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Mercúrio Retrógrado em Virgem Tempo de Serendipidade!

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Mercúrio ficará 69 dias em Virgem, de 30 de julho a 7 de outubro, o que traz uma ênfase soberba a Mercúrio e a Virgem, visto que este signo é regido por ele. Mas a ênfase se dá também devido ao ciclo de retrogradação de Mercúrio, um dos mais longos dos últimos tempos. Mercúrio estaciona no dia 29 de agosto às 10h04min e ficará retrógrado de 30 de agosto a 22 de setembro, retrogradação que se dará entre os graus 29°01’ e 14°51’ de Virgem – já estamos na zona sombria desde o dia 10 de agosto! É, pois, chegada aquela época trimestral do ano em que olhamos para os últimos capítulos da novela que é nossa vida e checamos se está tudo em ordem, se precisamos retificar alguma coisa ou reformular outras tantas. Recapitular e, se necessário, reescrever algumas partes! E não, não precisa ser um período de dramas, perdas e caos absoluto! Pelo contrário, essa retrogradação ocorre com Mercúrio enquadrado por Júpiter e Vênus, uma condição a meu ver, bastante venturosa e auspiciosa, que nos convida a nos abrir às situações fortuitas, ao invés de temê-las. Entenda melhor a mitologia de Mercúrio e seu simbolismo na Astrologia.

Virgem é o segundo signo regido por Mercúrio. É a Terra Mutável, mais uma areia do que terra. Em Virgem a inteligência mercurial encontra um foco e um uso específico e eficiente, diferentes da expressão de Mercúrio quando em Gêmeos, o outro signo de sua regência. Em Virgem menos é mais. Minimalista, enxuto e sintético, no signo da Donzela Mercúrio estuda muito a ponto de se tornar especialista nos assuntos que lhe interessam. E em Virgem todas as ideias brilhantes nascidas em Gêmeos podem se manifestar no plano concreto, é a encarnação material da ideia abstrata, por isso ambos os signos estão em quadratura natural, porque para que a ideia saia do abstrato e vá para o concreto é necessário passar por ajustes para se adequar às limitações dos materiais, do tempo, da utilidade, da funcionalidade, da técnica.

Fernando Bergamaschi - Reprodução
Fernando Bergamaschi – Reprodução

Virgem também é o signo do trabalho, o ofício que nos permite sobreviver e nos tornar pessoas melhores na execução de uma tarefa fora de nós, que muitas vezes é uma metáfora para o trabalho interior – por isso o trabalho que desenvolvemos diz tanto sobre nós e o que somos, assim como a forma como trabalhamos também revela muito de nosso caráter, porque no fim, se fazemos o que fazemos com amor, se o ofício é executado com alma, isso também dá sentido aos nossos dias. Virgem é o ofício para o qual precisamos estudar e desenvolver uma técnica, um método, um sistema de execução e desenvolvimento; um ofício que é realizado com a eficiência e a eficácia que levam à perfeição.

River Bank of Truth
River Bank of Truth

Quando um planeta fica retrógrado, simboliza um momento em que precisamos rever nossas posições e posturas nos assuntos governados por aquele planeta, assim como a forma como nos colocamos de acordo com o signo, na área de vida representada pela casa em que tal retrogradação se dá no mapa natal. Considerando, pois, todas essas atribuições e simbolismos de Virgem, mais as atribuições de Mercúrio, vemos claramente que temos pela frente um período de revisão e reavaliação das formas como trabalhamos; de fazer uma parada estratégica para reavaliar os métodos e sistemas com que abordamos aquela área de vida em que temos o signo de Virgem. Revisar nosso ofício e nossa técnica para redefini-los e torná-los mais adequados ao nosso momento atual – vai ver nós estruturamos nossas práticas lá atrás, quando ainda estávamos começando… mas tanto tempo se passou… não é hora de rever tudo isso? Reorganizar nossos métodos e nosso pensamento; reordenar nosso cotidiano e nossos planejamentos dentro dele; reconsiderar nossos métodos de comunicação, seja falada, escrita ou mesmo não verbal; repensar nossa relação com as redes sociais e o uso que fazemos delas; reexaminar a forma como processamos e julgamos as informações e, principalmente, nosso senso crítico, análise e visão de mundo, especialmente no que tange às relações de trabalho, com o trabalho em si e com as pessoas que ele nos propicia encontrar.

Virgem também fala do cotidiano e dos rituais diários, incluindo-se aí nossa relação com o corpo e seus ritmos orgânicos. Assim, a retrogradação de Mercúrio é um chamado também a revermos essas questões: revermos nossos rituais e, se for o caso, reorganizarmos algumas coisas; reexaminar a relação com nosso corpo e seus ritmos, corrigindo o que for necessário para que tenhamos mais qualidade de vida, uma vida purificada dos excessos mentais ou dos detalhes dispensáveis; purificada, sobretudo, dos ritualismos vazios, mecânicos e sem valor nos quais talvez tenhamos resvalado sem perceber.

