simplesmente largar Hera e se livrar de suas queixas? Não, ele não podia, especialmente porque ela era não só esposa, como irmã e eles são iguais. Eles não conseguem, jamais se livrarão um do outro. “Esses dois permanecem eternamente fechados numa batalha e eternamente casados, uma imagem do espírito-criador fogoso ligado ao mundo da forma, ao mundo dos laços e compromissos humanos, o mundo da moralidade e da “decência” e das responsabilidades mundanas, que é tanto parte da natureza de Sagitário quanto a  promiscuidade selvagem da qual Zeus é o emblema”.

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Zeus e Sêmele – Gustave Moreau – Reprodução

Esse é o padrão básico de desenvolvimento de Sagitário: sendo um espírito livre e indomável, cedo na vida cai na armadilha da qual ele tanto corre: as obrigações do casamento e da vida mundana. Ou porque ele ou ela engravidaram, ou porque são presas de artimanhas – sim, ele é muito ingênuo às vezes – o fato é que esse “contrato” vira um laço que é sentido como uma espécie de armadilha que o obriga a levar uma vida “decente”. Claro, há muitos que evitam essas coisas como o diabo foge da cruz, e seguem feito andarilhos, mundo afora, de montanha em montanha, de trilha em trilha, sem lenço e sem documento, feliz por não carregar as tais bagagens pesadas. Mas mesmo estes uma hora se deparam com o seu “destino” e precisam descer à terra e cumprir certas obrigações.

Como diz Greene, “Sem Hera, Zeus não seria nada. A maior parte de seu poder ele deve e na verdade, é a própria tensão causada pelo laço do casamento que o faz ser infiel. É esse laço que o mantém vivo e vital. Sem esta fricção ele se tornaria preguiçoso e displicente, qualidades que demonstra em varias de suas estórias e é duvidoso se ele perseguiria tantas amantes com tamanho entusiasmo se elas não fossem proibidas a ele.”. 

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Io e Zeus by Giovanni Ambrogio Figino – Domínio Público

O que é o espírito, o talento, a criatividade, a imaginação se não forem manifestadas no mundo concreto? É isso o que Hera representa, a necessidade de obedecer a regras e limites quando se quer chegar a algum lugar. A fertilidade, o talento não chegam sozinhos a lugar nenhum. Se não houver grande doses de trabalho, transpiração, COMPROMETIMENTO, ficaremos somente nos sonhos, nos ideais, nas imagens fabulosas da imaginação, sem nunca realizar nada.

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Zeus e Hera – Desenho de baixo relevo de um altar romano – Domínio Público

Por isso, assim como Gêmeos, seu oposto complementar, Sagitário está relacionado também ao arquétipo do Puer Aeternus, a Criança Divina que não quer crescer e que representa os potenciais infinitos e ilimitados do espírito humano. O mundo está cheio de Puer Aeternus, especialmente o mundo das artes e do entretenimento. Aquele grupo sombrio de artistas que morreram aos 27 anos de forma trágica é povoado por eles. Jimmi Hendrix, Janis Joplin, James Dean, Amy Whinehouse, só para citar alguns. Sem Hera, Sem Wendy, Zeus e Peter Pan viram uma anomalia na Terra do Nunca, cheio de possibilidades e potenciais nunca realizados, nunca concretizados, seja por preguiça, por receio, por terror de falahar.

Assim, por pior que a “armadilha” pareça, o corpo, o casamento, o trabalho, a carreira, o filho… Ainda é isso o que faz o Centauro crescer e mobilizar seu espírito criativo em algo tangível e palpável.

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Quíron – Reprodução

Um outro mito que não pode deixar de ser mencionado é o mito do Centauro Quíron.  O mito de Quíron tem várias versões diferentes. Às vezes ele é retratado como ancestral dos centauros, criaturas que eram metade cavalo e metade humanos. Em algumas versões os centauros descendiam de Centaurus, filho de Apolo e Estilbe, ou de Ixion e Nephele, uma nuvem feita à semelhança de Hera. Os centauros habitavam o Monte Pelion, na Tessália, região da Grécia. Na versão mais conhecida do mito, Quíron era filho de Cronos (Saturno) e da ninfa Filira, filha de Oceano e Tétis. Cronos viu Filira pela primeira vez quando procurava por Zeus, que tinha sido escondido por sua esposa Rhea. Filira tentou fugir de Cronos transformando-se numa égua. Ele perseguiu-a ainda mais e enganou-a transformando-se também num cavalo, conseguindo assim consumar a união, da qual nasceu Quíron, que tinha pernas e corpo de cavalo e torso e cabeça de homem. Quando ele nasceu, Filira ficou tão enojada e desgostosa que implorou aos deuses para ser transformada em algo diferente do que ela era. Os deuses atenderam seu pedido transformando-a na árvore Tília. Liz Greene fala que não importa a versão do mito, o que importa é que ele é um filho da terra, por um Titã ou um mortal, ele não é do Olimpo.

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Saturno e Filira – Reprodução

Quíron foi abandonado e encontrado depois por Apolo, que se tornou seu pai adotivo. Ele cresceu forte e saudável e Apolo ensinou-lhe muitas artes. Era muito inteligente e tornou-se um professor muito sábio e respeitado, a quem todos os heróis gregos, filhos de reis e de deuses eram enviados para com ele estudar. Era musicista, profeta e um médico e curador potente, também grande herbalista e filósofo brilhante. Além disso, era correto, nobre e íntegro. Ele foi o mentor de muitos heróis gregos famosos, como Jasão, Aquiles, Hércules e Asclépio, ou Esculápio, o deus da medicina. Mesmo assim, Quíron trazia consigo o dilema intrínseco da dualidade: não era nem cavalo nem homem. Seus iguais, centauros, eram criaturas extremamente primitivas, devassas, desregradas e grosseiras. Já Quíron tinha uma natureza benigna e pacífica, portanto não se sentia à vontade entre os seus. Como não era humano, também não se sentiam completamente confortável entre os homens. “Ele era uma deidade ctônica e pertence àquele grupo de meio-animais fálicos que eram tutores dos deuses, simbolizando a sabedoria da terra e do próprio corpo”. Diz Liz Greene

Uranographia by Johannes Hevelius. The view is mirrored following the tradition of celestial globes, showing the celestial sphere in a view from ouside
Uranografia by Johannes Hevelius – Wikimedia Commons

Ele se tornou o Rei dos Centauros. Mas um dia, Quíron se feriu numa das flechas que Hércules tinha molhado no veneno letal da Hidra de Lerna, aquela que encontramos em Escorpião. Numa versão do mito ele teria se ferido durante uma briga entre os centauros e Hércules. Em outra ele teria se ferido por acidente. O veneno da Hidra era letal e matava instantaneamente; porém, por ser filho de um Deus, Quíron era imortal. Assim, criou-se um dilema sem solução e o resultado foi uma ferida hedionda que doía de forma excruciante, para a qual não havia cura possível. Assim, ele está aprisionado, sendo o próprio corpo a sua armadilha. Ele se fere na coxa ou no joelho, a parte do corpo que nos sustenta, sobre a qual nos mantemos de pé e também um sinal de que a ferida é na sua natureza animal. Greene diz que Quíron é apenas um de uma longa lista de deuses ou semi-deuses, imortais, que são feridos fisicamente, geralmente nos pés ou pernas, tornando-se aleijados, uma ferida na sua relação com a realidade física. Uma mistura irônica de luz e de sombra. “Meu sentimento é de que essa tristeza e essa ferida são parte integral de Sagitário e formam um tipo de depressão ou desespero abaixo da superfície otimista e luminosa do signo. Acredito que é por isso que Sagitarianos podem ser tão maníacos nos seus esforços extremos para ser feliz e divertido. Zeus pode criar relâmpagos e trovões nos céus e não há signo mais positivo ou resiliente. Mas escondido na caverna está o Centauro sofredor, que pode curar e dar conselhos sábios a todos os males dos homens menos para o próprio, que é envenenado pela colisão de sua natureza benigna com a escuridão e o veneno do mundo”.

Quíron retratado mosaico encontrado em Edessa, do sec Vou VI
Quíron retratado em mosaico encontrado em Edessa, do sec V ou VI – Wikimedia Commons

Possivelmente, por causa dessa mesma ferida e dessa mesma tristeza, Sagitário seja capaz de oferecer esperança aos outros e não apesar dela. O que fica claro a partir da estória de Quíron e de Zeus é que este signo não fica confortável no corpo, porque o corpo é a prisão que o tolhe e causa sofrimento. E o corpo representa também os limites da realidade, da experiência de ser humano. Por isso, às vezes o vemos tornar-se catequizador, fanático, um verdadeiro pregador da fé e do otimismo, tornando-se o dono  da verdade, tentando a convencer a todos do seu credo, para esconder as profundas dúvidas internas a respeito daquilo que tão enfaticamente prega; e mesmo sendo um signo incrivelmente honesto e direto, podei aos poucos ir fazendo uso da hipocrisia, novamente para mascarar essas dúvidas, que ele não ousa admitir nem para si mesmo. Para ele é muito difícil admitir que seu otimismo exuberante não consegue vencer todas e que há um lado sombrio na vida, que não faz sentido, que não tem explicação filosófica ou metafísica que justifique. O Palhaço é uma das figuras arquetípicas deste signo, exatamente porque configura aquele que faz rir de forma histérica, colocando uma máscara sorridente e espalhafatosa, quando ás vezes, por dentro, ele esta afundando na tristeza. Se se encara isso, esse buraco negro da dúvida, pode ser desesperador demais, então ele prefere sorrir. Alguém já disse que não é uma boa idéia tirar a fé de um homem, porque às vezes, isso é tudo o que ele tem.

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Palhaço, um dos arquétipos de Sagitário – Reprodução

Greene lembra que Zeus preside Sagitário, como seu regente, mas Quíron está ali, uma presença incomoda e desconfortável, a lembrar a esse otimista Todo-Poderoso que ele ainda tem que lidar um lado humano e falho e que há coisas que ele não vence com seu otimismo inabalável. O corpo, sendo sentido como um alienígena, pode ser esse lado da vida que é desconfortável, complicado de entender e honrar. A ferida, diz Liz, “aponta para cima e para a eterna vida do espírito; também aponta para baixo, para a igualmente divina vida do corpo que deve suportar tal alma de fogo e sofrer de acordo com ela. Como o magnun miraculum do Corpus Hermeticum, Sagitario é uma criatura de dignidade e honra, parte daimon e parte deus, parte animal e parte imortal, que volta seus olhos para a parte imortal de si mesmo e que deve pagar o preço necessário de cuidar do corpo sofrido que ele ignorou por tanto tempo. 

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Sagitário by Johfra Bosschart

Figuras Arquetípicas de Sagitário

Zeus e Hera; O Pai Divino; O Puer Aeternus; Peter Pan; A Eterna Criança; Quíron, o Centauro; O Viajante Aventureiro; O Cigano Andarilho; O Explorador de Novos Mundos; O Filósofo; O Professor; O Padre; O Pastor; O Missionário-Evangelizador; O Palhaço;  O Jogador; O Prometedor; A Tiete

A Sombra de Sagitário é uma das maiores, porque, como você sabe, quanto mais forte a luz, maior a sombra que projeta… Esta sombra está diretamente relacionada ao signo oposto de Sagitário, que é Gêmeos. Os dois se preocupam com juntar e distribuir informações e conhecimento, com educação e viagens. Mas enquanto Gêmeos volta-se para os detalhes e para os fatos, Sagitário olha para o todo e para o significado das coisas. Gêmeos quer saber como as coisas funcionam, Sagitário quer uma filosofia e uma visão geral de tudo. Por isso os dois sempre sentirão uma fricção ao se encontrarem, positiva ou negativa, porque um é a sombra do outro.

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SAgitário – Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender

Mas esta sombra tem outras nuances. Liz Greene, no livro Astrology for Lovers (3) diz que uma das suas facetas é “a Tiete”. A Tiete aparece naquela mania que Sagitário tem mencionar nomes de influentes e famosos, seja do meio artístico, empresarial, político ou de outras áreas, com muita intimidade, como se fossem amigos de infância. Os programas dele são sempre mais interessantes e excitantes que o de todo mundo; as pessoas que ele conhece são mais famosas; ele participa intimamente da vida de figurões… Você entendeu! E isso se aplica tanto à mulher quanto ao homem de Sagitário! Ele precisa estar onde “tudo acontece” e com sua intuição super aguçada, não é que ele consegue? De fato, ele consegue estar no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa para aproveitar a oportunidade exata! Mas às vezes, no meio de tudo isso, falha em se dar conta de que está sendo intrometido, invasivo, inconveniente. Ele também tem o desagradável hábito de usar as pessoas  – inclusive sexualmente falando – e descartá-las quando ele não precisa mais delas ou quando elas se recusam a estar a seu serviço – mas, claro, convenientemente ele também não percebe isso, afinal, é Sombra exatamente porque não a reconhecemos.

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Sagitário – Mosaico de cerâmica encontrado numa parede do Iran, século XVI – Museu für Angewandte Kunst Frankfurt am Main, Alemanha – Wikimedia Commons

Dessa Sombra também faz parte o “novidadeiro”: é ele geralmente quem descobre as novidades: o restaurante da moda, a banda que vai ser um sucesso, o livro que vai ser best-seller, o filme que vai bombar. Ele conta essas novidades todas com o entusiasmo de quem descobriu um grande tesouro, no intuito de informar, mas principalmente de deixar claro para você que ele sabe mais, conhece mais gente e coisas interessantes e que você não está tão “por dentro” das coisas importantes quanto ele. Você não é um dos “eleitos” no exclusivo grupo de que ele faz parte. Obviamente, se você é apenas um indivíduo comum, sem grandes conexões, logo será descartado, porque afinal, o que você tem a oferecer, quem você conhece neste mundo de meu Deus?

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Capela do Zodíaco – Templo Malatestiano – Wikimedia Commons

Outra faceta desta Sombra, talvez a mais conhecida, é o que podemos chamar de “o Prometedor”. Pelo nome, você, que convive com Sagitarianos já pode imaginar do que se trata: ele está sempre prometendo mundos e fundos a toda a gente, mas cumprir, que é bom… Como diz Greene, o prometedor, simplesmente promete. Isso tem a ver com a sua mania de extrapolar em tudo, inclusive na própria energia. Ele promete que vai lhe emprestar dinheiro, que vai lhe dar aquele emprego, que vai te dar aquele móvel (lindo) que ele não quer mais, que vai te levar naquela restaurante fabuloso, vai te levar naquela viagem maravilhosa para conhecer aquele guru mais maravilhoso ainda… A lista de promessas é infindável e inclui coisas simples, como vai te ligar, vai te visitar, vai te ajudar naquela questão… Não é que ele seja falso ou tenha dito só para se livrar de você! Não! No momento em que promete, ele está sendo candidamente sincero e tem toda a intenção de cumprir – além da intenção de impressionar você, claro! –  visto que está muito animado com a coisa toda. O problema é que meia hora depois algo mais interessante acontece e ele já esqueceu do que prometeu a você e arranja mais alguma coisa para fazer no mesmo dia e hora e simplesmente esquece até que você existe! Mas não se engane! Se você prometer algo a ele, pode ter certeza de que ele estará lá, na hora e local exatos para cobrar a dívida! E ai de você se falhar com ele! O fogo dos céus cairá na sua cabeça e ele contará para deus e todo mundo o quanto você é um tratante desleixado que o deixou a ver navios…

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Sagitário – Livraria da Universidade de Leiden – Wikimedia Commons

Esse é o Arqueiro, sempre apontando mais alto do que pode alcançar. Esse hábito de prometer mais do que dá conta de entregar está relacionado à incapacidade de lidar com as limitações da vida terrena, de se ater ao que é possível. Ele esquece que o dia só tem 24 horas, que o corpo precisa de descanso para repor energias – inclusive o dele – que dinheiro se consegue com trabalho… É a grande dificuldade de Sagitário em lidar com a realidade e as limitações do aqui e agora, já que vive constantemente no futuro, num mundo fantasioso, onde tudo é possível e tudo sempre dá certo. Dinheiro é uma das áreas mais espinhosas aqui. Se você emprestar a ele, esqueça, porque ele também já esqueceu!  Mas se é você quem precisa, ele nunca tem para lhe emprestar. Na verdade, conscientemente ele geralmente é muito generoso e magnânimo, mas como se identifica somente com essa magnanimidade, a mesquinharia e a usura vão para a Sombra, onde causa terríveis estragos nas suas relações. Quando faz tais promessas, ele realmente acredita que poderá cumprí-las, mas esquece que ele não é Zeus, que era um deus e que conseguia se safar de suas escorregadelas. Sagitário precisa aprender que é um mortal, humano, sujeito a todas as limitações materiais, de tempo, espaço e tudo o mais a que todos os outros humanos comuns estão submetidos.  No fundo é um grande imaturo, uma criança que se recusa a crescer. Com o tempo, quem sabe ele aprenda…

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Símbolo de Sagitário na Sinagoga de Mosav Zkenim – Wikimedia Commons

Por último, tem o pregador moralista, o catequizador, o fanático, que acha que só sua verdade é válida. Ele pode ainda se tornar superficial e fofoqueiro, tornar-se excessivamente lógico e racional, firmando-se em evidencias, mas perdendo a visão maior e o significado das coisas. “ele perde sua integridade duramente conquistada ao se tornar um moralista arrogante e hipócrita, aquele que se orgulha do nome que carrega, tirando vantagens do status social”. Algumas pessoas também se ressentem da algazarra que Sagitário geralmente cria aonde vai. Alguns reclamam que ele demanda muita energia e esse energia é tirada de algum lugar, daí acharem que Sagitário, às vezes, “vampiriza” a energia alheia para continuar queimando sua grande fornalha de entusiasmo e alto astral. Em função disso, alguns resolvem tomá-lo em doses “homeopáticas”, por assim dizer. Parece mesmo que a Sombra de Sagitário é maior do que a dos outros? como eu disse, quanto maior a luz… Mas como todo ser humano, ele está aqui para aprender!

Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não tem nada a aprender com eles

(Richard Bach)

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O Templo de Zeus em Atenas – Foto: Maria Eunice Sousa

Meditação para Sagitário

Sagitário é o signo da Alegria, então, nesta meditação vamos trabalhar a nossa capacidade ou não para a Alegria.

Este exercício é tirado do oráculo do Osho. Se sentir que precisa, pode fazer mais de uma vez. Faça  exercício sempre sentado, palmas das mãos apoiadas nas pernas, olhos fechados. Respire profunda e calmamente, até relaxar completamente. Pense que a intenção deste exercício é incluir você no mundo.

E ouça, no isolamento do seu quarto interno, muitas crianças cantando uma cantiga de roda. Abra a janela e veja que elas estão de mãos dadas girando ao redor de uma fogueira. Sinta a música, o calor e a alegria desta roda. Vá até ela encontrando um espaço para também dar as mãos às crianças, cantar e rodar com elas ao redor do fogo.

Olhe bem para este fogo e, mentalmente, atire para dentro dele todos os sentimentos que impedem você de fazer parte da alegria e da celebração da vida. Então, livre-se dos impedimentos, sinta-se completamente integrado nesta mandala viva de seres felizes. Então, respire e abra os olhos. Se desejar, escreva ou expresse-se conforme o seu coração mandar.

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Sagitário – Selo da Ucrânia

Música para Sagitário

 

 

(1) Edna Andrade – Festas Cristãs

(2) Liz Greene – the AStrology of Fate

(3) Liz Greene – Astrology for Lovers

As 12 Noites Sagradas – ESCORPIÃO e a Sombra Humana

scorpio simboloChegamos à decima primeira das 12 Noites Sagradas, a Noite de Escorpião. (Se você não sabe o que são As 12 Noites Sagradas, clique aqui)

Edna Andrade fala sobre esta noite:

Nasce de novo o sol, atravessamos um novo dia e cai a noite e uma nova estrela brilha no céu irradiando da Constelação de Escorpião através da qual emanam as forças espirituais dos Exusiai, os Seres da Forma, também chamados de Potestades ou Poderes. Agora atingimos o âmbito da segunda hierarquia. Eles também foram seres de um estado evolutivo anterior tão avançados em seu processo que podem acolher os planos divinos e torná-los manifestos, de forma que haja uma concordância entre a esfera macrocósmica da consciência do Cosmos e o nosso sistema Solar, que é uma expressão microcósmica onde a nossa existência humana está inserida, onde acontece a nossa biografia, humana.”

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Reprodução

Estamos no âmbito das forças sexuais, que são as forças que oscilam tanto para o egoísmo mais absoluto, aquilo que pode ser caracterizado como o mal, porque ao oferecer a possibilidade da maior satisfação imediata podem subjugar o humano ao nível do animalesco. Mas que também trazem uma das maiores possibilidades para a superação do egoísmo e transcendência de forças. Aqui temos a imagem de uma luta, na nossa vida interior, entre a morte e ressurreição. E esta é uma luta muito individual, onde em liberdade oscilamos entre as sombras que obscurecem o nosso ser, os esconderijos onde vive o Escorpião venenoso, e as forças de expansão do Ser, representadas pela águia que se eleva às alturas e de lá contempla o Todo.

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Reprodução

O Escorpião é então o signo das forças duplas, tanto destrutivas, retrógradas, que mudam constantemente de aparência e invadem a nossa alma trazendo caos à nossa vida, como é também portador de forças construtivas que têm a ver com transmutação constante e contínua superação, para que a substância divina, o Espírito, possa em nós ser plasmado de novo e sempre! No apocalipse esta característica de forças duplas é apresentada como a espada de dois gumes.

Nesta décima primeira Noite Santa, recebemos através do portal de Escorpião os impulsos espirituais dos Exusiai, ou Potestades, para aceitar por um lado as nossas fraquezas, e por outro lado receber os impulsos espirituais para a superação e transformação dessas forças.

Nesta noite procure ficar em paz consigo mesmo. Da região de Escorpião, os Exusiai, Espíritos da Forma, lhe trazem a capacidade de renascer das crises e de todos os processos de perda, impotência, dor e desespero. (1)

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Escorpião – Salvador Dali

Escorpião é signo FIXO, de ÁGUA. É Feminino, Passivo, Negativo. Como se pode pensar na água, sempre fluida, como fixa? De imediato podemos pensar no gelo, como diz Martin Freeman: “Tecnicamente, a única maneira de a água ficar fixa é quando é gelo. Certamente o iceberg, como o Escorpião, revela pouco de si mesmo, a parte maior estando submersa e traiçoeira” (citado por Sue Tompkins) (2). De fato, pouco se vê do Escorpião. Ele tem grande capacidade de penetrar profundamente a alma alheia, descobrindo os segredos e as motivações mais íntimas das pessoas, mas, para desespero e frustração delas, a recíproca não é verdadeira, permanecendo ele para sempre inescrutável, como uma fortaleza fortemente vigiada. Sim, claro, se ele chegar a confiar em você poderá até se abrir um pouco, mas revelará somente aquilo que lhe aprouver, quando e SE lhe aprouver. É o signo dos SEGREDOS e dos MISTÉRIOS. Mistérios são coisas que o fascinam e ele está sempre tentando entender a dinâmica da vida através de investigações metafísicas, mágicas e profundas ou mesmo estudando as filosofias ocultas e iniciáticas.

Escorpião é também associado com as águas paradas, escuras e profundas, cuja calmaria esconde abismos que podem engolir o melhor dos mergulhadores. Essas profundezas são metáforas para a alma abissal do Escorpião, cheia de perigos e volatilidade.

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Escorpião – Vitrais do portão Sul da Catedral de Chartres – Wikimedia Commons

Signo da MORTE, RENASCIMENTO e da TRANSFORMAÇÃO, ele vive muitas vidas numa mesma existência, trocando de pele como as serpentes, quando a forma de vida já não o sustenta ou não representa sua busca interior por viver tudo ao extremo. Tem necessidade de mudança, provocando crises quando percebe que uma situação está impedindo seu crescimento. Por mais possessivo que seja, uma vez determinado a eliminar algo da sua vida, é apenas questão de tempo. As serpentes, repteis diversos, a aranha, além do próprio escorpião são seus “animais”, assim como a águia, por causa de seu olhar agudo e de longo alcance. A Fênix, o pássaro mítico de fogo, é outro de seus símbolos. A Fênix sentia quando se aproximava seu fim, então ela se recolhia e entrava em auto combustão, queimando até as cinzas, para depois ressurgir para uma vida nova.

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A Fênix Mitológica – Desconhoeço o Autor Reprodução

No corpo rege os órgãos sexuais e excretores, simbolizando tanto sua associação com o SEXO quanto com a necessidade de ELIMINAÇÃO e expurgo dos detritos inúteis. RECICLAGEM também é algo pertinente a este signo, que é capaz de achar verdadeiros tesouros no lixo ignorado por outros.

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Marte – Maria Eunice Sousa

Regido duplamente por Marte e por Plutão, é um signo de grande CORAGEM e destemor, enfrentando seus medos e inimigos com grande audácia, sem o menor receio de olhar o diabo no olho. Mas, para além das confrontações literais, a maior força de Escorpião é a coragem e a FORÇA EMOCIONAL e psicológica. AUTOCONTROLE e auto-disciplina são palavras-chave porque ele tem que ser Senhor de si mesmo e jamais se permitirá depender de nada ou de ninguém – mesmo quando envereda pelo abuso de drogas e outras substâncias, é mais pela destrutividade intrínseca do que propriamente pela adicção ou dependência. É INSTINTIVO, VISCERAL, penetrante, intenso. Prospera e cresce com as CRISES, funcionando como grande CATALISADOR DE MUDANÇAS aonde quer que vá – aliás, esse é um dos motivos da sua grande má fama: as pessoas são obrigadas a olhar para si mesmas e suas necessidade de mudar na presença do Escorpião e essa é uma tarefa que nem todo mundo quer empreender.

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Plutão – Maria Eunice Sousa

Sua vida é colorida de PAIXÃO e INTENSIDADE, em cores vivas e quentes como o sangue que corre nas veias. Essa passionalidade é o que o faz viver intensamente e NO LIMITE, testando a si mesmo e à vida, expondo-se a perigos EXTREMOS, às vezes até mesmo por pura diversão, só para ver até onde ele agüenta. Nada com ele é morno. Ou é frio glacial ou é fogo calcinante. TUDO OU NADA, não tem meio termo. Ou ama ou odeia e com igual intensidade. É extremamente sagaz e perspicaz, captando as coisas no ar, seu faro e antenas sempre ligados e sondando o ambiente e os arredores. Nada é leve ou superficial com ele, tudo necessariamente tem que ser PROFUNDO e crítico, como se ele estivesse sempre prestes a morrer, como se cada minuto fosse o ultimo de sua vida. Isso porque ele tem uma consciência AGUDA da morte e dos ciclos da vida, uma consciência que é tanto inata, quanto resultado da exposição precoce à crueza da vida e da natureza humana. Por isso, nada o surpreende, nem nele mesmo, nem nos outros, menos ainda no mundo. Não há nada que ele já não tenha visto, sonhado, ou intuído. Essa aguda consciência da morte é o que o faz SENTIR tudo muito intensamente e também o que lhe dá um instinto de sobrevivência invencível, a toda prova. A INTUIÇÃO super aguçada e a capacidade de captar o que os outros sentem lhe conferem uma grande COMPAIXÃO pelos outros.

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Escorpião – De um Livro Medieval de Astrologia – Wikimedia Commons

Escorpião é, talvez, o signo mais LEAL do Zodíaco. Ele é capaz de morrer por você, mas você só erra com ele uma vez. Não há segunda chance, não há perdão! Esse negócio de perdão é para os fracos, diria ele. E claro que vai tentar se vingar na primeira oportunidade, mas de forma planejada e estratégica, porque de tolo ele não tem nada. Na melhor das hipóteses, no caso do escorpião mais “tímido”, ele vai fazer igual àquele provérbio japonês: se você sentar na beira do rio e esperar o tempo suficiente, você verá o corpo do seu inimigo descer rio abaixo. É, ele é IMPLACÁVEL e INTRANSIGENTE, IRRACIONAL, INFLEXÍVEL. Com seu faro super apurado, ele suspeita de tudo e tem grande dificuldade de CONFIAR nas pessoas, podendo mesmo se tornar PARANOICO em certas situações. E ele não confia porque conhece bem demais a natureza humana e suas vilanias e baixezas. Para ele não é questão de “se” alguém vai traí-lo, é uma questão apenas de oportunidade, de “quando” isso acontecerá.

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Escorpião – Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender

Daí uma das razões do ciúme e da possessividade. O ciúme também vem da necessidade de controle e de possuir o outro, imiscuindo-se em sua vida da forma mais profunda e inequívoca possível. Essa vontade de controle e de poder não se aplica somente aos relacionamentos, é uma constante na vida. Escorpião, afinal é o signo do PODER! Poder que vem, muitas vezes, da negação de si mesmo e da própria vontade – porque a dele é de aço! É também capaz de grande CRUELDADE, CINISMO e SARCASMO e nem espere pedido de desculpas, porque se ele fez, está feito, não tem retorno, não tem arrependimentos. Pode ser profundamente egoísta e quando negativo torna-se um vampiro sádico que se alimenta do viço daqueles com quem convive. Porque se ele é capaz de gestos grandiosos e compassivos, também pode ser terrivelmente mesquinho, de propósito, porque tem capacidade de ler onde a estocada vai doer mais, onde reside o ponto mais fraco do seu oponente e exatamente aí, dar o golpe final. Seu grande poder de veneno pode tanto curar quanto destruir e ele está ciente disso, mas a forma como age, é mais forte que ele mesmo, é a sua natureza.

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Escorpião, o inseto – Reprodução

Isso nos lembra aquela fábula do sapo e o escorpião e que nos dá uma boa idéia de como este signo funciona: Um sapo e um escorpião se encontraram às margens de um rio profundo. Ambos precisavam atravessá-lo, mas só o sapo sabia nadar. O escorpião se aproximou dele, e pediu carona nas costas para atravessar o rio. O sapo relutou dizendo: “Não sou doido, se o carregar nas costas, você vai me dar uma picada e eu ficaria paralisado e morreria”. O escorpião ponderou: “Eu é que seria doido se fizesse isso porque também morreria porque não sei nadar”. O sapo, pensou e admitiu que o escorpião tinha razão, era lógico o que ele estava afirmando. Então deixou que ele subisse nas suas costas e começaram a travessia do rio. No meio dessa travessia o escorpião picou o sapo. Este, surpreso, ainda não paralisado, mas já sentindo o efeito da picada, perguntou indignado: “Por que você fez isso se sabe que também vai morrer?”. O escorpião respondeu “Fiz isso porque é da minha natureza”.

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Escorpião – Guido Bonatti – Wikimedia Commons

Assim é o escorpião, é a sua natureza. Ele pode sabotar tanto a você quanto a ele mesmo porque o instinto destrutivo é forte, assim como a capacidade para subterfúgios, manipulação e corrupção. A diferença é que quando escorpião se torna corrupto, ele o faz sem desculpas, de caso pensado. Não é alguém que se deixa seduzir e finge que foi “corrompido”. Não. Ele se corrompe de forma decidida, seja porque gosta de flertar com o perigo, seja pela vontade de poder, ou porque decidiu que seria assim.

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Ilustração da Constelação de Escorpão na Uranometria de Johann Bayer – Wikimedia Commons

Sua capacidade de entrega ao que faz é tão intensa que o torna obsessivo, só sossegando quando chega à raiz das coisas, ao núcleo do problema ou da situação que ele está tentando esmiuçar, portanto, nem tente esconder algo de Escorpião, porque é questão de tempo até que ele desvende o mistério. Aliás, às vezes ele nem precisa se esforçar muito, porque as coisas que lhe interessam saber tendem a “cair no colo” dele, de alguma forma misteriosa. Ele é venenoso e tão letal quanto o ferrão do inseto que lhe emprestou o nome. Por isso, não brinque com ele se não tiver igual poder de fogo, ou melhor, de veneno!

Para entender tentar melhor sua psicologia, vamos explorar alguns de seus mitos e figuras emblemáticas.

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Hércule e a Hidra – Gustave Moreau – Reprodução

O mito mais conhecido relacionado a Escorpião é o oitavo dos 12 trabalhos de Hércules, aquele em que ele precisa matar a Hidra de Lerna, um monstro que tinha corpo de cachorro e nove cabeças, uma delas imortal. Seu veneno era tão letal que destruía toda a vida ao seu redor. Ela habitava um pântano fedorento e obscuro e aterrorizava a região. Era quase impossível destruir o monstro porque quando se cortava uma cabeça, três outras nasciam no lugar. Primeiro ele teve que fazer o monstro sair da caverna escura em que se escondia atirando flechas de fogo, enquanto segurava a respiração para não respirar seu veneno. Mesmo assim, ele estava quase perdendo a batalha quando lembrou-se dos conselhos de seu mestre: “nós nos elevamos ajoelhando-nos, conquistamos nos rendendo e ganhamos, desistindo”. Assim, ele ajoelhou-se e levantou a hidra por uma de suas cabeças, tirando-a da água e elevando-a no ar, em direção ao sol. Afastada da água a hidra perdeu sua força e poder e encolheu de tamanho, permitindo que Hércules cortasse suas cabeças e as cauterizasse e cortasse, especialmente, a principal delas. No seu lugar surgiu uma jóia preciosa que ele enterrou debaixo de uma rocha. Da mesma forma, Escorpião precisa trazer à luz da consciência os conteúdos virulentos e obscuros do inconsciente pessoal e às vezes, familiar e coletivo. Se ele não faz isso, essa energia inconsciente e putrefata o envenena, intoxicando também a tudo o que ele toca. quando decide enfrentar o monstro, o resultado é a jóia preciosa da consciência e do domínio de mais uma parcela de si mesmo. (3)

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Medusa – Caravaggio – Reprodução

Outro não menos importante é o mito de Medusa (novamente, os parágrafos em itálico são uma tradução livre e resumida do capítulo de Escorpião do Livro A Astrologia do Destino, de Liz Greene) (4). Havia três Górgonas chamadas Esteno, Euriale e Medusa, elas eram três belas irmãs. Uma noite Medusa se deitou com Poseidon no templo de Atena, que ficou ultrajada pela audácia de profanarem seu templo, transformando Medusa num monstro alado, de olhos petrificantes, dentes pontiagudos, língua saliente, garras agudas e serpentes no lugar de cabelos. Em outra versão do mito diz-se que na verdade Poseidon a violentou e que o olhar petrificante dela era na verdade o ultraje e o horror da experiência.Liz Greene diz que independente da versão “estamos de volta ao tema escorpiônico do estupro e da sexualidade ofendida. Eu diria também, a deusa resolve punir apenas o feminino, que representa, novamente, os  instintos. Se a feiura de Medusa foi resultado de uma Atena ultrajada ou do espírito feminino ultrajado, eles são, de muitas formas, a mesma coisa, pois Atena, a deusa virgem que é a sabedoria de Zeus é uma imagem do julgamento contra o comportamento não civilizado. A face de Medusa é um retrato do ódio e raiva femininos e seu efeito sobre qualquer um que ocorra de olhar para ela é paralisia”.

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Desconheço o Autor – Reprodução

A Perseu coube matar Medusa, do contrário sua própria mãe seria obrigada a casar-se com o Rei Polydectes. Aqui, diz Greene, “temos o motivo da redenção de uma figura feminina conquistando outra, sombria. Mas as duas, em essência, são a Mãe, a Mãe Sombria. E a mãe pessoal só poderá ser redimida se a arquetípica for confrontada”. Ela continua dizendo que é comum que no caso de um homem, a herança da raiva e amargura inconsciente da mãe macule sua própria alma interior, a imagem da sua anima, assim, ele carrega o ódio por ela. Portanto, é importante redimir não só a própria mãe, mas também a anima.

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Escorpião, Jantar Mantar, Jaipur, India. Século XVIII DC – Wikimedia Commons

Para conseguir aniquilar Medusa Perseus recebeu conselhos e presentes de vários deuses: Atena lhe deu um escudo super polido e lhe advertiu para nunca olhar diretamente para ela. O escudo-espelho nos remete à ideia da capacidade de reflexão e de pensamento simbólico. Hermes lhe deu uma foice especial pra  cortar-lhe a cabeça, uma par de sandálias aladas e uma sacola mágica para guardar a cabeça depois. Hades lhe deu um capacete de invisibilidade. Para conseguir tudo isso e descobrir o caminho para Medusa, ele teve que visitar as três Velhas Graiai, que dividiam entre si um único olho e um único dente. Outra versão das Moiras, ou seja, ele está nas mãos do Destino, e a tarefa é Deo Concedente, como diriam os alquimistas, ou seja, é da vontade do Deus. Seguindo estes conselhos e usando os objetos mágicos Perseus então matou Medusa. 

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Pegasus – Desconheço o Autor – Reprodução

Do corpo dela saiu Pegasus, que era o fruto da união de Medusa e Poseidon, mas por causa de seu ódio ela não tinha conseguido dar à luz. Assim Perseus libera não só a ele, mas a ela também. Pegasus  era um cavalo alado, simbolizando uma criatura da terra que tem o poder de ascender às alturas celestiais. A cabeça de Medusa, Perseus guardou na sacola mágica pra usar depois contra seus inimigos.

Greene diz que tanto Medusa quando a Hidra simbolizam a mesma coisa, a destrutividade com a qual Escorpião tem que lidar. Ela só pode ser decapitada pelo poder da reflexão pois se se olhar diretamente para ela, ou para a própria sombra e escuridão, fica-se petrificado, que é quando se chega aos estados psicóticos. “A luta com o dragão ou com o monstro é outro motivo universal nos mitos e é particularmente relevante para Escorpião, que deve confrontar em talvez maior profundidade essa face reptiliana da vida instintiva com seu poder destrutivo e terrificante”, afirma Greene.

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Fausto – Rembrandt – Reprodução

No capítulo sobre Escorpião Liz Greene lembra ainda a estória de Fausto, um mito recontado magistralmente por Goethe, que tinha, ele mesmo, Escorpião no Ascendente. Fausto era um médico comum e obscuro, que tinha anseios de prestigio e sede de poder, riqueza e reconhecimento. Fausto faz um pacto de sangue com Mefistófeles: em troca de seus desejos de poder mundano, Mefistófeles terá sua alma. E ele segue conquistando e conseguindo tudo o que ambicionava. Mas o tempo vai passando. Goethe foca no egoísmo de Fausto, que é a porta de entrada para Mefistófeles, o espírito da negação, aquele que murcha toda a inocência. Ocorre que Fausto negou a Deus, desprezando-o. Essa atitude do cinismo e da negação da vida é um dos males que Escorpião tem que combater dentro de si mesmo. Às vezes, nem ele mesmo percebe ou está consciente dessa negatividade destrutiva da vida.  “É como uma apatia, um tipo de depressão, uma convicção de que, em ultima análise, nada vai funcionar; e geralmente se origina do desespero da infância e da sensibilidade peculiar ao lado sombrio da psique que Escorpião possui desde muito jovem”. A barganha de Fausto com Mefistófeles é a de que ele poderá levar sua alma se ele tentar, em qualquer momento, parar a vida e agarrar-se ao momento presente ao invés de permitir a mudança e o fluxo da vida. Isso tem a ver com a fixidez de Escorpião, que geralmente tenta possuir algo bonito e prazeroso ao invés de deixar a vida fluir. Daí nasce realmente a possessividade e o ciúme de Escorpião.

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Dr. Fausto encenado no Teatro Shakeaspeare em Londres – Reprodução

Greene continua: “no fim do poema Fausto quase pronuncia as palavras fatais, mas seu espírito inquieto o salva e embora ele tenha sujado suas mãos e se corrompido, este é um aspecto necessário de sua busca não apenas por poder, mas pela iluminação e pelo amor. Portanto, ele é perdoado”. Ela diz que este negócio entre Fausto e Mefistófeles é um retrato vívido do conflito intrínseco a Escorpião, que, a despeito de sua suscetibilidade ao orgulho e ao egoísmo, seu cinismo e sede de poder, ainda assim, ele não para de aspirar à experiência do Amor, que é a sua redenção.  

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Signo de Escorpião – Giovanni Maria Falconetto, Mantua, Palazzo d’Arco, Sala do Zodiaco – Wikimedia Commons

A sombra deve ser confrontada pelo espírito humano e é em Escorpião que essa batalha se dá de forma mais fatídica e decisiva. Escorpião, ao olhar e lidar com todos estes materiais sombrias, em si mesmo e no coletivo, redime não só a si e à sua anima, mas traz à tona conteúdos ancestrais que precisam ser purgados e purificados, para que uma transmutação possa ocorrer. Em algumas situações, talvez ele se corrompa no processo, mas o pecado maior de todos é o cinismo e o ódio à vida, assim como o ódio a si mesmo. Ele tem que aprender a viver com essas imagens monstruosas, não só dentro de si, mas aonde quer que vá. A contradição maior é que suas sublimes aspirações de amor, que podem levar a esse ódio da vida, e sua poderosa sensualidade são complicados de se conciliar. Mas se originam do mesmo núcleo misterioso, metade sexualidade e metade espiritualidade; é uma combinação de eroticismo espiritualizado ou espiritualidade erotizada, mas que não é fácil de ser vivenciada e que normalmente Escorpião reprime uma para vivenciar a outra.

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Escorpião – Johfra Bosschart – Reprodução

A Casa oito, a casa natural de Escorpião é a casa do sexo no horóscopo, assim como é a casa da morte e das investigações metafísicas. Parece contraditório, mas não é. Porque no sexo, quando há entrega total, o que se busca é eliminar a separatividade através da fusão completa e voltar à unidade com Deus, eliminar a sensação da solidão e do vazio; e no orgasmo, já diziam os franceses, ocorre uma “pequena morte”, porque por frações de segundos, o ego deixa de existir e alça alturas só possíveis no êxtase, seja sexual ou religioso. Se Escorpião for capaz de olhar para si mesmo – ele analisa a todo mundo, menos a si próprio, sendo este um dos seus piores pecados – com honestidade sem se perder no cinismo e no desespero, ele pode achar caminhos dignos e luminosos de conciliar sua busca pelo sublime, pelo amor e sua sensualidade poderosa e transformadora.

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Selo da Ucrânia – Escorpião

 Figuras e motivos arquetípicos

O Alquimista; O Curador Potente; O Cirurgião ; O Psiquiatra; O Assassino; O Mago Negro; O Sobrevivente; O Lobo solitário; Metamorfoses dramáticas; O Reciclador; O Vampiro; O Investigador; O Sabotador

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Ilustração Medieval – Reprodução

A sombra de Escorpião é algo complicado de se falar, sendo ele um signo já bastante sombrio. Mas obviamente tem a ver com Touro, seu oposto complementar. Como diz Frank Clifford, “o maior de todos os mistérios é ele mesmo. Ele evita a auto-análise, recusando-se patologicamente a questionar suas motivações subjacentes. Ao contrário, ele permanece na zona de conforto, livre dos riscos e da imaginação, focando somente no físico e no sexual, adquirindo posses e acumulando riquezas. Com medo da sua própria co-dependência e dos impulsos que espreitam abaixo da superfície. O Escorpião vampiresco é desdenhoso das fraquezas alheias e usa intimidação para controlar e manipular os outros”.

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Escorpião – Escultura no Portão Norte da Catedral de Chartres – Chartres, França – Wikimedia Commons

Sobre a sombra de Escorpião Liz Greene (6) lembra que uma das coisas que ele não consegue ver é o quanto suas intensas reações emocionais são governadas pelas suas opiniões – não, nem tudo é tão instintivo assim! Da mesma forma que os signos de Ar são muito inconscientes dos próprios processos emocionais, assim também os signos de Água são muito inconscientes dos seus processos mentais e racionais. Desta forma, Greene afirma que “um dos seus maiores pontos cegos é o fanatismo em suas opiniões sobre pessoas e sobre a própria vida. E este fanatismo pode, no lugar errado e na hora errada, incitá-lo a algumas atitudes bem desagradáveis baseadas julgamentos tendenciosos ou distorcidos”. Ela menciona, por exemplo, que mulheres de Escorpião, depois de terem tido experiências amorosas ruins tendem a cristalização de opiniões, a rotulações e generalizações do tipo “todos os homens são iguais/infiéis” ou “nenhum homem é digno de confiança”, no que ela chama de Síndrome de Otelo. O ciúme e possessividade de Escorpião vão muito, muito além do ciúme do ser humano comum: chega à paranoia ou ao ciúme patológico que envenena e destrói relações e, em última instância, impede mesmo que o indivíduo desenvolva as parcerias frutíferas pelas quais tanto anseia. Sua enorme negatividade sobre a vida e as pessoas, essa negatividade que colore tudo de negro e descortina apenas cenários áridos e sombrios é uma das partes principais de sua sombra.

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Escorpião – detalhe do Livro de Nascimentos de Iskandar – Coleção Asiática – Wikimedia

O problema, diz Greene, é que Escorpião nunca dá o benefício da dúvida a ninguém. Ele simplesmente decide que você errou, ou o traiu, ou “aprontou” para cima dele e o veredicto é dado. E jamais lhe dará oportunidade de se retratar, muito menos confiará de novo. Nem por um segundo cogita que pode estar errado em suas suspeitas e conjecturas, porque ele viu tanto da podridão humana que não consegue mais confiar em ninguém. Mas é preciso aprender a confiar, mesmo que em algum momento se seja magoado novamente. A vingança, dependendo da situação, pode ser até algo saudável, diz Greene, melhor do que bancar a alma boa que perdoa tudo, enquanto ferve de ódio por dentro e recorre a manobras indiretas de se vingar sem parecer que se vingou – algo com que Bert Hellinger concorda, uma vez que recomenda que se dê “o troco” em nome do equilíbrio nas relações laterais, numa conta que em que se deve devolver as coisas boas em dobro e devolver as coisas ruins pela metade. Mas no caso de Escorpião, ele quer se vingar sempre, e da forma mais dolorosa e terrível possível. Assim não dá para se viver, para se amar ninguém… Assim não dá para ser feliz! Então, Escorpião precisa aprender que amar e viver dói; que a gente tropeça e se machuca aqui e acolá; que as pessoas se ferem mutuamente e na maior parte das vezes isso não é intencional; e nem por isso se tem que sair destruindo a tudo e a todos por uma vingança que só irá nos deixar mais vazios e amargos. Então, Escorpião, vamos dar o benefício da dúvida de vez em quando? Por mais que seus instintos estejam certos na maior parte das vezes, em outras tantas ele pode ficar ofuscado pela sua paranoia. Lembre-se disso!

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Reprodução

Meditação de Escorpião

Esta meditação é tirada do oráculo do Osho: fique sentada(o), braços apoiados nas pernas com as palmas das mãos viradas para baixo, feche os olhos, respire calmamente algumas vezes e pense na intenção deste exercício. A intenção é DEIXANDO IR (aquilo que você precisa se libertar – pensamentos, pessoas, objetos, situações).

E agora veja, sinta ou faça de conta que tem aprisionada em suas mãos a imagem daquilo a que está apegado. Respire uma vez e solte, desprenda, desapegue-se disso, vendo ou fazendo de conta que vê esta imagem se diluir, se desfazer, desaparecer nas profundas águas do Universo. Olhe então para as palmas das suas mãos e imagine uma miríade de pontos de luz com milhões de novas possibilidades para você e sua vida. Então, sentido-se completamente livre, respire e abra os olhos. Se quiser, escreva ou faça alguma arte – ou apenas medite e guaarde para você, como faria Escorpião.

Música para Escorpião

 

Fontes consultadas

(1) Edna Andrade, em Festas Cristãs 

(2) Sue Tompkins – the Astrologer’s Handbook

(3) Howard Sasportas – As 12 Casas

(4) Liz Greene – A Astrologia do Destino

(5) Frank Clifford – Getting to the Heart of your Chart

(6) Liz Greene – Astrology for Lovers

As 12 Noites Sagradas – LIBRA, a igualdade nas relações

Libra-TattoosHoje é o dia e a Noite Sagrada de Libra e eu me encontro dividida entre várias coisas, querendo fazer todas elas, sem poder. Tenho que escolher, mas como?  Na verdade, isso não é algo que me ocorre só hoje. Com a Lua em Libra e Sol na casa sete, casa natural de Libra, isso é uma constante na minha vida (para entender o que são As 12 Noites Sagradas clique aqui).

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Libra – De um Livro Medieval de Astrologia Domínio Público/Wkimedia Commons

Do site de Antroposofia Edna Andrade nos fala sobre a Noite de Libra: “Nesta décima Noite Santa, através do portal da Balança – Libra, recebemos dos Dynamis, ou Virtudes, os impulsos espirituais para desenvolver o equilíbrio interior e conseguir conter as forças de dispersão para que tenhamos uma vida coerente e harmoniosa.” 

“Nesta noite reconheça quais os pontos de equilíbrio de sua vida. Da região de Libra, os Dynamis, Espíritos do Movimento, trazem a você a capacidade para equilibrar na alma as forças de dispersão e ter uma vida coerente e harmoniosa.” (1)

LIBRA é AR CARDINAL. É Masculino, Ativo, Positivo. Seu símbolo é uma representação gráfica da balança, que, aliás, é como o signo era chamado na antiguidade. Uma peculiaridade sobre este símbolo já nos diz muito sobre a sua natureza: é o único signo do Zodíaco cujo símbolo é inanimado, ou seja, não é um animal, nem criatura de sangue frio, nem criatura humana… Isso nos fala de um signo bastante desapegado do ponto de vista emocional e sentimental; ele tem um distanciamento emocional bastante pronunciado, se diria mesmo, totalmente afastado do Reino dos Instintos. Sim, é o signo dos relacionamentos por excelência, mas isso do ponto de vista racional, até porque ele é signo de Ar. Esse símbolo inanimado, sem associação com animais também nos diz que este é o signo mais civilizado do Zodíaco, e como diz Sue Tompkins (2), isso é a bênção e a maldição de Libra, porque civilidade é algo mais que necessário para se viver em sociedade, por outro lado, o excesso faz com que nos removamos da esfera dos sentimentos humanos, tornando-nos até mesmo, frios.

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Fonte Zodiacal – Jaffa, Israel Wikimedia Commons

A balança tem um simbolismo imediato: a necessidade de EQUILÍBRIO, que é a grande tarefa que este signo precisa desenvolver. A balança também é o grande símbolo da JUSTIÇA, e era um dos símbolos da deusa Atena, uma versão mais racional de Afrodite. A balança era usada pelos egípcios para simbolizar o JULGAMENTO  a que todas as almas eram submetidas diante de Osiris no Mundo Subterrâneo. Quando alguém morria, sua alma era guiada da Terra dos Vivos para a Terra dos Mortos pelo deus Anubis, uma contraparte do deus grego Hermes. A alma era submetida então a um rito de passagem diante de Osiris. Havia uma balança gigantesca, havia Maat, a deusa da Verdade que pesaria o coração do morto e havia Amemait, o Devorador (um monstro que era parte leão, parte hipopótamo e parte crocodilo), aguardando para devorar o coração dos injustos. Havia ainda várias outras personagens no salão, alguns com cabeça de animal, outros com cabeças humanas, a quem o morto deveria responder quando perguntado sobre ações negativas que teria empreendido enquanto vivo. Então a alma do morto era pesada, colocando-se em um dos pratos da balança o coração do morto e no outro prato a própria deusa Maat ou a sua pena da verdade. Se os dois pratos ficassem em equilíbrio significava que os pecados daquela alma não suplantavam o peso da Verdade, então os juízes emitiam um veredicto favorável. Quando porém o coração pesava mais, ele era atirado ao monstro Amemait, simbolizando a condenação da alma do morto. A Deusa Maat personificava a lei, a verdade e a ordem social, diz Liz Greene (3). Ela era uma espécie de Moira (Deusa do Destino) civilizada, em que o instinto da vingança se transforma na necessidade de justiça e de se seguir códigos éticos e morais. Os temas da Justiça, da Ética e da Moral são, pois, temas muito caros a Libra e não é por acaso que Saturno está exaltado aqui, já que estes assuntos também lhe são preciosos.

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Libra – Johfra Bosschart Reprodução

A balança nos fala, então, da necessidade de pesar as coisas, de avaliar cada lado de uma situação e tentar chegar  uma CONCILIAÇÃO. Porque assim como Gêmeos, Libra precisa aprender a construir pontes, a mediar conflitos e tentar achar um caminho do meio. ACORDO e AJUSTE são outras palavras associadas a este signo, que tenta sempre ser DIPLOMÁTICO e agradável, sempre achando algo positivo para dizer sobre qualquer situação ou pessoa. É também o signo da persuasão e da estratégia, sabendo como ninguém como lidar com pessoas nas mais diversas situações, daí a se tornar manipulador, pode ser um pulo também. Ele tem uma capacidade incrível de persuadir você a fazer o que ele quer, fazendo você achar que é o que VOCÊ quer. Por isso, ele se sai muito bem nas profissões que trabalham na busca de conciliação ou de justiça, como é o caso dos profissionais da lei: advogados, juízes, promotores. Outro meio em que eles podem se sobressair é nas profissões de aconselhamento, por sua incrível capacidade de perceber os diversos ângulos de uma questão e ver as situações de fora.