Classicamente os textos astrológicos atribuem atrasos e problemas às retrogradações de Mercúrio. Mas não precisa ser assim. A retrogradação é um momento em que, do nosso ponto de vista na Terra, parece que o planeta para e volta atrás – minha colega Vanessa Couto chama de Moon Walk, aquela dança popularizada pelo Michael Jackson. Assim como na dança Moonwalk, a retrogradação envolve uma certa ilusão, porque o que vemos não é o que acontece realmente. O que parece, não é. Ainda assim, do mesmo modo, nós precisamos parar e voltar sobre nossos passos na última parte do trajeto que viemos percorrendo – e é claro que nós também não vamos sair pelas ruas, literalmente, andando de ré percorrendo os caminhos todos que trilhamos nos últimos meses! E – aí sim! – se nos recusamos a seguir nossa bússola interna e fazer essa parada e esse retorno, se insistimos em manter o mesmo ritmo enlouquecedor de sempre, podemos sim, ter situações de atraso, questões delongadas, atrapalhadas, que nos tiram do eixo e nos obrigam a parar de qualquer jeito.  Já que não paramos por bem, agora paramos por mal. Portanto, o período requer que o naveguemos com paciência e tranquilidade; que sejamos flexíveis e estejamos dispostos a encarar os imprevistos com espírito de curiosidade. Mercúrio é uma criança marota e mesmo em Virgem, pode brincar um pouco, portanto, precisamos olhar para alguns reveses, atrasos, contratempos, adversidades e imprevistos com bom humor e espírito de aventura, como quando nos achamos perdido num lugar e ao invés de nos irritar, resolvemos explorar a região.

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A língua inglesa tem uma palavra que eu adoro e que tem muito da qualidade de Mercúrio retrógrado e desse espírito de situações fortuitas: SERENDIPITY. É uma palavra difícil de traduzir e até onde eu sei não há um termo exato para ela no português – já vi o anglicismo serendipidade ou serendipismo, mas não sei se são considerados formais. Significa descobertas afortunadas feitas completamente ao acaso, ou o ato ou faculdade de descobrir coisas agradáveis ao acaso, acontecimentos venturosos e totalmente inesperados. Encontrar algo bom sem estar procurando por isso – como quando a gente se perde em algum lugar e descobre algo incrível exatamente ali naqueles arredores, onde jamais teríamos ido se não tivéssemos nos perdido tolamente. Eu gosto muito dessa palavra e acho que ela tem um quê de magia. Alguns dizem que serendipidade é Deus agindo anonimamente e eu acho que está correto, nem que seja o Deus Mercúrio aprontando das suas! – aliás, muitas descobertas científicas são atribuídas à serendipidade e há uma série da BBC que trata exatamente disso: The Serendipity of Science! Para você ter ideia, veja este texto e este, que falam de descobertas que ocorreram totalmente por acaso – Pasme! Até aquela famosa pílula azul foi descoberta assim!

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touch of Lavender – Reprodução

A meu ver, quando Mercúrio está retrógrado, precisamos nos sintonizar com essa faculdade de descobrir coisas boas que não estavam nos nossos planos bem desenhados e creio que isso tem muito a ver com nossa vibração e a maneira com que reagimos à descoberta de que algo saiu do plano original e vamos ter que improvisar. Traquinas do jeito que Mercúrio é, acho que ele tende a ser mais gentil e favorável se nos dispusermos a entrar na brincadeira com ele, estando abertos e dispostos a ser surpreendidos – isso se aplica particularmente a esse ciclo de retrogradação atual, que começa em conjunção a Júpiter e a Vênus e termina em trígono exato a Plutão – oportunidades poderosas de encontrar a sorte ao dobrar da esquina! Claro, isso pode ser um pouco complicado para Virgem, um signo que gosta muito de controle, de planos e esquemas milimetricamente formulados… Mas este é exatamente o grande desafio dessa retrogradação: abrir mão, temporariamente, dos planos milimetricamente elaborados. Mesmo que tudo pareça voar em tornar de nós, num caos impensável, perceber que, quando tudo voltar ao seu lugar, talvez tenhamos um senso de ordem mais criativo, menos rígido, menos rigoroso e insosso e mais cheio de vida e alma! Isso vale particularmente para pessoas fortemente Virginianas, mesmo que o Sol não esteja neste signo! Permitir-se ficar sem planos provisoriamente e, no meio tempo, repensar os métodos e planos usuais de se fazer as coisas.

Eliana Esquivel - Reprodução
Eliana Esquivel – Reprodução

Como Virgem é também um signo extremamente crítico, criterioso e detalhista, Mercúrio ficando retrógrado aqui sugere um período em que ficamos, talvez, ainda mais meticulosos, o que pode ser extremamente proveitoso e rico para certos tipos de atividades. Donna Cunningham, astróloga americana, sugere que façamos exatamente isso, que usemos este período para nos engajar em projetos que exijam o apuro da nossa crítica e o rigor da nossa análise. Por exemplo, supondo que você seja escritor, acadêmico, jornalista, pesquisador, etc… este seria um ótimo momento para revisar todos os manuscritos, os apontamentos, as informações coletadas, os dados levantados, etc. Qualquer que seja a nossa ocupação, podemos, sim, encontrar algo em que podemos aplicar essa energia de revisão e reavaliação – pode ser exatamente aquilo que está naquela gaveta há meses! Ou a bagunça aparente daquela caixa!