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Libra – Balança – Guido Bonetti – Liber Astronomiae Wikimedia Commons

Libra é o signo oposto complementar de Áries e isso nos diz da sua busca por igualdade nos relacionamentos, pois ele tenta consertar o desequilíbrio criado por Áries, que só pensa em si. Em Libra o Eu encontra um Tu e precisa aprender a ceder, a negociar a própria vontade com a vontade do OUTRO. Eu + Tu = NÓS. Libra vê o OUTRO como um igual e é o primeiro signo a fazer isso, diz Tompkins.  Assim, Libra precisa de RELACIONAMENTOS, de todos os tipos: afetivos, de amizades, sociais… Sem o outro, Libra se sente vazio e a vida fica sem sentido. O Outro é seu ESPELHO, do qual ele precisa para aprender sobre si mesmo, pra aprender a se reconhecer. O problema é quando esse espelho se torna mais importante do que o eu, quando só vivo a partir do reflexo que vejo no outro, ou seja, vivendo exclusivamente a partir da projeção ou eternamente dependendo da aprovação e aceitação do outro para me sentir reassegurado e funcionar no mundo.

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Reprodução

Harmonia é a sua grande busca, mas por incrível que pareça, ele está sempre metido em grandes conflitos e imbróglios espinhosos, sem entender porque, quando tudo o que ele queria era estar em paz com todos. Ora, Libra é o grande PACIFICADOR, e qual a função de um pacificador? Pacificar! Então, ele vai sempre ser atraído para a guerra e o CONFLITO, para que possa fazer o que faz de melhor. Tanto que, se as coisas estão “certinhas” demais, agradáveis demais, ele pode criar crises medonhas só para se sentir necessário, ou seja, cria um conflito para ele mesmo resolver. Isso é algo que tem a ver também com a necessidade de equilíbrio de que falamos acima: o equilíbrio é algo tão importante, que mesmo sendo associado com a harmonia, Libra pode agir de forma exatamente contrário quando chega num ambiente em que tudo está “agradável” demais. Ironicamente, ele sente a necessidade de criar alguma desavença para que o equilíbrio se estabeleça, paradoxal como possa parecer.

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O Nascimento de Vênus – Boticelli – Foto: Maria Eunice

Libra é regido por Vênus, uma versão mais civilizada e racional de Vênus, não aquela mesma que rege Touro, que é mais terrosa. A Vênus que rege Libra é associada também a Urânia e a Atena, a deusa da estratégia e do pensamento racional. É a Vênus que nasceu do sêmen dos genitais de Urano, jogados ao mar por Saturno. Ou seja, daí apreendemos novamente uma qualidade desapegada e mental deste signo.

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Amanda Charchian – Reprodução

Espere aí! Mas Libra não é “o signo do amor”? Quem falou, Cara Pálida? Claro que não! Libra é o signo do RELACIONAMENTO. Amor é outra história bem diferente! Libra realmente não é sobre amor, porque amor tem a ver com sentimento também e sentimentos são coisas primitivas e tumultuadas, com os quais os signos de Ar têm grande dificuldade de lidar. Libra está interessado em RECIPROCIDADE, mutualidade, unidade, acordos, e, em última análise,  CASAMENTO,  PARCERIA. Amor? Não necessariamente.

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Símbolo de Vênus – Acrilíco – Maria Eunice Sousa

Sendo regido por Vênus, Libra é, pois, um signo de grande apuro estético, de gosto refinado, charmoso, cortês, elegante e gracioso. Ele sempre sabe como agir de forma conciliatória e educada em todas as situações – a não ser que esteja vivendo a partir da sombra de Áries, ou se tiver ênfase grande em outros signos. De qualquer forma, aqui estamos falando do arquétipo puro e ninguém é um arquétipo. Libra também é um signo que tem senso de simetria e proporção, daí seu gosto pela Beleza, no sentido mais amplo do termo, o que nos leva às artes e ao conceito de Ordem, Estética e Plasticidade, que dá a ele um olho clínico para apreciar coisas de valor  – daí vem também sua grande criatividade, da sintonia com a harmonia e se ele mesmo não for artístico, certamente terá gosto estético apurado ou poderá ajudar a promover as artes de forma indireta, sendo marchand, trabalhando em museus ou galerias de arte. Da mesma forma, ele detesta coisas e situações grosseiras, sórdidas, feias e quando precisa fazer algo que “suje suas mãos” ele vai dar um jeito de persuadir alguém a fazer o trabalho sujo por ele.

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Libra – Ornamento da igreja de Saint-Austremonius of Issoire (Século XII) Auvergne, França – Domínio Público – Wikimedia Commons

Assim como Touro, Libra não gosta muito de chutar o balde, porque não é muito afeito a mudanças. Às vezes ele vai se anular, se tornar um capacho, uma maria-vai-com-as-outras para tentar agradar e ser aceito e aprovado; fará qualquer coisa para manter a paz, muitas vezes varrendo a sujeira e o descontentamento para debaixo do tapete, para não ter que lidar com o lado desagradável da vida – mas Escorpião logo em seguida vai levantar esse tapete e mostrar a sujeira que Libra tão arduamente tentou esconder. É que ele realmente não gosta de “estragar” as coisas e assim como Capricórnio, investe muito em manter o status quo, especialmente porque precisa mostrar uma imagem agradável, bonita, correta, simétrica para a sociedade. Está sempre preocupado com “o que os outros vão pensar”, por causa da sua necessidade imensa de aceitação e aprovação. Assim, de certa forma, pode ser um signo bastante conservador.

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Constelação de Libra – Reprodução

Uma de suas grandes fraquezas, a INDECISÃO, nasce exatamente da necessidade de harmonia e justiça. Como está sempre pesando as coisas e as situações, ele pode ficar paralisado, incapaz de escolher, porque consegue ver o lado bom e as vantagens de todas as alternativas. Isso também o faz evitar todo tipo de CONFRONTAÇÃO, o que enerva terrivelmente as pessoas com quem ele convive, assim como sua mania de querer agradar a todos, o que só o levar a desagradar a um monte de gente. Por causa disso, Libra é acusado de ser falso, e ele pode mesmo ser, pois morre de medo de ser rejeitado se falar a verdade e o que realmente pensa. Na verdade, diz Tompkins, ele já sabe o que ele quer: e o que ele quer é não ter que escolher, não ter que decidir nada e assim, muitas vezes, deixará a decisão e a escolha a cargo do outro, que vai escolher conforme lhe aprouver, só para ouvir depois de Libra: “mas não era isso que eu queria”. Quem vai entender?

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Ricardo Falero – Reprodução de Wikimedia Commons

No corpo Libra rege os rins, que a medicina chinesa associa ao medo, medo que é associado com Saturno, que não por acaso está exaltado em Libra. Os rins também nos lembram, de novo, da idéia do equilíbrio, porque são dois iguais, trabalhando lado a lado, como os pratos da balança. “A função dos rins é purificar o organismo das toxinas e substancias nocivas. Quando os relacionamentos se tornam a tal ponto envenenados que você acaba perdendo a cabeça por outra pessoa, é muito provável ocorrer um mau funcionamento dos rins. Quando um intenso desejo de encontrar um parceiro ou companheiro não se realiza num nível externo, manifesta-se, geralmente, uma profunda gulodice por doces, que conseqüentemente estimula o diabetes, doença governada por Libra” (4) A-há!

Essa questão de aprender a escolher nos leva ao principal mito relacionado a Libra: o mito de Páris e Helena, também chamado a Escolha de Páris, do qual trago um resumo e a interpretação de Liz Greene, e que para enfatizar isso, coloco em itálico.

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A Escolha de Páris – Deconheço o autor   Reprodução

Páris teve que fazer uma escolha que o deixou embrulhado em muitas complicações, que é algo típico do padrão de desenvolvimento de Libra. Páris era filho do Rei Príamo e da Rainha Hécuba de Tróia. Antes de ele nascer, foi profetizado por um oráculo que ele causaria a destruição de Tróia. Então o bebê foi deixado no Monte Ida para morrer, mas ele foi salvo e alimentado por uma ursa e posteriormente criado por um pastor da região do Ida. Ele cresceu para se tornar um jovem inteligente , forte e particularmente bonito e por causa de suas proezas com as mulheres e sua superior capacidade de julgamento, ele foi convocado por Zeus para fazer uma escolha ingrata, pra lá de espinhosa. Ocorre que os deus resolveram dar uma grande festa no Olimpo e chamaram todos os deuses, menos uma, Eris, a Deusa da Discórdia e do Caos, por razões mais do que obvias. Mas ela não se fez de rogada e foi mesmo assim e no meio da festa ela jogou uma maça dourada sobre a mesa do banquete, com os dizeres: “Para a mais bela de todas as deusas”. Hera, Atena e Afrodite se engalfinharam pela maçã, cada uma querendo-a para si.

Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender livra
Libra – Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender

Nenhum dos deuses era tolo o suficiente para querer arbitrar tal escolha difícil. Então, chamaram Páris, que estava tranquilamente apascentado seu rebanho no Ida. Hermes apareceu diante dele, acompanhado de Hera, Atena e Afrodite e lhe entregou a bendita maçã, solicitando que ele fizesse a fatídica escolha. Ora, Páris não era nenhum idiota e de cara percebeu a confusão em que tinha se metido, sabendo de antemão que escolher uma incorreria na fúria das outras duas. Como bom Libriano, político e charmoso, ele sugeriu dividir a maça entre as três. Zeus, porém não permitiu que ele se evadisse da questão, demandando uma decisão. Ele implorou a elas que não se zangasse com ele depois da decisão e claro, todas prometeram não se vingar, independente do resultado da disputa.

 

Jacques Louis David 1748-1825 The Courtship of Paris and Helen Oil on canvas
O namoro de Paris e Helena – Jacques Louis David (1748-1825) Óleo sobre Tela Reprodução

Todas se despiram e então Hera ofereceu a Paris o governo de toda a Ásia e prometeu fazê-lo o homem mais rico do mundo se ele a escolhesse. Porém Paris, sendo Libra, não estava interessado em riqueza e poder, menos ainda na responsabilidade que isso implicava. Atena lhe prometeu vitórias em inúmeras batalhas e que ele se tornaria um guerreiro muito respeitado e honrado em todo o mundo. Mas isso era outra coisa que não o interessava, já que ele não era Áries, mas sim Libra. Então Afrodite, tendo percebido o que o motivava, prometeu-lhe a mulher mais bela do mundo para esposa, que era Helena, filha de Zeus e Leda, que já encontramos no mito de Gêmeos, e que era, por acaso, esposa de Menelau, rei de Mikenai. Páris objetou que ela já era casada, mas Afrodite lhe garantiu que isso não seria problema e que ela daria um jeito de helena ficar livre para ele. O tolo acreditou, seduzido que já estava pela beleza de Helena e deu a Afrodite a maçã dourada sem pensar duas vezes. As outras deusas ficaram zangadíssimas, que renegando sua promessa anterior, juraram vingança e se aliaram para planejar a destruição de Tróia. Quando Páris encontrou Helena, no palácio do seu marido, os dois se apaixonaram instantaneamente e fugiram para Tróia, o que provocou uma guerra de dez anos, já que os gregos queriam se vingar do insulto e da humilhação de perder sua rainha para Páris. Nesta guerra, Tróia foi, de fato destruída, e não apenas Páris foi morto, mas também seu seus três filhos com Helena e seu irmão Heitor, que era valoroso guerreiro. Helena foi no fim devolvida a seu marido, já que era semi-divina e estava sem culpa, pois tinha sido apenas um peão nas armadilhas de Afrodite.

The lovers
Arcano VI Os Enamorados Tarô de Nei Naiff

Esse mito nos fala da coisa mais difícil para Libra: a necessidade de se fazer escolhas e de se arcar com as conseqüências. Dizer não é dizer sim, dizer sim é dizer não, diz a canção. Quando escolhemos algo, temos que renunciar às outras opções, mas a escolha precisa ser feita e o preço por ela precisa ser pago, é o que a escolha de Páris representa. O fato de sua escolha ter terminado mal e de ter se desenrolado uma verdadeira e longa tragédia, não implica que esse seja o destino de Libra. Claro que não – embora as escolhas deste signo muitas vezes o levem a muita confusão e conflito. A outra coisa que essa estória vem salientar, é o padrão de triângulos amorosos que Libra costuma repetir vida afora. Porque ele simplesmente não consegue escolher entre os parceiros, já que um tem certos atributos e vantagens que o cativam sobremaneira, enquanto o outro também o preenche de forma inegável. Assim, ele vai buscar em duas pessoas diferentes (às vezes mais), a completude que lhe falta. Quanta confusão, heim, Librianos?

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Tirésias mata a serpente fêmea – Autor desconhecido Reprodução

Liz Greene traz presente ainda outro mito pertinente a Libra: A Escolha de Tirésias. Tirésias era um homem comum, que um dia estava caminhando pelo Monte Kilene quando viu duas serpentes copulando. As duas serpentes o atacaram e ele se defendeu com seu cajado, matando a fêmea. Imediatamente ele foi transformado numa mulher e passou sete anos vivendo como uma prostituta celebrada e famosa. Sete anos depois ele viu a mesma cena das serpentes copulando e desta vez matou o macho, tendo sua masculinidade restaurada, transformando-se em homem novamente. Assim, ele teve uma experiência peculiar e por causa disso, foi convocado por Zeus para dirimir uma querela entre ele e sua esposa Hera. Zeus, na sua grande malandragem, tentava justificar suas infidelidades dizendo que a mulher tinha muito mais prazer no ato sexual do que o homem, então ele precisava ter mais experiências. Hera, obviamente discordava disso – ela lá iria concordar com a promiscuidade flagrante do marido? Tirésias soube também de imediato que estava em maus lençóis, mas fazer o quê, tinha que emitir seu julgamento. Então ele se pronunciou dizendo se as partes do prazer do amor forem contadas como dez, três vezes três vão para a mulher e só uma para o homem. Hera ficou tão odiada com sua resposta que o tornou cego na hora. Zeus, compadecido, lhe deu o dom da visão interior e a capacidade de entender a linguagem dos pássaros. Ele também teve sua vida alongada em muitas gerações e mesmo depois de morrer seus dons seguiram com ele no Mundo Inferior. Ele aparece depois na estória de Édipo, como um vidente cego de grande insight e julgamento.

Krauss, Johann Ulrich, 1645-1719 - Yale Beinecke Rare Book and Manuscript Library
Tirésias, como mulher, mata a serpente macho – Johann Ulrich Krauss (1645 – 1719) Yale Beinecke Rare Book and manuscrit Library – Wikimedia Commons

Fazer escolhas é o destino de Libra, pois como dizem os ingleses, não dá para comer o bolo e ao mesmo tempo guardá-lo. Se fosse uma mulher a fazer a escolha, o imbróglio seria o mesmo, pois a escolha está lá antes da pessoa, simbolizando a eterna disputa dos deuses na psique humana. No fim, o que precisamos apreender é que a escolha de Páris reflete seus valores mais profundos e preciosos. Ele não escolhe poder, nem riqueza, nem glória. Ele escolhe sua anima, o relacionamento. E Liz diz que “a indecisão de Libra não nasce da incapacidade de fazer escolhas, mas do medo das conseqüências implicadas, porque qualquer decisão feita pelo ego implica necessariamente que outros conteúdos da psique serão reprimidos ou excluídos, o que gera uma grande ambivalência”, um atributo libriano que costuma invocar a exasperação daqueles com quem ele convive.

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Reprodução de Google Imagens

A estória de Tirésias também remete à dificuldade que Libra tem com o mundo dos instintos. A serpente é um símbolo da vida instintiva e da origem da vida, algo que encontramos em todos os signos de Água e que o Ar tem tanta dificuldade de lidar. As serpentes lembram a uroboros, que encontramos em Câncer. As serpentes também aparecem na Alquimia, macho e fêmea, formando a Unidade. Tirésias, assim, espionou um segredo da natureza e a Natureza é ciumenta de seus segredos, como também já vimos em Aquário. Ao matar a serpente fêmea, Tirésias inconsciente está fugindo de sua natureza instintiva, outra característica que todos os signos de Ar compartilham: o desgosto diante das funções orgânicas e biológicas do corpo, assim como da natureza em si mesma, com seus fluidos, odores, necessidades fisiológicas desagradáveis. Quer coisa mais deselegante do que uma diarréia? Ou mesmo um simples resfriado em que a pessoa fica espirrando, assoando o nariz a todo momento? Librianos a essa altura devem estar torcendo o nariz… Desculpem, Librianos. O que dizer então do ato sexual e a troca de fluidos, suor, ruídos, às vezes, bestiais? Para Libra o sexo é algo que precisa ocorrer sob as condições adequadas, de preferência com ar condicionado no último, sob lençóis de seda ou cetim, num cenário harmonioso e agradável. Sexo selvagem em lugares improvisados? Não, obrigado, Libra passa essa para Escorpião!