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Por fim, normalmente se aconselha também que não se assine contratos e se tenha cuidado na lida com papéis em geral. Sim, de fato, nossa mente não está funcionando no modo normal, então, no mínimo, precisamos levar em conta que detalhes importantes talvez sejam ignorados – lembra que na retrogradação existe uma ilusão e o que parece, não necessariamente, é? – e é por isso que é melhor checar tudo duplamente e adiar, quando possível, aquelas assinaturas de documentos delicados… Mas, já que a retrogradação traz para a pauta do dia o prefixo RE, podemos também incluir uma cláusula nos contratos e documentos – naqueles em que temos poder para tal, pelo menos – de que aquele contrato sofrerá uma REvisão dali a “x” meses. Claro, precisamos lembrar que Mercúrio é um deus ambíguo, então, a revisão pode favorecer tanto a nós quanto à outra parte – mas isso não é necessariamente um problema, certo? visto que talvez a coisa fique até mais justa! O que eu quero dizer é que Hermes-Mercúrio é um deus escorregadio que não oferece certezas, mas ainda assim, promete grandes aventuras, se apenas estivermos abertos!

Então, abra-se a uma nova temporada de serendipidade e antes de reclamar de um atraso ou imprevisto, lembre-se de que pode ser a vida – e Mercúrio – chamando-o a rever seus conceitos, métodos, fórmulas e certezas! E claro, ache um projeto ou ideia que esteja precisando ser revisado e revisitado e… mãos à obra!

Nota: em termos práticos, não acho que Mercúrio seja responsável por todo o drama e caos atribuído à sua retrogradação, até porque, atrasos e desastres também acontecem quando Mercúrio NÃO está retrógrado, assim como computadores estragam e redes de informações entram em pane – não, nem tudo é “culpa” de Mercúrio retrógrado! Geralmente há outras coisas ocorrendo envolvendo outros planetas como Netuno e Urano, por exemplo. Para quem quer se prevenir, vale a pena fazer back-up nos computadores e aparelhos de tecnologia; revisar planos, projetos, apresentações; checar bagagens e documentos de viagem duplamente e, claro, se é realmente importante, saia de casa mais cedo!

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Marte Retrógrado – Quando o Pai é o Inimigo

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Qual o significado dos planetas retrógrados em trânsito e no mapa natal? A Astrologia tradicional e contemporânea costuma atribuir debilidade, fragilidade e às vezes, dificuldades nefastas aos planetas retrógrados. Mas, para além dessas definições reducionistas, qual o significado mais profundo de um planeta retrógrado? Que dinâmica psicológica é simbolizada por este posicionamento? Sabemos que o movimento de retrogradação já implica numa mudança da direção, numa alteração na forma como este planeta se expressa e certamente representa desafios à sua integração. Mas isso tem que ser, necessariamente, ruim? Neste artigo vamos falar sobre a retrogradação de Marte no mapa natal. Antes, vamos entender os princípios da retrogradação:

Princípios Básicos

Antes de falarmos do ciclo de Marte, alguns princípios básicos precisam ser levados em conta quando se fala de planetas retrógrados:

a)      Sol e Lua nunca ficam retrógrados;

b)      o movimento de retrogradação é uma ilusão de ótica que nos faz perceber o planeta deslocando-se para trás e isso acontece devido ao relacionamento do planeta em questão com o Sol, e devido às diferentes velocidades de rotação da Terra e dos demais planetas, assim, para os planetas interiores, Mercúrio e Vênus, a retrogradação ocorre em períodos próximos à conjunção inferior com o Sol, enquanto que no caso dos planetas exteriores (posicionados depois da Terra no sistema solar), a partir de Marte, o ciclo retrógrado está diretamente relacionado à oposição com o Sol;

c)       os planetas exteriores Urano, Netuno e Plutão, devido à lentidão de seu movimento e à distância do Sol, passam boa parte do tempo em movimento retrógrado e seu impacto no mapa natal é menos perceptível, principalmente por serem eles planetas coletivos, a não ser que estejam próximos do ponto estacionário, quando adquirem ênfase especial, pois além de ter sua ação e significado realçados, provavelmente mudarão de direção nas progressões secundárias. Com Júpiter e Saturno não é muito diferente – aliás, de Júpiter em diante a retrogradação tem impacto mais definido em Astrologia Mundial e em Astrologia Horária e Eletiva;

d)      assim, os planetas cujos ciclos de retrogradação são mais perceptíveis em Astrologia Natal são Marte, Vênus e Mercúrio e considerando que Mercúrio fica 20% do tempo retrógrado (três vezes ao ano, em períodos de aproximadamente três semanas), isso não chega a ser tão traumático, com exceção de situações específicas em áreas regidas pelo planeta – o impacto também é menor porque certamente Mercúrio mudará de direção nas Progressões Secundárias. De forma que em Astrologia Natal os planetas cuja ação é alterada de forma significativa quando retrógrados são Vênus e Marte, dois planetas relacionados ao simbolismo do masculino e feminino. Vênus fica retrógrado cerca de 40 a 45 dias a cada 18 meses e Marte parece mover-se para trás de 60 a 80 dias, a cada 2,13 anos (3). Leia sobre Vênus Retrógrada.

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Maria Eunice Sousa

Retrogradação, um malefício?