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Signo de Libra em pinel de mármore branco adornando um dos lados da Linha Solar Meridiana da Basílica de Santa Maria dos Anjos e do Martírio em Roma – Construída por Francesco Bianchini (1702) Wikimedia Commons

Tirésias é punido com a cegueira, mas essa cegueira significa que ele não pode mais ser seduzido pela beleza mundana das aparências, como Paris foi. Ele ganha o dom de olhar para dentro, para o Self e refletir. Greene opina que Páris seria Libra quando jovem e Tirésias seria Libra mais velho e mais sábio. Os dois são requeridos a resolver um dilema que os próprios deuses não conseguem e ao fazer isso, ambos são transformados, tanto o humano quanto o deus. A questão da escolha não é entre as opções que se têm diante de si; trata-se na verdade de decidir quais são nossos valores mais profundos, porque em ultima analise, é isso que motivará nossa decisão final. E quando se tem claros os valores, a decisão é conseqüência. A propósito, Vênus em Astrologia significa, entre outras coisas, nossos valores mais caros. Greene vai em frente dizendo que essas estórias talvez venham nos dizer que afinal, os deuses talvez não sejam tão justos quanto o homem. “Se Libra puder aceitar isso, então seu papel como promotor da civilização e reflexão torna-se genuíno e dignifica a nobreza do espírito humano.” (3) (Todas as citações de Liz Greene são do livro acima mencionado).

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Alegoria da Justiça – Antonio Canova – Artgate Fundazione Cariplo – Wikimedia Commons

Como já mencionamos, a Sombra de Libra é seu oposto, Áries. Libra, quando negativo, pode se achar vivendo de forma caótica, criando conflito aonde quer que vá, para se sentir necessário. “Quando ansioso e inseguro, Libra separa pessoas, ao invés de conciliá-las, mantendo-as para si mesmo para assegurar sua posição de domínio. Assim, ele se torna intolerante, parcial, criador de problemas e cisões, agindo de forma rude, deselegante, vivendo para provocar. Pode tornar-se manipulativo, preguiçoso e vaidoso, vivendo para buscar admiração e o endosso de suas ações” (5). Ou seja, pode se tornar mais tirânico e egoísta do que o pior dos Arianos, assim como Áries negativo pode ser indeciso  e capacho dos outros. Libra precisa então, aprender com Áries como ser assertivo e direto e Áries precisa aprender com Libra como acomodar o outro em suas decisões, como ter consideração pelas outras pessoas e buscar o equilíbrio entre sua vontade e a vontade dos seus iguais.

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Libra – Salvador Dali – Reprodução

 Meditação para Libra 

Observação: caso sinta qualquer mal estar, desconforto ou receio durante o exercício, interrompa-o imediatamente e abra os olhos. Esta meditação de hoje é inspirada numa meditação do Oráculo do Osho: “Sentado, tenha os pés apoiados no chão e as mãos apoiadas nas pernas. Afrouxe qualquer peça de roupa apertada e faça-se confortável. Feche os olhos e respire profundamente até sentir muita calma e pense na intenção do exercício: ver as pessoas e as situações como elas realmente são.

E veja, sinta, perceba ou imagine-se olhando para um espelho. Qual o tamanho, a forma, a cor deste espelho? O que você vê nele? Está límpido ou obscuro? Preste atenção a todas as imagens que aparecem sem se apegar a elas. Deixe-as vir e deixe-as ir. Agora, veja no espelho sua própria imagem. Perceba que sua imagem está distorcida, embaçada, pouco nítida. Esta visão turva sobre si mesmo representa sua dificuldade de saber quem realmente é, por isso está confundida numa bruma de ilusões. Respire uma vez e imagine que seu terceiro olho (entre suas sobrancelhas) se abre e imediatamente a visão que tem de si no espelho se torna clara e límpida, sendo assim ajudada por seu Ser Superior a encontrar a verdadeira pessoa que é. Focalize nesta visão nítida que agora aparece no espelho. Olhe-a nos olhos e deixe-a calar fundo na sua alma. Guarde essa imagem e lembre-se dela todas as vezes que se sentir confuso sobre suas escolhas e sobre o peso do outro na sua vida. Então, respire e abra os olhos.

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Vitrais da Catedral de Chartres – Chartres, França Wikimedia Commons

Música para Libra

 

Fontes pesquisadas

(1) Edna Andrade, Festas Cristãs

(2) Sue Tompkins – The Astrologer’s Handbook – Flare Puclications

(3) Liz Greene – A Astrologia do Destino – Weiser (Versão Inglesa)

(4) Joanna Wickenburg – Um Guia do Mapa Astral – Pensamento

(5) Frank Clifford – Getting to the Heart of Your Chart – Flare Publications

As 12 Noites Sagradas – VIRGEM

virgoHoje é o dia e a noite de Virgem, o signo da Donzela. O que houve de especial hoje? Como reflexo deste signo, que rege o cotidiano e a ordem doméstica, nada de especial aconteceu, mas tentei colocar um pouco de ordem na casa e na minha rotina. E você, conseguiu, finalmente se recuperar do frenesi das festas de fim de ano com alguns rituais diários? (Se você não sabe o que são As 12 Noites Sagradas, clique aqui)

“Sim, todo amor é sagrado, e o fruto do trabalho é mais que sagrado, meu amor”  (Beto Guedes)

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Kyriotetes – Reprodução – Desconheço o autor

Do site Festas Cristãs trago a descrição da Noite de Virgem: “Nesta Noite Santa, através do portal da Virgem recebemos os impulsos espirituais dos  os Seres da Sabedoria. As forças do Signo da Virgem configuraram o ventre, que é um aspecto físico do feminino que pode receber e gerar outro ser. A alma, a nossa vida interna também tem esta qualidade do feminino, de levar para dentro, de acolher no íntimo e de guardar a nossa essência, o nosso Eu, para gerar o Espírito individualizado em nós.”

“A Virgem é a imagem terrestre da Alma cósmica, a Sofia, e ela é considerada virgem porque corresponde a um aspecto de nossa alma que permanece intocada pelas necessidades terrestres, e pode então acolher e gerar o Espírito individualizado em nós. Isto significa um estado de entrega e doação constantes, de cortesia e polidez. “ Edna Andrade (1)

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Virgem – Salvador Dali – Reprodução

Regido por Mercúrio, Virgem, o signo da Donzela, também busca informação, mas ao contrário de Gêmeos, que quer saber de tudo um pouco, Virgem procura saber muito de poucas coisas, pois para ele a informação tem que ser ÚTIL, por isso, é o signo do ESPECIALISTA.

Virgem é direcionado para SELEÇÃO e DISCRIMINAÇÃO, para separar o joio do trigo. METÓDICO, tem grande habilidade para PRIORIZAR. ACURACIDADE e ANÁLISE também fazem parte do seu modus operandi. É o signo das coisas pequenas e dos microorganismos, por isso ele presta muita atenção aos DETALHES, sendo às vezes, até exagerado em seu ESCRÚPULO e METICULOSIDADE. É muito HABILIDOSO e técnico, por isso é associado com o arquétipo do ARTESÃO. Um de seus grandes méritos é transformar a matéria feia e tosca em algo belo e sublime. Está em busca constante da PERFEIÇÃO.

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Virgem – De um livro Medieval de Astrologia Wikimedia Commons

É direcionado para o TRABALHO, para a eficiência e para a produtividade. ORDEM e limites são essenciais, e embora seja muito preocupado com LIMPEZA, não necessariamente é organizado sempre. Precisa sentir-se útil e o ato de SERVIR faz parte de sua missão. Ele também precisa aprender a pedir ajuda e admitir que também precisa dos outros – ele odeia precisar de alguém, porque isso o faz vulnerável e signos de controle odeiam se sentir vulneráveis.

“E o que é trabalhar com amor? É tecer o tecido  com fios desfiados de vosso próprio coração, como se vosso bem-amado fosse usar esse tecido. O trabalho é o amor feito visível” Khalil Gibran

 

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Constelação de Virgem – Astrologia Medieval Reprodução

Ao contrário do que se pensa, este signo é extremamente complexo e isso se deve em parte, ao seu regente, Mercúrio, o deus da Alquimia e dos portais, entre outras coisas, assim Virgem é também o signo do ALQUIMISTA, cuja tarefa é purificar, refinar e aperfeiçoar materiais básicos. Essa regência “descreve a natureza inteligente e analítica do signo, mas, como signo de Terra, essa inteligência é usada de forma prática, trabalhando a matéria e a substância para aperfeiçoá-la e curá-la”, diz Clare Martin (2). Por isso Virgem é o signo do cotidiano e está geralmente em sintonia com os ritmos do corpo e sua adequada manutenção, tem necessidade e prazer nos rituais diários, o corpo para ele é um templo sagrado, e através de dietas, rotina e práticas de cura, ele cuida desse templo assim como a Deusa Héstia cuidava do Fogo Sagrado. Por todos esses talentos e tendência ao serviço, também tem grande dom para a cura e para a medicina, especialmente a alternativa. Com tanta habilidade em separar o que é útil do que é mero refugo, Virgem rege no corpo o intestino delgado, que tem como função discriminar o valor de tudo o que foi ingerido, decidindo se absorve ou expurga.

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Virgem – Sabliere da nave da Igreja de Notre Dame de Runan – Wikimedia Commons

A origem da palavra VIRGEM não tem associações com castidade. Significa apenas mulher solteira, às vezes mesmo com filhos. A palavra refere-se ao estado de completude e inteireza interior, de auto-suficiência, de ser dona de si mesma, esposa da vida e dona de sua própria alma. Por isso, Virgem tem um código moral próprio e não costuma seguir códigos sociais cegamente. Para Virgem, o mais importante é integridade interior. Mas vamos falar disso mais profundamente abaixo.

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Selo da Ucrânia – Wikimedia Commons

De modo geral é tímido, MODESTO, DISCRETO e RESERVADO – já perceberam como o símbolo de Virgem se parece com o de Escorpião? Eles são parecidos em algumas coisas! E se é muito crítico com os outros, ele o é ainda mais consigo mesmo. Virgem também é o signo dos ANIMAIS DOMÉSTICOS e DE ESTIMAÇÃO. Podemos começar a entender a grande complexidade deste signo, cuja descrição muitas vezes é reduzida à hipocondria, mania de limpeza e de ordem, ao desvendar seus mitos diversos.

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O Estupro de Prosérpina (Perséfone) – Gian Lorenzo Benini (1621-22) Escultura em Mármore – Galeria Borguese, Roma – Reprodução

O mito mais conhecido relacionado a Virgem é o mito do Rapto de Perséfone por Hades. Perséfone era uma deusa da Primavera: jovem, linda, cheia de vida! A Donzela Arquetípica, pronta para ser colhida e tornar-se mulher. A terra fértil, mas virgem; a vida cheia de possibilidades informes. Da Tríade do padrão de desenvolvimento feminino ela é a jovem, representada pela Lua Crescente, enquanto sua mãe, Demeter é a Lua Cheia e Hécate é a Anciã. Perséfone tinha um vínculo poderoso com a mãe Demeter, o vínculo da mãe e do bebê que encontramos em Câncer, ainda não individualizado porque permanece no abraço urubórico da mãe. Um dia, passeando com as amigas pelos jardins, colhendo flores, ela se afastou para colher narcisos, que tinham sido plantados ali por Hades para atraí-la. No momento em que ela colhe a primeira flor, o chão se abre à sua frente e dele sai uma carruagem assombrosa de cavalos negros e o próprio Senhor dos Infernos à frente. Era Hades em pessoa, que a raptou e levou para o Mundo Inferior, O Grande Lugar Abaixo, onde a estuprou e a fez sua esposa. Demeter, ao dar pela falta da filha saiu a procurá-la e não a encontrando, entrou em desespero, como ficaria qualquer mãe. Ninguém viu, ninguém sabia de nada, nem mesmo as amigas que a acompanhavam. Demeter entrou em luto profundo e praticamente enlouqueceu procurando a filha incessantemente. Ela estava tão zangada quanto triste, mais ainda porque ninguém a ajudava ou dava informação, e os deuses pareciam cegos e moucos.

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Perséfone e a Romã – Desconheço o autor Reprodução

Um dia ela encontrou um garoto, que ao vê-la em tal estado deplorável, compadeceu-se dela e perguntou se podia ajudar. Ele a reconheceu e contou que tinha visto a filha ser abduzida por Hades – em outras versões diz-se que na verdade foi Hécate quem lhe deu essa informação. Demeter recorreu a Zeus, que não quis interferir. Ora, Demeter era a deusa dos cereais e da agricultura e neste estado de desespero, as plantações já tinham parado de crescer, havendo escassez de alimentos. Ela então resolveu entrar em greve, assim nada mais nasceria, os homens morreriam e não havendo homens, quem honraria os deuses? A estratégia funcionou e Zeus então resolveu interceder, enviando Hermes para negociar a liberação de Perséfone. Zeus, claro, como bom malandro que era, sabia de tudo, e na verdade o rapto foi feito com seu consentimento. Hermes foi então ao Reino de Hades negociar. Hades concedeu que ela fosse embora, desde que ela não tivesse comido nada ali embaixo. De fato, até aquele momento ela não havia comido nada no Mundo Inferior, e estava, na verdade definhando. Mas já na saída ela resolve comer umas sementes de romã. Por causa disso ela fica obrigada a passar metade do ano sobre a terra, com sua mãe e a outra metade com Hades, no Mundo Inferior – esses períodos simbolizam Primavera e Verão, quando ela está sobre a terra, que fica fértil, e Outono e Inverno, quando ela está no Mundo Inferior, o período em que a terra descansa para a próxima temporada de plantações. Assim ela se torna a Rainha dos Infernos e passa a reinar ao lado de seu marido.

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Virgem – Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender – Wikimedia Commons

Esse mito fala daqueles momentos na vida em que compactuamos com o inconsciente para que coisas inimagináveis aconteçam. Ocorre quando já passamos da hora de mudar e não percebemos e a vida vem e nos força a mudar. Perséfone, bonita e jovem como era, pronta pra se casar, já tinha sido cortejada por Hermes, Ares, Apolo e Dionísio, mas sua mãe recusou a todos, querendo que a filhinha continuasse na barra da sua saia. Isso enfureceu a Afrodite, a deusa do Amor, que infligiu uma paixão avassaladora em Hades, que a pediu em casamento a Zeus, seu pai. Zeus, por sua vez, concedeu, sem nada dizer a Demeter. A própria Perséfone é terrivelmente ambivalente, pois primeiro vai colher as tais flores de Hades; segundo, come as sementes de romã já na saída. No fundo, ela mesma estava cansada da sua vida de solteira e de ser a filhinha da mamãe; ansiava por novos desafios. (3).

Esse Destino de Perséfone é um tema muito relevante para Virgem, diz Liz Greene, que explora também outras imagens míticas associadas com este signo (novamente, os parágrafos abaixo, que estão em itálico, são uma tradução livre e resumida desses mitos e da interpretação de Greene, como consta de seu livro A Astrologia do Destino). (4)

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Escultura de Astraea/Dike – 1886 – Assinado “A.” possivelmente trabalho de August St. Gaudens. Old Supreme Court Chamber, the Vermont State House, Montpelir, Vermont. August 2007. Reprodução

A Constelação de Virgem foi associada com a deus Astraea ou Dike, que representava o princípio da justiça. Ela era também filha de Zeus e vivia na terra entre os homens, durante a Idade de Ouro, mas com o tempo, a corrupção humana aumentou e ela desgostosa passou a detestar os homens por causa de seus crimes. Ela era a forma de vida manifesta em cada animal, planta ou homem. Ela regulava os ciclos da vida e representava alei, não a lei dos homens, mas a lei da natureza, os ritmos naturais derivados dos movimentos do sol e da Lua. Assim, ela representava a ordem intrínseca da natureza e seu desgosto diante da corrupção humana é o desgosto que virgem expressa normalmente diante da desordem e do caos. 

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Artemis de Efesos. Século I AC – Cópia romana da estátua do Templo de Éfeso – Museu de Éfeso – Turquia – Wikimedia Commons

Para Astraea, tudo tinha um tempo e um lugar e não é de admirar que com tal deidade relacionada ao signo, Virgem seja tão propenso a ritualismos. Astraeas era associada com várias outras deusas da antiguidade, inclusive com a própria Venus. É dito que ela era filha de Aurora, o milho ou trigo em suas mãos a identificam às vezes como Ceres; outros dizem que ela era Fortuna, porque sua cabeça desaparecia entre as estrelas, ela parecia também com Isis… Mas principalmente, ela se parecia com Atagartis, uma deusa Siria adorada sob o nome de Virgo Caelestis Carthage, associada com Urânia e a Lua.

Ela era, pois, fértil e ao mesmo tempo estéril, um caráter profundamente complexo, como é o signo de Virgem. Este signo parece incorporar um grande paradoxo, diz Greene, um paradoxo que mistura a idéia de uma deusa muito correta e severa, ao lado das deusas lunares prostitutas e orgiásticas dos cultos da Ásia Menor.

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A Artêmis negra de cem seios – Não consegui descobrir a localização – Reprodução

Muitas dessas deusas tinham em seus templos sacerdotisas vestais que se prostituíam no culto sagrado da deusa; em algumas regiões, as mulheres comuns, como parte do culto à deusa, precisavam ir ao templo pelo menos uma vez na vida, se prostituir, deitando-se com o primeiro estranho que aparecesse numa realidade em que os homens, na verdade, eram também devotos da deusa e se dirigiam ao templo como forma de honrá-la – as mulheres precisavam fazer isso especialmente antes de casar-se. Não importava a quantia oferecida, a mulher não podia recusar, pois seria uma ofensa à deusa. Depois do intercurso sexual ela se tornava santa aos olhos da deusa e ia embora pra casa. “Assim, as virgens eram iniciadas dentro da santidade do templo, sacrificando sua virgindade e experimentando os primeiros frutos de sua sexualidade” (5). Uma dessas deusas era Ishtar, chamada a Mãe das Prostitutas; havia também Mylitta, Hátor, Atargatis e a própria Artêmis Negra de Éfeso, a de cem seios – todas essas deusas eram prostitutas e eram chamadas deusas virgens, inclusive a própria Afrodite e outras deusas gregas, notadamente de vida sexual intensa. 