A literatura sobre planetas retrógrados no mapa natal ou em tempo real varia de forma extrema, desde um autor dizendo que “Eu pessoalmente não acho o movimento retrógrado muito importante na maioria dos casos” (1), ao ensinamento tradicional em que “atribuíam-se aos planetas retrógrados características tais como debilitação, fraqueza, infortúnio e outros significados terríveis”. (2) No meio, alguns conceitos vagos e outros acurados. A Astrologia Tradicional vê a retrogradação como debilidade acidental, mudando a força do planeta; é certamente considerada em mapas de Astrologia Horária e Eletiva. Já a Astrologia Védica, contrariamente, atribui grande força e potência a planetas retrógrados. Na Astrologia Psicológica, diz-se, entre outras coisas, que as qualidades representadas pelo planeta são introvertidas, voltam-se para dentro e são mais difíceis de ser acessadas, exigindo trabalho interior especial na esfera regida pelo planeta ao longo da vida.

Na retrogradação de Marte, muitas vezes o impulso agressivo se volta contra a própria pessoa, pois ela, inconscientemente escolhe "implodir", direcionando a raiva para dentro, ao invés de para fora.
Na retrogradação de Marte, muitas vezes o impulso agressivo se volta contra a própria pessoa, pois ela, inconscientemente escolhe “implodir”, direcionando a raiva para dentro, ao invés de para fora.

É muito difícil dizer algo realmente novo em Astrologia, um corpo de conhecimento milenar, que desenvolveu-se concomitantemente à evolução e progresso humanos, particularmente nos últimos 200 anos, com o desenvolvimento da consciência individual – lembre-se, num passado não muito distante somente nobres (muito nobres) podiam ser indivíduos, e certamente não da forma como pensamos o indivíduo hoje, todo o resto era uma massa disforme chamada plebe e nesse contexto horóscopos eram erigidos apenas para reis, papas e figuras muito influentes – portanto, não tenho a pretensão, neste artigo, de acrescentar nada de novo a respeito de Marte Retrógrado que já não tenha sido dito pelos Grandes que escrevem e ensinam sobre o assunto, contudo, agrego o que tenho visto na minha prática com clientes e que geralmente confirma os preceitos dos autores no qual me fundamento. Baseio este artigo particularmente em quatro autores: Howard Sasportas, Liz Greene, Melanie Reinhart e Erin sullivan, cujo livro Retrograde Planets, permanece, em minha opinião, como o melhor e mais completo estudo sobre planetas retrógrados já editado, livro que definitivamente recomendo caso o leitor queira entender mais sobre o assunto (veja referências bibliográficas completas ao final do artigo).

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Marte – Reprodução

Marte, o Embaixador da Identidade

O primeiro dos planetas exteriores, Marte é considerado o embaixador da Tríade da identidade: Sol, Mercúrio e Vênus. Marte é a força da vida, o puro instinto de sobrevivência, aquilo que nos faz levantar da cama de manhã e atuar no mundo. É primitivo, é instintivo e intrinsecamente ligado ao corpo e sentido nele. O relacionamento entre Sol e Marte é um dos mais importantes no horóscopo porque a energia e ação de Marte são instrumentais para que o Sol possa se expressar. Sol e Marte são as duas figuras masculinas por excelência na astrologia e, de formas diferentes, apontam para o arquétipo do pai como figura masculina primeira na psique do menino ou menina. Marte, especialmente, como representante da figura do herói que toda criança pequena enxerga no pai, mas Sol e Marte também simbolizam o herói em cada um de nós, lutando batalhas particulares, simbolizadas pelo signo e casa em que caem no horóscopo, assim como pelos aspectos que fazem entre si e com outros planetas.

A Batalha entre o Rei e seu Embaixador

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Uma vez que o movimento retrógrado aqui implica, necessariamente, em oposição, o ciclo de retrogradação seria então uma batalha entre o embaixador, Marte, e seu Rei, o Sol. “Essa batalha como vista através da função da retrogradação no mapa natal freqüentemente se manifesta nas pessoas como uma sensação de que sua energia e etos heroico foram roubados ou suprimidos. Elas têm que cavar mais fundo para achar seu senso de superioridade individual e freqüentemente se vêem perdidas no desempenho desta tarefa” diz Erin Sullivan(4).

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Irandhir Santos e W. J. Solha no filme “O Som ao Redor” Reprodução

O Pai como Inimigo

Geralmente o pai é visto como o ladrão que roubou essa energia e, de fato, verifica-se um distanciamento entre a pessoa e o pai biológico, de quem se busca compulsivamente atenção e aprovação. Obviamente o pai biológico não necessariamente é um carrasco, ou frio e distante de propósito, menos ainda um pai roubaria “conscientemente” a força de vida do filho ou filha. O que acontece com freqüência é que o próprio pai tem problemas com seu Marte e com sua força de vontade e senso de potência. “Sua própria vontade pode ter sido subordinada ou minada por circunstancias que a criança constela como um tipo de sina e que deve reivindicar de alguma forma”, aponta Sullivan (4). Com o tempo, a batalha com o Pai torna-se uma batalha com o mundo e como é comum em configurações de oposição, a psique utiliza-se do fenômeno da projeção e o Pai que nos impede e se interpõe em nosso caminho é vivenciado de novo através de figuras de autoridade ou de relacionamento próximo: o chefe, um policial, um professor, o marido, a esposa, e assim por em diante.

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Howard Sasportas, falando sobre a oposição Sol-Marte no mapa natal diz o seguinte:

Com a oposição de Sol e Marte surge a tendência de projetar Marte sobre os outros. Sente-se um forte desejo de auto-expressão, mas a força de vontade de outra pessoa parece afrontar esse desejo (a oposição de Marte). Você pode ter a sensação de que alguém está tentando impedi-lo de ser autêntico. A impressão é de que seu desejo de ser você mesmo está em oposição com o desejo da outra pessoas de ser ela mesma. (…) O individuo acha que os outros o estão desafiando ou então provocam brigas a fim de justificar a manifestação da própria vontade e força. O conflito pode se dar com um dos pais, muitas vezes com o pai.  (5)

Outros São heroicos – Eu Sou Heroico

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At the Abyss – Reprodução

Como disse acima, oposições são um prato cheio para projeções. No plano simbólico como no real há uma batalha de vontades. Sullivan lembra que o pai, ausente ou presente, é essa imagem projetada do herói-lá-fora e ele é uma figura dominante no período em que o ego está mais vulnerável no seu desenvolvimento, dos três aos sete anos. Gradativamente, se tudo corre bem, a criança, depois adolescente, vai aprendendo a internalizar a figura do herói e aprende a vê-la como parte de si mesma. O problema com Marte retrógrado é que há dificuldades maiores nesse processo de internalização da imagem do herói e o individuo continua a projetá-la em figuras exteriores. Mas a autora estressa que a transmutação de outros-são-heroicos em eu-sou-heroico pode ser feita, mesmo por indivíduos com Marte retrógrado no mapa natal. Em algum momento essa figura super poderosa precisa parar de ser a força controladora na vida da pessoa e ela finalmente se dá conta de que a batalha lá fora, é na verdade, uma batalha interna.

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Herê Fonseca, artista de Mato Grosso Reprodução

Melanie Reinhart afirma algo na mesma linha:

Se alguém nasce com o Sol em oposição a Marte retrógrado, aplicando para uma futura conjunção, um dos grandes temas na vida será a conclusão de algo, talvez uma tarefa ou luta interna, então, com freqüência há uma qualidade de energia removida a respeito daquela pessoa. Ou talvez às vezes ela exploda violentamente. A energia vital de Marte está atada a conflitos de família ou talvez esteja lutando uma batalha de dificuldades e privações ou dificuldades físicas ou ainda psíquicas. Elas podem ainda estar emaranhadas lutando a batalha de outras pessoas ou então sentem a agressividade do ambiente imposta sobre elas (6)

Uso e Abuso de Poder

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Reinhart afirma que com Marte retrógrado outro grande tema é o uso e abuso de poder, já que o inicio da vida é geralmente marcado pela sensação de impotência e a conexão com a vontade e a iniciativa tem que ser construída com o tempo, experiência e introspecção. Quando se tem essa sensação de impotência – e um dos sinais mais óbvios é a dificuldade de dizer “não” – e se começa a trabalhar a questão, normalmente vai-se para o extremo oposto, e de uma “ovelhinha dócil” que não incomoda ninguém, a pessoa pode passar a comprar brigas desnecessárias e ver oposição onde não existe, talvez como forma de exercitar a incipiente assertividade – se a pessoa não se observa com cuidado, ela pode sim, passar a abusar do poder recém adquirido, seja em relacionamentos íntimos ou em esferas mais públicas. É sabido já há tempos que pessoas vítimas de abuso muitas vezes tornam-se abusadores depois. É uma espécie de super compensação.

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Agressividade Passiva

Isso nos leva a outra manifestação possível com Marte retrógrado, a agressividade passiva. Não, não é exclusividade de Marte Retrógrado; pode ser simbolizada também por Marte em Peixes, Marte em Capricórnio, Marte-Saturno, Lua-Marte-Plutão, etc. Agressão passiva, diz Sullivan,  “é um jeito muito especial de ser ofensivo e defensivo ao mesmo tempo – alguns até podem achar que é econômico – não apenas você pode ficar zangado, como pode evitar que o outro retalie abertamente! É um beco sem saída, não apenas interno, mas externo também (…) um sentimento de raiva exalado, mais do que explicitado, a retrogradação provê um método para controlar os outros pela manipulação sutil e não pelo comando direto”(4).

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Reprodução a partir do Blog Escondido em Palavras

Competição, Ressentimento e Inveja

A competição aberta, traço inequívoco de um Marte bem disposto fica disfarçada de falta de interesse, ou pior ainda, de ciúme, inveja, ressentimento e rivalidade – dinâmica iniciada lá, com o pai. Claro, todos nós sentimos esses sentimentos sombrios de vez em quando, e são naturais, inerentes à natureza humana, “são expressões do ímpeto natural de ser o Número Um” (4). Mas um Marte potente é capaz de reconhecer seus limites; sabe reconhecer quando vale a pena ir atrás de um objetivo ou ceder quando percebe que é uma causa perdida. E sabe fazer isso graciosamente. Com Marte Rx, é comum a pessoa se sentir corroída por estes sentimentos de inveja e ressentimento, culpando o outro por ter ou tirar algo que ela julga seu por direito; ela tende a sentir-se pior ainda por ter tais sentimentos e a coisa toda pode virar um ciclo vicioso muito doloroso. “O que ela precisa perceber é que é ela que não está externalizando e expressando aquilo que ela sabe ser seu próprio poder, único e individual.” (4)