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A religiosa casa-se com Cristo e vive para Ele Reprodução

Tanto virgens quanto mulheres casadas precisavam fazer essa oferenda pelo menos uma vez e algumas mulheres que não desejavam levar vida casta nem se casar optavam por se tornar Virgens Vestais, não se casando com nenhum homem, mas tornando-se noivas do deus, que é o mesmo princípio da vida religiosa cristã, que aliás, está também relacionada a este signo: é sabido que as freiras casam-se com Jesus Cristo, enquanto os padres casam-se com a Santa Madre Igreja, que é também a Esposa do Cristo – claro, no Cristianismo há o preceito do celibato. Neste sentido, diz Greene,a prostituta é como a virgem mítica, pois ela é uma imagem arquetípica da mulher livre que é casada primeiro consigo mesma, com seu ser interior, e só depois com um homem. A palavra ‘virgem’ significa então, não castidade, mas seu oposto: a gravidez e a fertilidade da natureza, livre e incontrolável, correspondendo ao amor fora do casamento, em contraste à natureza controlada do amor dentro do casamento.

Shamhat, the first recorded Sacred Harlot
Shamhat, a primeira Prostituta Sagrada de que se tem registro – uma mulher sumeriana de alta classe – Tadarida – Reproduçao

Daí vem a origem da palavra VIRGEM, que nessas línguas antigas e arcaicas, não tinha nenhuma associação com sexualidade, mas sim com o estado civil. A mulher virgem era a mulher solteira, que não tinha marido e nem devia satisfações de seus atos a ninguém. Greene cita o estudiosos John Layard sobre a origem dessa palavra:

“Em primeiro lugar, embora nós hoje pensemos na palavra ‘virgem’ como sinônimo de ‘casto’, este não era o caso nem com a palavra grega parthenos ou com a palavra hebréia almah, da qual ‘virgem’ é a tradução bíblica mais comum. Pois os gregos a usavam para falar de garotas não casadas, fosse ela casta ou não, e Ra, de fato, aplicável a mães solteiras. A palavra hebréia, da mesma forma, significa ‘não casada’, sem referencia a castidade pré-marital” (4).

 

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A jovem Virgem Maria – Desconheço o Autor – Reprodução

A associação da palavra virgem se dá a partir do Cristianismo e da introdução da Virgem Maria como único modelo possível para a feminilidade dentro da vida cristã. Na verdade, é mais uma manifestação do patriarcado e seu controle sobre o feminino. Assim, ao longo dos séculos virgem passou a ser associada com intocabilidade sexual, com castidade e “pureza virginal”.

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Painel de mármore da Igreja de Santa Maria dos Anjos – Francesco Bianchini – Wikimedia Commons

Por aí se tira de onde vem também a complexidade de Virgem. Esse paradoxo coloca um conflito permanente e é a partir desse conflito que o padrão de desenvolvimento de Virgem aparece, diz Greene. Porque Virgem está eternamente cindido entre esferas de vida aparentemente irreconciliáveis, “seja esse conflito entre a carreira e a vida pessoal; entre o casamento e a independência (um tema comum); entre espiritualidade e o materialismo; entre moralidade e abandono, Virgem luta com estes opostos vida afora, tentando abarcar aos dois lados”. A forma com que o ego resolve esses dilemas normalmente é vivenciar um lado enquanto sacrifica o outro, mas isso traz um problema em si mesmo porque parece que ao signo não é permitida essa divisão “preto e branco” da vida. E aqui, Greene lembra Perséfone, dizendo que seu problema foi exatamente esse, ela escolher permanecer virgem ao invés de abraçar o lado prostituta/cortesã, seu lado não vivenciado representado por Afrodite, o que leva à sua abdução por Hades, ou seja, ela mesma invoca seu destino ao recusar-se a tentar conciliar esses opostos – coisa que Jung sempre nos lembra, aquilo que não reconhecemos em nós, vivenciamos como destino.

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Hetairas se banqueteam – de Mirna, Grécia, cerca de 25 AC – Museu do Louvre – Reprodução

Toda esse paradoxo cria uma tensão incrível em Virgem, que é conhecido como um signo super controlado. “A moralidade interior de Virgem, quando é genuína e não emprestada do coletivo prevalecente – como é o caso com os nativos mais tímidos do signo – não está em desacordo com o que pode ser considerado um comportamento sexual muito pouco convencional. Ainda, essa moralidade interior pode ser muito forte e não menos baseada num senso de ‘correção’ do que códigos mais convencionais de comportamento”, diz Greene. Greene vai em frente dizendo que em sua prática analítica encontrou muitas prostituas profissionais que tinham grande ênfase no signo de Virgem, e que em todas elas havia esse forte senso de integridade moral, acompanhado de uma profissão que a sociedade considera imoral ou mesmo amoral – ela questiona, quem são de fato as verdadeiras “putas”.

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Desconheço o autor – Reprodução

Relembrando o mito de Perséfone e associando-o com estas questões complexas do dizer “sim à vida”, Greene diz que isso não quer dizer que Virgem está fadado a sofrer violência sexual ou abduções de qualquer tipo. Isso ocorre apenas como resposta à escolha de permanecer “inocente” para sempre, repudiando a vida em toda a sua fertilidade, como representada pelas deusas Astraea e todas as outras. Neste caso, a vida irrompe, feito o deus dos infernos e a “força” a experimentar a vida em toda a sua magnitude de sentimentos e experiências. “Obviamente, essa questão não é exclusivamente sexual, mas envolve toda a visão de vida. A prostituição da virgem não quer dizer disponibilidade sexual a qualquer um, não mais do que ‘virgem’ significa castidade. Eu entenderia isso muito mais como uma abertura ao fluxo da vida, uma boa fé de confiar na ordem natural das coisas, uma aceitação da penetração da vida e da mudança. É, pois, o destino da donzela, da Coré ou Perséfone ser sacrificada, para que ela possa ser uma mulher plena e quem sabe, mãe. Esse é seu “destino”, embora não precise ser literal, pois Virgem pode se casar de várias formas e ter filhos diversos, pois “maternidade no sentido mais profundo é a nutrição de potenciais e o trazer à luz um padrão interior para a vida exterior, então, o tema mítico se aplica tanto a Virginianos homens quanto a mulheres.

Ida-Ehre-Schule in Hamburg-Harvestehude Keramik-Relief Jungfrau von Richard Kuöhl.
Relevo em cerâmica na Escola Ida-Ehre em Hamburgo

Virgem é ainda relacionada com a deusa Héstia, a Deusa da Lareira e do Fogo Sagrado. Era uma deusa mais voltada para as questões espirituais. Era também considerada uma deusa virgem, porque nunca foi relacionada a nenhum homem ou deus e, de fato, não há parceiros sexuais associados a ela, que dedicava-se ao templo e seus serviços.

 

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A Deusa Vesta / Héstia – A Deusa da Lareira e do Fogo Sagrado Reprodução

Virgem, como a origem do nome diz, é assim, um signo que vem desenvolver integridade interior. É um o signo que vivencia o maior sentido de inteireza e completude interior. Na minha prática astrológica (eu, Eunice), tenho encontrado muitos virginianos e virginianas divididos neste conflito: a busca de um relacionamento que parece, às vezes, fora de alcance. Normalmente há no mapa natal uma repetição do conflito, pois se de um lado há grande ênfase em Virgem e em algum outro signo independente (Áries, Aquário, etc), de outro, pode haver uma ênfase tão grande quanto em signos ou planetas relacionais, como Câncer, Libra, Escorpião. Freqüentemente a pessoa luta não só com seu dilema interior, mas com uma reclamação dos parceiros de que se sentem “obsoletos” dispensáveis. Isso porque virgem não percebe que na sua inteireza, emite mensagens contraditórias ao parceiro, verbalmente dizendo que o quer, mas, em gestos, deixando claro que privilegia sua autossuficiência mais que ao relacionamento. O que essas pessoas precisam entender é que realmente os relacionamentos “tradicionais” são modelos que não necessariamente  lhes servem e que eles precisam criar seu próprio modelo de relação, um modelo que respeite sua profunda necessidade de privacidade, de auto-suficiência, independência e de espaço e reserva. E obviamente, respeitar a si mesmo e as essas necessidades, reconhecendo-as e honrando-as, para que o parceiro possa fazer o mesmo. O ideal seria encontrar um parceiro com necessidades parecidas.

“As coisas não precisam de você, então por que eu tinha que precisar?” (Marina Lima)

Depois de tudo o que vimos sobre Virgem e sua complexidade e paradoxos, não admira que seus arquétipos e figuras sejam estes abaixo:

A Donzela, A Virgem Grávida, A Freira, O Religioso, A Prostituta, O Artesão, O analista, O Aprendiz, O Carpinteiro, O Alquimista, A Secretária, Ceres e Prosérpina / Demeter e Perséfone,  Astrae / Vesta  / Artêmis.

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A Constelação de Virgem – Guido Bonatti – Wikimedia Commons

A Sombra de Virgem está ligada ao seu oposto complementar que é Peixes e enquanto Virgem traz a ordem, separa, categoriza e cataloga, Peixes simboliza o caos, a falta de limites, a mistura de tudo. Virgem é exclusivo, Peixes é inclusivo. Os dois precisam aprender um com o outro. Virgem precisa aprender a ser mais inclusivo e ver o todo e Peixes aprende com Virgem a discriminar, a ter limites, a ter ordem.

Também faz parte da sombra de Virgem a mania de achar que sabe mais que todo mundo, assim pode tornar-se um chato. Outro elemento é que na busca constante da PERFEIÇÃO, pode perder-se nos detalhes, focando somente no que está errado ou defeituoso, esquecendo-se de olhar o todo, por isso é essencial ter perspectiva.

Virgem é um signo complexo e cheio de paradoxos e quando não consegue conciliar esses opostos dentro de si, torna-se excessivamente racional, deixa de sentir e pode cair em comportamentos ritualísticos obsessivos relacionados à limpeza e alimentação, originados também da necessidade compulsiva de CONTROLE. Outras manifestações podem ser hipocondria, criticismo excessivo e destrutivo, trabalho compulsivo (work-aholic) e o vício mais comum de todos: a preocupação.

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Virgem – Arte Medieval – Desconheço o Autor – Reprodução

Há um poema gnóstico atribuído a Sofia-Sabedoria, que Liz Greene diz refletir magistralmente o paradoxo de Virgem. É parte de os Evangelhos Gnósticos encontrado em Nag Hammadi, citado em Os Evangelhos Gnósticos de Elaine Pagels (6).

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Sofia alquímica – Google Imagens – Reprodução

Trovão, Mente Perfeita

Pois eu sou a Primeira e a última.

Sou a reverenciada e a escarnecida.

Sou a promíscua e a consagrada.

Sou a esposa e a Virgem.

Sou a mãe e a filha.

Sou os membros de minha mãe.

Sou a estéril e muitos são os seus filhos.

Sou aquela cujas bodas são grandiosas mas não tomei um marido.

Eu sou a parteira e aquela que não pari filhos

Sou o alívio de minhas dores de parto.

Eu sou a noiva e o noivo

E é meu marido quem me gerou.

Sou a mãe do meu pai

e a irmã do meu marido

e ele é a minha prole.

Sou conhecimento e ignorância.

Sou impudica e casta.

Sou força e medo.

Sou néscia e sábia.

Sou ímpia e aquela cujo Deus é grande.

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Virgem – Johfra Bosschart Reprodução

Meditação para Virgem:

Observação: A qualquer momento, se sentir qualquer desconforto ou mal estar, interrompa o exercício e abra os olhos.

Recolha-se a um lugar onde não será perturbardo por pelo menos 20 minutos. Afrouxe qualquer peça de roupa e faça-se confortável. Respire profundamente várias vezes até chegar a um estado de relaxamento completo. Então visualise que está num templo sagrado antigo, ancestral, no topo de uma colina. De lá você pode ver a planície abaixo, verdejante, com plantações exuberantes. Respire fundo e sinta-se calmo  e confiante. Entre no templo calmamente. Dirija-se ao altar. Veja as velas acesas, as flores frescas, tudo transmitindo um senso de ordem e sacralidade. Sinta um senso de reverência crescer em seu interior. Reverencie a divindade que está no altar curvando-se respeitosamente. Agora, sinta qual a posição mais adequada para você: em pé, sentado, ajoelhado… E olhe com reverência pra o altar. Quem é a deusa que olha de volta para você? Você tem algum pedido a fazer a ela? Ela tem algo a deizer a você? Escute atentamente.

Agora, caso não esteja sentado, sente-se. Estenda suas mãos para a frente e veja em cada uma das mãos um dos lados do conflito que o divide. Olhe para cada um deles e sinta o conflito. Qual mão pesa mais? Abra os braços, separando as imagens, colocando cada uma delas numa lateral do seu corpo. Agora imagine que você sai do seu lugar e assume a posição da imagem da direita. imagine-se vivendo toda a sua vida a partir dessa escolha; fique alguns momentos sentindo isso. Então saia, volte ao centro e entçao, assuma o lugar da esquerda. Sinta novamente como seria viver a viver somente a partir dessa perspectiva. Volte ao centro novamente e sinta o conflito ainda mais forte. Agora recoloque as imagens nas mãos, como se fossem duas bolas de energia. gradualmente tente aproximar as mãos. Pouco a pouco, sem forçar. Até que você consiga juntar as mãos e fundir as duas bolas, as duas imagens em uma só. Veja se consegue. Sinta o que isso significa. Como VOCÊ se sente? Olhe essa imagem longamente e deixe que ela cale fundo dentro de você. Aos pucos deixe a imagem se desfazer. Levante-se, faça sua reverência à deusa e despeça-se. Saia do templo e olhe novamente o tempo lá fora. Como você se sente? Respire fundo e gradualmente volte ao momento presente e ao ambiente da sua casa. Abra os olhos e seja fiel ao seu desejo: escreva ou pinte, desenhe, etc.

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Virgem – Vitrais da Catedra de Chartres – Chartres, França – Wikimedia Commons

Música para Virgem:

 

(1) Site Festas Cristãs: http://www.antroposofy.com.br/wordpress/as-doze-noites-santas-6a-noite-santa-constelacao-de-libra/

(2) Clare Martin – Mapping the Psyche – CPA Press

(3) Jean Shinoda Bolen – As Deusas e a Mulher – Ed. Paulus

(4) Liz Greene – A Astrologia do Destino – Weiser

(5) Nancy Qualls-Corbett – A Prostitua Sagrada – Ed. Paulus

(6) Elaine Pagels – Os Evangelhos Gnósticos – Ed. Cultrix

Outras Fontes Consultadas:

Sue Tompkins – The Astrologer’s Handbook – Flare Publications – UK

Joanne Wickenburg – Um Guia do Mapa Astral – Ed. Pensamento

As 12 Noites Sagradas – LEÃO e a Busca pelo Pai Espiritual

leo (1)Hoje é o Dia de Leão na Jornada das 12 Noites Sagradas (Se você não sabe o que são As 12 Noites Sagradas, clique aqui)

Edna Andrade fala sobre a noite dedicada a Leão: “As forças de Leão configuraram o coração humano e os dirigentes da Antiguidade e os reis da Idade Média associavam sua realeza com este signo, que era relacionado com a coragem e a prontidão de realizar no exterior o que é determinado a partir de dentro: da voz do coração.

Na oitava Noite Santa, a partir do portal do Leão, recebemos os impulsos de entusiasmo e coragem para enfrentar as provas que o destino nos traz. Nesta noite, abandone o medo dos desafios que você tem pela frente. Da região de Leão, os Tronos, Espíritos da Vontade, lhe trazem poderosas forças para vencer as provas que as suas escolhas lhe trazem.”  (1)

Como todo signo de FOGO, Leão é CONFIANTE, Carismático, DRAMÁTICO, Vivaz, Entusiasmado, INTUITIVO e cheio de fé na vida. Ele é Fogo FIXO. Masculino, Positivo, Ativo, Yang.

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De um livro medieval de Astrologia – Wikimedia Commons

LEALDADE, MAGNANIMIDADE, GENEROSIDADE e calor são algumas das principais qualidades do Leonino. Romântico e idealista chega mesmo a ser inocente. Às vezes. Outra de suas principais habilidades é perceber e valorizar o potencial que há no outro, além de INSPIRAR CONFIANÇA, sendo ele mesmo muito CONFIANTE. Quando fora de equilíbrio essa confiança pode tornar-se ARROGÂNCIA e ao invés de confiante ele torna-se INSEGURO e busca compulsivamente ser o centro das atenções – mas só quando em desequilíbrio! Às vezes ele pode mesmo ser vítima do “complexo do impostor”, tamanha a insegurança e segue temendo “ser descoberto” a qualquer momento.

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Pintura Liūtas – Leão

Regente do CORAÇÃO, de modo geral tudo a que o Leonino se aplica é de CORAÇÃO, não faz nada pela metade. HONRA, INTEGRIDADE e HONESTIDADE são também importantes aqui, porém é preciso vigiar para combater o vício do ORGULHO e da Vaidade. DRAMA é outra característica forte e é comum encontrar os leoninos balançando suas jubas no mundo da atuação, seja no teatro, no cinema ou na TV. Ele precisa do palco, dos holofotes, da atenção e dos aplausos do público. Ele é ESPECIAL e único. Precisa de brilho e glamour. Teatral, adora também o Romance.

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Reprodução

Leão é o regente da Casa Cinco da Mandala Astrológica, a casa das crianças, dos filhos, da criatividade, dos talentos artísticos, da diversão, do prazer, dos hobbies, do flerte, do namoro e do sexo sem compromisso, do relaxamento e também dos jogos e especulações. Assim, Leão está muito associado à idéia da diversão e da alegria, àquilo que a gente faz por prazer e não por obrigação. Especialmente, Leão nos fala da criança que há em nós, aquela parte de nós que nunca cresce, que é espontânea, inocente, feliz e confiante na vida.