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Tim French – Reprodução

Casos de Abuso

E ainda que não seja regra, e que Marte retrógrado não signifique necessariamente abuso sexual, a questão não deixa de entrar como possibilidade neste quadro. Uma vez que o individuo não se sente capaz de se defender aberta e saudavelmente, ele/ela pode se achar vitimado por um namorado que não respeita o seu “não”, por um familiar abusador que se aproveita da relação de poder, ou mesmo por assédio vindo de estranhos, como exemplificado por um caso de estudo citado em Retrograde Planets, em que a pessoa em questão passou por duas destas situações de abuso. As repercussões, sobre as quais não vou me estender aqui, obviamente, são nefastas e difíceis de se lidar e exigirão da pessoa um trabalho longo, árduo e provavelmente penoso no processo de recuperação do senso de poder pessoal.

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Rodolfo Ledel – Artista Brasileiro – Reprodução

A Oposição Sol-Marte nas Progressões Secundárias

Com Marte Rx no mapa natal, Melanie Reinhart sugere que se observe em que estágio do ciclo de retrogradação a pessoa nasceu, se a oposição Sol-Marte já ocorreu ou ainda vai ocorrer e se Marte mudará de direção nas Progressões Secundárias. Quanto mais próximo da oposição exata, mais agudamente se vivencia estes temas. O período pré-oposição é mais marcado por uma tensão permanente, uma necessidade de estar sempre em guarda; e o período após o aspecto exato tenderia a ser um pouco mais facilitado, pois o indivíduo talvez intua mais rapidamente que o problema é na verdade interno, já que o aspecto é separativo. Já nas progressões, se Marte muda de direção, isso significa um grande ponto de mutação na vida. Os três anos em que Marte estaciona e depois fica direto são marcados por uma descarga extrema de energia reprimida e os conflitos tornam-se mais intensos que nunca. Reinhart diz que pode ser um período, a princípio, muito destrutivo, já que a pessoa não está acostumada a lidar com a energia, e de repente, ela pode entrar em contato com uma raiva antiga e visceral, pode ter recordações de fatos esquecidos e se meter em muita confusão no mundo exterior, pois é muito difícil determinar quem de fato é o inimigo. No fim, isso acaba levando a uma fase de renovada energia, novos projetos e a pessoa sente-se empoderada, dona de si, sem precisar pisar nos calos dos outros para se fazer notada.

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Qiu Anxiong – Reprodução

Sabe Aquele Belo Trígono Sol-Marte?

Mas não é só Marte retrógrado que pode causar problemas. No caso de Sol-Marte, trígonos também podem se revelar enganosos. Todos os outros planetas superiores estão em trígono quando retrógrados, e embora o mesmo não ocorra com Marte, é importante notar que, no caso de um trígono aplicativo, muito provavelmente Marte ficará retrógrado por Progressão Secundária. Sullivan afirma que o trígono Sol-Marte é extremamente enganador, porque quando em trígono com o Sol, Marte está no seu movimento mais lento, ou ficará retrógrado em cerca de 15 ou 20 dias ou terá retornado ao movimento direto 15 ou 20 dias antes do nascimento e estará ainda se recuperando da batalha. “Este trígono produz uma teimosia que não é normalmente associada com trígonos, que são geralmente considerados harmoniosos e confluentes (…) as qualidades do trígono podem até se manifestar, mas o impasse que um Marte lento pode gerar no desejo de se expressar produz frustração intensa na pessoa. De fato, a energia pode fluir entre Sol e Marte com graça e facilidade mas quão fácil é para a pessoa expressar assertividade e agressão? Há geralmente um curto-circuito entre o conhecimento interior da própria superioridade  e a manifestação concreta disso. O aspecto pode se manifestar como fantasias irreais de grandes realizações, um tipo de megalomania.” (4) Por progressão Marte ficará retrógrado entre os 14 e os 20 anos e este ano será muito importante. A oposição que ocorrerá entre Sol e Marte desafiará a “facilidade” do trígono natal, obrigando a pessoa a buscar força interior e a se auto-afirmar. Quando oposição em si ocorre, as coisas ficam realmente “quentes” internamente e o ano é marcado por uma rebelião à vida ou caminho anteriormente escolhidos.

Gérard Di-Maccio
Gérard Di-Maccio – Reprodução

Pessoalmente Falando…

Na minha experiência com clientes tenho visto casos de Marte Rx no mapa natal ou progredido que exemplificam o que todos estes autores dizem, com algumas diferenças em detalhes. E em períodos em que o planeta está retrógrado, como agora, o número de clientes que o têm natalmente buscando consulta aumenta. É particularmente digno de nota a luta com o pai, que normalmente não é mais apenas um pai, mas O Pai, porque no pai humano, biológico, vê-se na verdade o Pai Arquetípico, geralmente travestido com as cores do Pai Terrível ou Tirânico. Um pai super poderoso ou abusador que, consciente ou inconscientemente, suprime a expressão da individualidade do filho ou filha. Em outros casos, o pai é impotente de alguma forma: fracassou na profissão, faliu completamente deixando a família em dificuldades, ou teve sua vontade suplantada por forças maiores que ele, o que causa uma frustração e senso de fracasso enormes, sentimentos aos quais o filho ou filha é agudamente sensível. Às vezes, a sensação de impotência vem de antes do pai, em gerações anteriores na linhagem masculina, com sucessões de homens que se sentiram emasculados de alguma forma. A luta do pai, do avô e talvez de várias outras gerações, torna-se então a luta do filho, uma busca por reaver o poder pessoal perdido, especialmente quanto Marte retrógrado cai na casa 12 ou em Peixes. Então a luta adquire nuances de Redenção do Pai e de redenção do masculino na família. Não necessariamente da forma como ocorre com Sol-Netuno ou Sol em Peixes, mas algo relacionado especificamente com a potência e a vontade masculinas e com o uso adequado do poder pessoal.

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Escolhendo Batalhas Apropriadas Para  se Travar

Que a pessoa com Marte retrógrado no mapa natal vai enfrentar muitas batalhas ao longo da vida, isso é fato, é inegável. É uma necessidade básica para seu desenvolvimento como indivíduo. Talvez ela demore a perceber que a batalha é primeiramente interna, consigo mesma; e que o pai provavelmente não quis de fato “roubá-la” de sua força e potência. Mas em algum momento ela terá que perceber que a luta é essencial para seu senso de identidade, de “eu”; que ela floresce e frutifica em tempos de guerra e é no campo de batalha, qualquer que seja ele, que ela dá o seu melhor. Ao invés de reclamar e se lamentar que o pai, o chefe, o prefeito, o governo, o professor, o marido, a esposa estão sempre lhe impedindo de ser quem é, ou de fazer o que quer, essa pessoa “deveria aceitar que sua visão de mundo é predisposta a batalhas e que ela deve achar batalhas apropriadas para lutar. Uma vez que o oponente é na verdade interno, o oponente deveria ser a própria pessoa – em termos atléticos, por exemplo, lutar para alcançar o seu melhor desempenho pessoal é a forma mais efetiva de satisfazer sua própria agressão” (4).

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A Liberdade Guiando o Povo – Delacroix (1798-1863) – Reprodução

Concluindo…

Então é isso: escolher cuidadosamente batalhas e guerras que valham a pena lutar, de forma consciente, aberta e limpa, como por exemplo nos esportes, na política, no Direito, na Segurança Pública, nas questões ambientais, etc. Não que seja algo fácil e simplista, mas dessa maneira, a energia da oposição e da luta, será aplicada de forma criativa e poderá produzir resultados formidáveis, estupendos e não só na vida pessoal. Em maior escala, as vitórias poderão representar ganhos e melhorias para todo o coletivo onde se esteja inserido.

Certamente Marte Retrógrado é uma excelente arma de guerra – só se leva mais tempo para aprender a usá-la de forma inteligente e efetiva. Mas é possível!

Marte retrógrado em trânsito no mapa natal

nicolettaceccoli comMarte fica retrógrado de 60 a 80 dias a cada 26 meses, aproximadamente. Sua retrogradação será sentida nas áreas de vida simbolizadas pela casa do mapa natal em que ocorre a retrogradação e o efeito será mais intenso e potente caso Marte faça algum aspecto tenso a planetas do mapa natal, especialmente se este aspecto ocorrer três vezes, direto, retrógrado, direto. A retrogradação implica diretamente em REVISÃO dos assuntos regidos pelo planeta em questão, na área de vida em que o movimento se dá. No caso de Marte, o chamado é para revisarmos decisões, atitudes e a maneira como executamos nossa ação, nosso modus operandi naquela área de vida. REVER e REAVALIAR a maneira como afirmamos nossa identidade, nossa assertividade – ou falta de – e como isso impacta na nossa realização pessoal e nas nossas relações. Há tendência de atrasos e entraves nos assuntos desta casa, o que pede de nós muita paciência e tolerância. Sendo Marte um planeta que se expressa no corpo, fisicamente, podemos canalizar as frustrações numa caminhada vigorosa, mas, ao mesmo tempo, recomenda-se pegar leve nas atividades físicas em geral, pois podemos nos exaurir e até adoecer ou nos expor a acidentes, principalmente se Marte retrógrado faz aspectos tensos a Mercúrio, Saturno ou Urano no mapa natal. Os ânimos ficam alterados, o pavio está mais curto e qualquer coisa tola pode ser o estopim para discussões sérias ou conflitos graves, sobretudo para indivíduos que já têm dificuldades de gestão da própria agressividade. É recomendável manter em cheque as frustrações e ser bastante honesto a respeito delas, evitando que espirrem em outros que talvez não tenham nada a ver com nossos problemas.

OBS: Para saber se você tem Marte retrógrado no mapa natal, veja aqui. A retrogradação é representada no mapa por um R em vermelho, com a perna cortada junto ao símbolo do planeta. Para saber mais sobre Marte no seu mapa natal, se ele é forte ou se há dificuldades na sua expressão e quais as implicações disso na sua vida prática e emocional, agende uma consulta comigo: psicologica.astrologia@gmail.com

Oposição Sol-Marte 2016. Exata em 22 de maio de 2016, Algumas horas depois da Lua Cheia de Sagitário.
Oposição Sol-Marte 2016, a 01°47′ de Gêmeos-Sagitário. Exata em 22 de maio de 2016, algumas horas depois da Lua Cheia de Sagitário.