 

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Reprodução

A principal criação de Leão é tornar-se ele mesmo. Clare Martin diz que “Leão vive uma jornada mítica, cujo objetivo é “crescer em direção à realização e expressão da autenticidade pessoal, integridade e autoridade, que não seja dependente da opinião dos outros” (2). Liz Greene afirma algo parecido: “Leão parece descrever o desenvolvimento da essência única individual e sua busca pela fonte”. (os parágrafos seguintes configuram um resumo da mitologia do signo de Leão, como aparece em seu livro A Astrologia do Destino, que coloco em itálico para enfatizar a fonte e o crédito de Liz Greene). Ela discorda da ideia generalizada de que Leão seja um signo fortemente criativo, e nos lembra que há muito mais geminianos, cancerianos e piscianos nas artes em geral. “Eu sinto que a grande criação do Leão é ser ele mesmo”, diz Greene.

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Leo by Richard Kuöhl, no prédio da Escola Bogenstraße em Hamburgo – Wikimedia Commons

Assim como Capricórnio, Áries e Sagitário, o tema principal do Leão gira em torno da figura do Pai. Em cada um desses signos encontramos uma faceta diferente do pai: em Áries ele é o Pai Terrível e usurpador do poder do filho; em Sagitário ele é o Pai celestial; em Capricórnio ele é o Pai Ogro travestido de realidade e sacrifício. E em Leão ele é o pai doente, impotente, comandando um reino devastado e à espera de que o filho venha redimi-lo.

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Hércules lutando com o Leão de Nemeia – Reprodução

A figura do Leão como rei dos animais e das selvas é um tema universal. Nas mitologias babilônica e egípcia ele já era bastante conhecido, sendo cultuado como Sekhmet, uma deusa solar. Na mitologia grega ele aparece numa das tarefas de Hércules, a que ele tem matar o Leão de Nemeia. Ele teria que matar o animal sem nenhuma arma, somente com as próprias mãos, um animal que era praticamente invulnerável. Mesmo assim, Hércules conseguiu matá-lo pegando-o pela garganta e estrangulando-o. Depois disso ele transformou sua pele e cabeça num traje que usaria para sempre, simbolizando que tinha assumido os poderes e qualidades associados ao leão. Liz Greene lembra que a batalha entre homem e animal é um motivo arquetípico universal dos mais antigos e simboliza a luta do ego em desenvolvimento com os instintos, que devem ser domados para que ele se torne de fato, um indivíduo, e não um número na massa inconsciente.

O leão aparece em várias estórias e mitos, acompanhando deuses e deusas diversos. Ele aparece também na mitologia, em diversas fases da Opus alquímica, como a Calcinatio, por exemplo, em que é necessário cortar-se as patas do leão para se domar os desejos.

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O Leão alquímico com as Patas Cortadas – Reprdoução

Existe também a figura do leão verde devorando o Sol, simbolizando a experiência da consciência que é esmagada e engolida pelos desejos violentos e frustrados. Porque o leão deseja, deseja muito! Sobre o Leão alquímico Jung diz: “na alquimia, o leão, a besta real, é um sinônimo pra Mercúrio, ou, para ser mais acurado, para um estágio de transformação. Ele é a forma de sangue quente do monstro predador e devorador que aparece primeiro como o dragão… Isso é precisamente o que leão destina-se a expressar – a emotividade apaixonada que precede o reconhecimento dos conteúdos inconscientes”.

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O Leão Verde Alquímico – Reprodução
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Moeda Comemorativa de Leão cunhada em Belarus – Reprodução

Liz Greene lembra que as criaturas de água são criaturas de sangue frio: o caranguejo, o escorpião, o peixe. Já o leão tem sangue quente e está associado a um erotismo inequívoco, a concupiscência e orgulho, assim como a impulsos agressivos, sejam eles saudáveis ou destrutivos. Porém, se não é possível domar um caranguejo ou escorpião, certamente o leão é domável e desde a antiguidade eram mantidos em palácios como companhias e bestas reais. O simbolismo disso é que o rei deveria ser capaz de lutar com suas paixões, pois “o homem que não consegue conter seus impulsos fogosos, não pode governar a outros, nem servir como exemplo para eles”. Assim, o leão representa um estágio do processo de individuação, pois há um trabalho alquímico a ser feito. O leão tem que se transformar da forma bestial original em algo mais, tem que aprender a domar seus instintos. Este processo pode ser bastante doloroso para o leão “cujo coração de criança é profundamente ferido pela reação dos companheiros a seus excessos. Ele teve ‘a melhor das intenções’, mas parece que os outros não apreciam. Mais freqüentemente eles ficam mesmo zangados”. Assim, ele está destinado a seguir numa busca pelo auto-entendimento. E esse é o tema principal da estória mais fortemente associada a leão, que é a Lenda de Parsival e o Graal.

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Parsival era um jovem meio tolo, mas muito entusiasmado. Ele não conheceu seu pai. Foi criado somente pela mãe numa floresta longe de qualquer cidade ou comunidade – esse inicio de vida sem a figura do pai é algo comum no padrão de Leão. Um dia aparecem cinco cavaleiros na floresta onde ele mora e parsival fica tão fascinado e encantado que decide se tornar cavaleiro também. Sua mãe não gostou nada da idéia, mas ele não quis saber, foi grosseiro com ela e foi embora sem nem dizer adeus. Ela morreu em seguida de tanta dor e pesar – o Leão é mesmo meio grosseiro e tolo no início da vida. No caminho apareceu um cavaleiro vermelho, com quem ele lutou sem motivo e a quem matou, usando depois sua rmadura – o vermelho, diz Liz, é uma associação imediata à passionalidade do Leão. Ele andou, andou e por fim chegou ao fim da estrada, que acabava num rio. Ele viu um pescador que o ensinou o caminho para o castelo do Graal. De repente, o castelo apareceu, do nada, materializando-se diante de seus olhos e deixando-o estupefato. O portão estava aberto, porque, misteriosamente, ele era esperado pelo Rei-Pescador doente. O rei estava doente, na coxa ou na virilha, simbolizando a impotência e incapacidade de procriar porque é sua masculinidade que está ferida. Uma visão então apareceu para Parsival, uma espada, uma lança que pingava sangue, uma donzela que trazia o Graal de ouro e incrustrado de pedras preciosas, e uma outra donzela carregando um prato de prata. Esses quatro objetos sagrados estão relacionados aos naipes do Tarô: Espadas, Paus, Copas e Ouros. Lembram ainda também a quaternidade, que simboliza a inteireza do Self.

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Parsival em busca do Graal – Reprodução

Parsival viu esses objetos passarem diante dele, numa cerimônia solene, mas não disse nada, Ele se recolheu para dormir e viu que o castelo estava deserto. Ao sair, uma outra mulher lhe disse que ele tinha acabado de falhar terrivelmente. Ele deveria ter perguntado: “A quem serve o Graal?” para que o rei fosse curado e o reino restaurado. Ele foi apresentado ao seu destino pela primeira vez, e falhou. Assim, vagou e vagou muitos anos e só encontrou o castelo novamente depois de ter conseguido a necessária maturidade e compaixão. Ele não era capaz de sentir ou de sofrer e isso fica claro pela forma como abandonou sua mãe sem pensar duas vezes e por ter matado o cavaleiro vermelho sem motivo.

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Parsival – Chrétien de Troyes – Wikimedia Commons

Jung diz que “sua real ofensa está na primitiva falta de ambiguidade do seu comportamento, que surge da inconsciência do problema interior dos opostos. Não foi o que ele fez, mas o fato de ele ser incapaz de avaliar o que fez”. Essa inocência desajeitada é parte do Leão jovem, como o fato de não ter pai. E parece que o Destino, diz Liz, apresenta a visão do Graal antes que ele esteja pronto para entendê-lo. O que quer que o Graal seja, sucesso pessoal, o destino espiritual, parece aparecer para Leão sem esforço, através da intuição, que é um dos atributos do Fogo.

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Guido Bonatti – Liber Astronomiae

Muito tempo se passa e Parsival segue seu caminho. Depois de muito andar pela vida, já mais maduro, ele novamente encontra o castelo e toda a experiência se repete. Então ele é capaz de fazer o seu papel e fazer a pergunta, que quer dizer, na verdade uma pergunta básica que se faz diante das coisas importantes; “o que significa tudo isso?” Tão logo ele pergunta, o rei é curado e ele descobre que ele é na verdade seu avô, ou, em outras versões, seu próprio pai. O reino é restaurado e Parsival se torna então o rei.

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Leão no Zodíaco Islâmico

O mito do Graal fala da busca pelo pai. A principio, na vida do Leão, parece a busca pelo pai biológico, mas depois fica evidente que é algo mais, que a busca é pelo Pai Espiritual, em ultima análise, uma busca pelo Si Mesmo, o mais profundo valor da vida. Obviamente Leão não é o único signo que busca individuação, já que parte do desenvolvimento do ser humano, mas esse mito parece mostrar um padrão misterioso da vida de Leão. Leão, como Capricórnio e Áries geralmente vivencia uma decepção com o pai, que é impotente de alguma forma. Mas ele precisa descobrir e buscar o castelo do Graal, para redimir não só ao pai pessoal, mas a si mesmo.

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Leão – Salvador Dali – Reprodução

Leão é regido pelo Sol, e não podemos deixar de falar do deus Apolo, o deus  solar por excelência. Apolo era um deus das profecias e o Oráculo de Delfos, dedicado a ele e centrado em seu templo, era procurado por todos que queriam colocar questões aos deuses. No pórtico do templo se lia “Homem, conhece-te a ti mesmo”. Apolo na verdade conseguiu seus poderes proféticos e curadores ao vencer a serpente Pyton e submetê-la à consciência solar e ao Ego. Os poderes ctônicos e primitivos da Grande Mãe utilizados pela consciência solar.

Engraving depicting the Greek god Apollo as personification of good government. In the top right corner the zodiac sign Leo. From the series The seven planets.
Gravação mostrando o Deus Apolo como personificação do bom governo – No canto superior esquerdo há o símbolo do signo de Leão, regido pelo Sol. Da série Os Sete Planetas
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O Sol – Regente de Leão – Maria Eunice Sousa

A vida é polaridade, e o oposto complementar de LEÃO é AQUÁRIO. Enquanto Leão é o Rei, Aquário é o Reino. Leão nos mostra onde somos especiais e únicos, Aquário nos diz que somos comuns e iguais a todo mundo. É necessário integrar essa polaridade e perceber que “todos somos especiais E iguais” diz Frank Clifford (4).

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Leão nos vitrais da Catedral de Chartes – França

Também fazem parte da SOMBRA de Leão a síndrome de “Eu, o Rei”, quando ele torna-se insensível e egoísta e acha que os outros são extensões dele mesmo; a síndrome do “Eu sei o que é melhor para você”, quando ele, com a melhor das intenções, se torna intrometido dizendo-lhe o que fazer com sua vida, mesmo que você não tenha perguntado, nem pedido seus conselhos; e ainda a síndrome do “Sabe-Tudo”: ele é um rei, como um rei pode não saber alguma coisa? É difícil para Leão admitir que não sabe ou não consegue fazer alguma coisa. Isso o torna pedante, um chato, às vezes.

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Leão – Painel de mármore adornando um lado da Linha Solar Meridiana da Basílica de Santa Maria dos Anjos e do martírio, em Roma – Francesco Bianchini

O que fazer com esta sombra? Primeiro, “estar consciente de si mesmo e de suas possíveis falhas; segundo, estar consciente da existência e das necessidades dos outros, dando-se conta do impacto do seu comportamento nas outras pessoas, permitindo que elas sejam independentes e dando-lhes seu devido crédito” (Liz Greene) ( E não menos importante, Leão precisa investir tempo e esforço em sua própria expressão criativa, para que não fique com inveja e tente roubar o brilho dos outros.

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Leão – Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender – wikimedia Commons

Arquétipos e Mitos

O Rei; O Pai impotente; A Jornada do Herói em Busca de Si Mesmo; Parsival e o Graal;  O Rei Artur e a Távola Redonda; O Rei Doente e a Terra Devastada; A Criança Divina; O Banqueiro; O Líder

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Leão – Johfra Bosschart – Reprodução

Meditação de Leão

Deite-se ou sente-se de forma confortável. Respire profundamente várias vezes até relaxar completamente. Visualize agora que está num jardim bonito e bem cuidado. É um dia de verão e o Sol é cálido na sua pele. No centro do jardim há uma árvore, enorme e frondosa. De um de seus galhos pendem dois balanços. Num dos balanços há uma criança, se balançando feliz. Aproxime-se. Chegue mais perto. Observe a criança. Perceba que ela é você, é você quando criança. Converse com ela. Como ela está? Qual sua aparência? Está triste? Feliz? Zangada? Carente? Qual seu sentimento? Escute-a, ouça o que ela tem a lhe dizer, com calma e atentamente. Se ela precisar de colo, dê-lhe colo. Embale-a nos seus braços. Pergunte o que ela gostaria de lhe dizer a esta altura da vida. Pergunte que sonhos ela tem. Pergunte se ela precisa de alguma coisa ou o que você pode fazer por ela. Então, quando perceber que está tudo bem e que tudo foi dito, sente-se no outro balanço e comece a se balançar, você em um e a sua criança no outro. Sinta o vento, a euforia, a alegria. Divirta-se junto com a sua criança. Ria, ria muito! Esqueça todas as suas preocupações e apenas seja, apenas divirta-se no balanço vigoroso, dando impulsos cada vez mais altos. Sinta-se inebriar com essa sensação e quando estiver pronto, volte para seu quarto e para o momento presente. Abra os olhos e pinte, dance, escreva… Faça o que tiver vontade. E nunca esqueça da sua criança!

Beham, (Hans) Sebald 1500-1550 - Sol, from The Seven Planets with the Signs of the Zodiac, 1539 Bartsch 117 - Pauli, Holl. 119, second state of five.
Hans Sebald Beham (1500-1550): o Sol, de Os Sete Planetas com os Signos do Zodíaco, 1539 (Bartsch 117; Pauli, Holl. 119). wikimedia Commons

Música para Leão:

 

 

Fontes:

(1) Edna Andrade – FEstas Cristãs

(2) Mapping the Psyche – Clare Martin

(3) A Astrologia do Destino – Liz Greene

(4) Getting to the Heart of your Chart – Frank Clifford

(5) Astrology for Lovers – Liz Greene

The Astrologer’s handbook – sue Tompkins

 

As 12 Noites Sagradas – CÂNCER: a Mãe, o Bebê e a Parteira

cancerrE então chegamos a CÂNCER, o signo da MÃE e do FILHO.

(Se você não sabe o que são As 12 Noites Sagradas, clique aqui)

“Uma estrela brilha no céu emanando o seu brilho da Constelação de Câncer o portal do qual emanam as forças espirituais dos Querubins os Seres da Harmonia.”

“Foi a ação dos Querubins no início da evolução que criou o cinturão protetor de estrelas em volta do nosso sistema separando-o da totalidade macrocósmica.”

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Reprodução

“Esta ação está expressa na própria configuração do tórax: as forças de Câncer configuram os doze pares de costela, o invólucro protetor físico do coração, o órgão da vida.”

“Os Querubins trazem o impulso para que as transições de um ciclo para outro ocorram de forma harmoniosa. Eles atuam na forma da espiral cujas forças vem do ciclo anterior, criam um invólucro e se direcionam para o próximo ciclo – em uma seqüência repetitiva, harmoniosa. Podemos observar estas espirais cósmica também em ciclos menores da natureza . São os Querubins que cuidam por exemplo que a semente do outono renasça como uma nova planta na primavera.”

“Na biografia encontramos também estas transições no nosso desenvolvimento que às vezes se apresentam de forma dramática como crises.”

“Nesta Noite Santa através do portal de Câncer recebemos os impulsos espirituais dos Querubins que nos trazem força para nos harmonizarmos com o novo e cria aconchego para que os momentos de transição ocorram de forma harmoniosa.” (1)

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Câncer – De um livro Medieval de Astrologia Wikimedia Commons

CÂNCER é o primeiro signo de ÁGUA. Água Cardinal. É um signo feminino, passivo, negativo. É regido pela Lua, o satélite que rege as mulheres e os sentimentos, justamente por isso, é o signo do SENTIR, o signo do pertencimento. A casa no mapa natal onde temos Câncer é onde ansiamos por PERTENCER, é onde precisamos de SEGURANÇA, sobretudo EMOCIONAL. Câncer é profundamente apegado à FAMÍLIA e às suas origens, seja ao lugar onde nasceu ou até mesmo à pátria, por isso mesmo o LAR é de importância primordial para o canceriano. E o que é o lar senão um outro útero, onde nos refazemos das labutas do mundo? O lar é onde buscamos proteção e refúgio e por isso tem tudo a ver com Câncer. Câncer também dá muito valor à HISTÓRIA e ao PASSADO, por isso se interessa muito por museus, arqueologia, História… E por isso ele é o signo da MEMÓRIA. Ah, e adora colecionar fotos antigas, normalmente tem montes e montes de álbuns de família (aliás, Câncer adora colecionar e tem grande dificuldade em se desapegar). Gosta de sentir que precisam dele, porque gosta muito de CUIDAR dos outros e de NUTRIR a família, os amigos, o parceiro, seja com comida ou com afeto. NUTRIÇÃO e cuidado são palavras-chave para o signo, que rege os seios e a amamentação, assim como o estômago.

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Câncer – Salvador Dali – Reprodução

A CRIATIVIDADE é uma das suas principais características, nascida da grande SENSIBILIDADE, da IMAGINAÇÃO muito fértil e dos sentimentos profundos e viscerais que o alimentam. É só dar uma olhada nas biografias e ver que muitos poetas nasceram sob o signo de Câncer. É COMPASSIVO e muito PROTETOR de tudo aquilo que lhe é caro. Às vezes também pode ser TÍMIDO, mal-humorado, DEFENSIVO e até apelar para chantagem emocional ou manipulação quando se sente ameaçado ou quando sente que está prestes a perder o objeto sagrado da sua afeição.

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Caranguejo – Reprodução

Câncer é extremamente reservado e CAUTELOSO diante de novidades, bem diferente de Gêmeos, que anseia por elas – aliás, o signo seguinte é sempre a antítese do signo anterior. Seu movimento é LATERAL, INDIRETO, TANGENCIAL, exatamente como o caranguejo, que dá nome ao signo. Aliás, podemos aprender muito da natureza de Câncer estudando e observando o caranguejo. Você alguma vez já observou um caranguejo na praia? Se tiver oportunidade não deixe de olhar. Esse crustáceo, que é o “animal” símbolo de Câncer e que inspirou o símbolo gráfico do signo, é capaz de ficar um longo tempo parado, olhando em volta, sem se mover, só observando. Quando tudo se aquieta ou quando ele acha que ninguém está olhando, ele sai em disparada, numa carreira decidida em direção ao seu objeto de desejo – tomara que não seja seu dedão do pé! – que ninguém nem sabia qual era. Quando ele agarra, não solta jamais. Suas patas são, na verdade, como pinças, que ele usa para agarrar as presas e simbolizam sua grande tenacidade. O bicho vive tanto na superfície quanto embaixo da terra, onde faz buracos que são suas tocas. Ele pode ficar muito tempo sobre a terra, mas quando se sente ameaçado dispara para sua toca e fica lá isolado por um longo tempo, até se sentir seguro para subir à superfície de novo. Ele não sabe nadar, apenas anda no fundo de rios ou mares e precisa de água, de lugares úmidos para viver. Sua carapaça é super dura e resistente, para proteger uma carne macia e delicada. Assim como as serpentes, ele “troca de roupa” várias vezes ao longo da vida, pois conforme vai crescendo, a carapaça fica pequena e se quebra naturalmente, surgindo outra por baixo. Ele tem ainda umas anteninhas que usa para captar cheiros e sabores, tanto no ar quanto na água, uma ferramenta que pode ser muito útil à sobrevivência, já que o avisa de possíveis predadores ou presas. Várias partes do corpo são cobertas por cerdas que são sensíveis ao tato.

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Câncer – Astrologia Medieval Reprodução

Praticamente tudo o que se refere ao caranguejo se aplica ao signo de Câncer: ele vai atrás do que quer de forma indireta, e raramente deixa os outros saberem no que está realmente interessado, até mesmo para evitar competição e rivalidade. Então, quando menos se espera, ele faz um movimento lateral, mas decidido, agarra a presa e não solta – a TENACIDADE desse signo é famosa! Por causa disso Marte está em detrimento aqui, porque Marte gosta e precisa que as coisas sejam diretas e objetivas e com Câncer nada é direto. Da mesma forma que o crustáceo, quando se sente ameaçado, Câncer se tranca no seu refúgio – o lar, doce lar – bate a porta do quarto e não abre para ninguém, seja porque está irritado e magoado ou porque está receoso de algo. Suas MUDANÇAS DE HUMOR também são folclóricas – lembre-se, é regido pela Lua, que a cada dia está diferente! Normalmente apresenta uma couraça dura, uma aparência talvez até meio fria a princípio. Mas não se engane, essa casca grossa é na verdade para proteger a enorme VULNERABILIDADE EMOCIONAL e a profunda SENSIBILIDADE. Da mesma forma que o crustáceo, Câncer tem “antenas psíquicas” que captam variações no ambiente e que o fazem adequar suas respostas e reações ou simplesmente se proteger em caso de perigos – os signos de água geralmente têm essas antenas psíquicas. Como a água, ele também assume as formas das coisas que toca, apesar de ser Cardinal, tem uma capacidade grande de se adaptar, moldando-se com facilidade às necessidades daqueles que ama, sem perceber que, às vezes, se anula completamente, tentando ser o que o outro quer que ele seja. Os signos de água são muito difíceis de definir, de compreender completamente, sempre haverá uma parte INACESSÍVEL, mesmo ao mais íntimo dos amigos. É muito afeito a abraços e demonstrações abertas de AFETO e SENTIMENTOS, sejam eles alegres ou densos.

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Câncer – Vitrais da Catedral de Chartres – França Reprodução

Uma das grandes dificuldades de Câncer é o APEGO e a DEPENDÊNCIA EMOCIONAL que ele tem que combater vida afora e que o faz, eventualmente, apelar até mesmo para a chantagem emocional. Seus sentimentos abissais também podem ser esmagadores, o que o fazem entrar no MELODRAMA e ter dificuldade de se desapegar de coisas ou de pessoas – assim como o caranguejo, suas “pinças” psíquicas são super potentes, o que lhe dá uma grande tenacidade, para o bem ou para o mal.

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Cãncer – Guido Bonatti – Liber Astronomiae Reprodução

Super APEGADO à MÃE, ele precisa, em algum momento ao longo da vida, cortar o cordão umbilical para conseguir se desenvolver como individuo adulto, maduro e separado e conseguir ter autonomia e auto-suficiência, a exemplo de Capricórnio, seu oposto complementar. Sobre esse laço poderoso com a mãe é o que tratam os mitos de Câncer, que exploramos abaixo.

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Escaravelho – Reprodução

Câncer é visto como o grande cozinheiro do Zodíaco, mas será que é só isso? E quais são seus mitos? Novamente recorro a Liz Greene em A Astrologia do Destino (2) para falar destes mitos. Para ressaltar a fonte e os créditos deste texto, que é uma tradução livre e resumida do original, os parágrafos seguintes estão em itálico. Ela começa sua exploração da simbologia do signo por falar de uma das imagens mais arcaicas associadas com Câncer, que é a do escaravelho, um besouro que é símbolo de imortalidade – os egípcios o viam como um besouro empurrando uma bola de esterco e para eles o escaravelho era uma imagem da auto-criação, acreditava-se que ele surgia daquela bola de esterco – que é na verdade o meio adequado para que as larvas se desenvolvam. Os Caldeus diziam que através de Câncer os homens desciam das esferas celestiais para a encarnação, então chamavam ao signo de “O Portão dos Homens”. Alguns textos gregos antigos diziam que era Câncer e não Áries quem abria o Zodíaco, que era o signo primeiro da roda. “Isso está de acordo com a idéia que representa a primeira aparição da vida, a entrada do espírito num corpo físico. A cúspide da quarta casa, a casa natural de Câncer, tem sido associada com o fim da vida; aqui é vista também como o começo, pois este é o ponto do Sol à meia-noite, quando o velho dia morre e um novo dia nasce”, diz Liz Greene, sendo assim, é a própria semente e fonte da vida – o que liga o signo não só à Mãe, mas também ao Pai porque aqui não falamos apenas da saída do útero, mas da própria semente espiritual que fecunda o óvulo e que inicia a vida.

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A Grande Mãe – Escultura neolítica de Cuccurru – Museu nacional de Arqueologia – Cagliari – Itália – Reprodução

O caranguejo aparece num dos trabalhos de Hércules, aquele em que ele mata a Hidra de Lerna. Antes que ele conseguisse vencer a batalha, ele quase a perdeu porque Hera, a mulher de Zeus e sua antagonista – Ela odiava todos os filhos bastardos do marido – enviou um caranguejo, que  “mordeu” seus tornozelos e pés, quase fazendo-o perder a batalha. Mas Hércules conseguiu finalmente pisar nele e esmagá-lo. Para honrar a criatura, Hera o colocou nos céus como a constelação de Câncer. A ira de Hera, diz Liz Greene, não é só a ira da esposa traída que odeia a prole ilegítima do marido. É principalmente a ira do matriarcado contra o herói que ameaça suas regras. Este é um dos temas principais de Câncer, a batalha contra a mãe e A Mãe, a luta pra sair de seu abraço sufocante e debilitante, que tenta evitar que o filho cresça e se torne independente dela. Permanecer nos braços e no colo da mamãe é profundamente tentador, mas em ultima instância pode significar a morte psíquica porque o individuo nunca será inteiro, maduro e separado enquanto não se libertar desse poderio. A Grande Mãe arquetípica, por vezes, prefere destruir seu filho a permitir que ele escape de seu domínio. O caranguejo e a Hidra são aliados e o caranguejo usa das táticas indiretas, vindo por trás, ao invés de confrontar a Hercules abertamente – esse é um aspecto sombrio de Câncer, diz Greene, onde o parceiro abertamente oferece amor e suporte, enquanto secretamente tenta minar a autoconfiança do outro nos seus momentos de luta, exatamente para que ele não se torne independente. Então há duas dimensões de Câncer: a Mãe Terrível, que quer controlar a consciência do filho a todo custo, e o Pai Divino, que é a fonte da vida e a quem o herói deve aspirar para se livrar do domínio primitivo da mãe.

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Desconheço o Autor – Reprodução

Outra imagem citada por Greene é a Uroboros, a Grande Serprente Cósmica que come a própria cauda devorando a si mesma para depois dar à luz a si própria novamente. A Uroboros é um dos símbolos mais antigos da origem do homem e do universo, o elemento criativo primal, o oceano do inconsciente coletivo, como disse Jung. Câncer, pois, representa esse útero materno, que traz a união do masculino e feminino, a fonte eterna de vida e da criação. Greene diz que o clássico “Complexo de mãe” associado a Câncer, não se refere necessariamente à mãe biológica, embora ela possa ser um gancho adequado da projeção da Mãe Arquetípica. Esse complexo faz a pessoa buscar, vida afora, a imagem da mãe em parceiros afetivos, buscando alguém que “cuide” dela como a mãe, ou ao contrário, procurando alguém para cuidar,  pra ser seu “bebê”. Obviamente isso não é um complexo consciente, senão não seria um complexo.

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A Uroboros – A Serpente Cósmica Geradora da Vida Reprodução

Tiamat, a serpente-monstro da mitologia Babilônica também é parte da mitologia de Câncer. Ela teve muitos filhos e começou a devorá-los, mas seu filho Marduk, um deus de fogo e herói solar, a matou antes, repetindo o tema do filho que precisa “matar”  (psiquicamente) a mãe para poder se individualizar.

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Monstro de Sete Cabeças – tido como sendo Tiamat e Marduk Reprodução

Uma outra imagem associada a Câncer é a da Parteira, aquela que ajuda a trazer vida nova ao mundo, que funciona como portal, que media a chegada da nova vida. Assim, artistas de áreas diversas funcionam também como “parteiras” ao trazerem à vida as imagens informes dos reinos oceânicos, que anseiam para serem manifestas, seja na forma de uma criança, seja na forma de uma composição ou obra de arte.

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Kate Lacour – Reprodução katelacourart.tumblr.com

Há muitos outros mitos e imagens que falam deste signo e de sua qualidade primal, além de sua infinita criatividade, que muitas vezes se manifesta de forma mais óbvia apenas no desejo da maternidade ou paternidade. Porém nosso objetivo não é esgotar essas imagens e mitos, apenas trazer presente os temas básicos do signo. Greene diz que “a imagem da Grande Mãe ou Grande Deusa permanece como uma força das mais poderosas vida afora na trajetória do Canceriano. E esse laço super-poderoso pode paralisar tanto homens quanto mulheres e os amarra de tal maneira que o potencial individual é afogado. O lado luminoso é o potencial de mediar, como a parteira, as imagens do inconsciente. A questão da separação é um rito de passagem dos mais importantes para Câncer e tem que ser feito, sob pena de o filho permanecer para sempre um infante preso ao poder da Mãe. Como o caranguejo, que tem que ficar perto tanto da água quanto da terra, Câncer é levado a ancorar-se no mundo concreto com um pé eternamente na água, assim, ele pode finalmente se tornar o útero através do qual as crianças do mar podem nascer.”

Os Arquétipos e figuras de Câncer são:

A Mãe e o filho, O Bebê, A Parteira, O Cozinheiro, O Poeta, O Nutricionista, O Lunático, A Grande Mãe

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Damon Hellandbrand – Cancer – Reprodução

A Sombra de Câncer está ligada, primeiramente, ao signo oposto, Capricórnio. Câncer precisa aprender com a Cabra, como ser independente e autossuficiente, como desenvolver maturidade emocional e como se responsabilizar por si mesmo sem esperar que os outros tomem conta dele. Quando muito negativo Câncer pode se endurecer mais do que Capricórnio e negar os próprios sentimentos, para se defender deles. Outra parte da Sombra deste signo, você adivinhou, tem a ver com os jogos de manipulação a que ele recorre para evitar separações, para manter o objeto de sua dependência por perto. Liz Greene (4) lembra que ele às vezes expressa verbalmente parte dessa sombra, sem se dar conta, ao dizer que “é melhor que algumas coisas não sejam ditas”. Mas, diz ela, não é que ele seja cego, porque ele é muito bom em ler as subcorrentes.

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Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender – Cancer – Reprodução

De acordo com Greene, outra faceta surge no criticismo destrutivo, aquele que vem disfarçado de elogio e que se for confrontado, será negado veementemente: “Imagina, jamais quis dizer isso!” Sim, ele não quis dizer, mas disse! Inconscientemente ele realmente acha tudo o que verbalizou. O lado luminoso é compassivo, sensível, gentil, cuidadoso… Mas por dentro ferve muito ressentimento por tudo o que ele vem fazendo por você e por todos os outros, todos os sacrifícios e tudo o que ele fez e deu a você, sem nenhum reconhecimento e=ou retorno! Com o tempo esse ressentimento vira aquele criticismo destrutivo, a ofensa disfarçada de cuidado. Sim, como diz Greene, esta Sombra pode ser fria, gélida, cruel, dura e implacável, mais do que qualquer Capricorniano poderia sonhar. E o que ele pode fazer para trabalhar isso é não se sacrificar tanto, não fazer tanto, especialmente quando ninguém pediu nada! Na sua ânsia de ser necessário ele faz demais, assim outros ficam lhe devendo afeto, companhia, o que seja…

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Jacob Jordans – Cancer – Reprodução

Por último, Greene adiciona a mania de repetir informações sem checar as fontes ou a veracidade dos fatos, e quando manifestando essa faceta negativa, torna-se um fofoqueiro mais maldoso do que o Geminiano, porque por trás do “dizem que”, “ouvi dizer”, “falam por aí”, há muito veneno destilado e novamente o preconceito, que ele compartilha com Touro, e que, por sua vez, nasce do medo do novo, do desconhecido e do que é de fora, estrangeiro… Isso tudo é uma estratégia de defesa e auto-proteção. Como toda sombra, ele não está ciente dela e ela vaza em momentos de distração. A melhor forma de lidar com a sombra é confrontá-la, se possível, gentilmente porque a pessoa objeto de tais indiretas e manipulações aos poucos vai também ficando ressentida e envenenada e se isso não for ventilado e trabalhado honestamente dentro da relação, este relacionamento está fadado a morrer. Mas às vezes, diz Liz, o melhor mesmo é ignorar. Cada situação é única e as pessoas vivendo o enredo é que sabem qual a melhor atitude a tomar.

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Câncer – Johfra Bosschart Reprodução

Meditação para Câncer

Essa meditação é tirada de um livro de Elisabeth Broke. Faça-a num lugar onde não vá ser perturbado por pelo menos 20 minutos. Deite-se no chão de forma confortável e solte qualquer peça de roupa que esteja apertada. Respire profundamente várias vezes e se auto-induza a um relaxamento. Relaxe corpo e mente. Volte sua atenção para dentro de você mesmo. Afunde dentro de você mesmo…  Mais fundo, mais fundo… Veja-se como você era dez anos atrás… Visualize as roupas, o corte de cabelo, o que estava fazendo então naquele momento da vida… Tenha uma imagem bem vívida de você mesmo nessa época. Então, volte mais dez anos e repita o processo… Tome tempo para realmente SENTIR essa idade… Vá voltando de dez em dez anos, repetindo o processo, até chegar ao ponto em que era um bebê nos braços da sua mãe. Olhe nos olhos dela, sinta o amor profundo da sua mãe por você. Deixe seu olhar doce banhá-lo inteiro e inebrie-se com esse sentimento… Sinta se há algo que você gostaria de dizer a ela, e diga, de forma extremamente respeitosa e reverente. Agora volte mais um pouco, até o útero, quando você era um com sua mãe. Sinta-se nadando nas águas do útero, no líquido amniótico. Escute, há um tambor batendo, bum-bum! Bum-bum! Bum-bum! Que ruído é esse? Escute atentamente, é o coração da sua mãe, batendo em uníssono com o seu! Sinta o que ela está sentindo. Ela está feliz, preocupada, nervosa? Por que? Consegue compreender agora por que ela agiu como agiu tantas vezes? Sinta-se novamente envolto pelas águas e apenas aproveite esse idílio e essa união perfeita, esse momento de paraíso! Agradeça à sua mãe (e junto, a seu pai) pela vida que ela lhe deu, agradeça profundamente. Gradativamente vá voltando ao presente. Se achar dificuldade pra voltar, faça o caminho inverso: visualize-se quando bebê, depois aos 10 anos, depois aos 20, etc. Até chegar à sua vida atual, ao seu quarto. Respire fundo e sinta seu corpo. Abra os olhos e escreva suas impressões. (3) Se quiser pode escrever uma poesia, desenhar, pintar, compor uma canção…

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www.envuelorasante.com – Reprodução

Música para CÂNCER

Amanhã é dia de LEÃO!

Fontes:

(1) Edna Andrade, em Festas Cristãs

(2) Liz Greene – A Astrologia do Destino

(3) Liz Greene – Astrology for Lovers

(4) Meditação retirada de A Woman’s Book of Shadows – Elisabeth Broke

(5) Sue Tompkins – The Astrologer’s handbook