Vale a pena lembrar que por estar em oposição ao Sol, Marte está visível a olho nu no período de retrogradação. É uma estrela de brilho vermelho e incessante e que aparece não muito distante de Saturno, também muito brilhante, só que este tem brilho azulado. 

BIBLIOGRAFIA

(1)    ARROYO, Stephen – Relacionamentos e Ciclos de Vida, Ed. Pensamento, São Paulo

(2)    MARCH, Marion De & McEVANS, Joan – Curso Básico de Astrologia Vol II., Ed. Pensamento, São Paulo

(3)    FALLON, Astrid – Planetary Cycles at a Glance, Fallon Astrographics, London, UK

(4)    SULLIVAN, Erin – Retrograde Planets – Traversing the Inner LandscapeSamuel Weiser,Inc, York Beach, Maine, United States

(5)    SASPORTAS, Howard – A Astrologia e a Psicologia da Agressão, em A Dinâmica do Inconsciente- Ed. Pensamento, São Paulo, SP

(6)    REINHART, Melanie – The Best and the worst of Mars, in The Mars Quartet – Four Seminars on the Astrology of the Red Planet – CPA Press, London, UK

(7)    GREENE, Liz – Thugs and Warriors, in The Mars Quartet – Four Seminars on the Astrology of the Red Planet – CPA Press, London, UK

 

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A DINÂMICA DO INCONSCIENTE - LIZ GREENE E HOWARD SASPORTASerin

Mercúrio Retrógrado em Capricórnio – Vivendo na Matrix

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Pawel Kuczynski – Reprodução

Mercúrio está retrógrado e eu estou às voltas com análises de troca do meu telefone celular e de operadora. Irrito-me profundamente com essa tecnologia que cria necessidades que não temos para nos empurrar goela abaixo coisas das quais não precisamos e nem mesmo queremos. Tudo para nos anestesiar ainda mais, para nos fazer zumbis – sim, atualmente somos todos zumbis, autistas, perdidos num mundo estéril, só nosso, com a ilusão de que estamos super conectados. Não é à toa que proliferam tantos filmes e séries sobre zumbis atualmente. A arte e a mídia, de um jeito ou de outro, vão trazer à tona os temas centrais e mais pertinentes do inconsciente coletivo da época. E a ironia é que a mesma indústria cultural, a mesma mídia também produz tudo isso para entreter, leia-se, alienar, num jogo perverso de retro-alimentação cultural. Mas quem estiver minimamente desperto se dará conta dos sub-textos, do que está escondido nas entrelinhas – coisa para a qual Mercúrio retrógrado sempre vai chamar a atenção. 

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Desconheço o autor – Reprodução

Sim, eu também sei o quanto a tecnologia nos ajuda e facilita a vida, o quanto ela de fato quebra barreiras, etc, etc… O objetivo aqui não é depredar algo que é, indiscutivelmente, útil e que tem benefícios inúmeros – sei de todos eles. As coisas em si mesmas não são ruins, bom ou ruim é o uso que fazemos delas. Estou falando do exagero e de quando nos deixamos regular por vontades e impulsos que não são os nossos, bitolados bovinamente, como numa simbiose doentia, atendendo a estímulos que foram pensados por outros, com intuitos bem mais perversos do que meramente entreter, que os mais ingênuos ou não-nascidos-por-opção, aqueles que “não estão lá”, as mentes onde “não há ninguém em casa”,   não se dão conta. Utilizamos a tecnologia a nosso favor ou somos marionetes das redes invisíveis de poder?

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Reprodução

Tento fazer uma ligação e não consigo. O aparelho está atualizando aplicativos que não utilizo, dos quais não preciso e que nem mesmo consigo desinstalar porque vieram “de fábrica”. Insisto, a ligação é importante e nada acontece, a ligação nem mesmo se completa. Não sei se é o aparelho que não presta – passei a odiar Samsung porque tenho problemas diários com o aparelho; não sei se é a minha operadora; não sei se é a operadora do número para o qual estou ligando e no Brasil, infelizmente, não há para onde correr, é uma pior do que a outra, um verdadeiro engôdo na entrega dos serviços prometidos, cobrados a preços exorbitantes; não sei se é o mero “acaso”… Enfim, fico frustrada, não consigo ligar e resolver o problema e ainda tenho que ficar assistindo ao aparelho seguir com sua atualização automática e não solicitada – sim, já fui nas configurações e já “desliguei” as atualizações automáticas dos apps que não uso – em vão! Meu próprio laptop, Windows 10, faz as atualizações automaticamente – o antigo trazia uma caixa de diálogo que me perguntava se eu queria atualizar e poderia fazer quando e SE quisesse. Não mais. Deixo em stanby e quando volto, foi tudo atualizado! Eu tremo de medo quando penso nas implicações disso e no que está por vir num futuro próximo…  

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Reprodução – Desconheço o autor

Neste cenário, é fácil simplesmente culpar Mercúrio retrógrado e de fato, ele leva a culpa de todos os problemas de comunicação do período e nos esquecemos que muitos destes problemas são crônicos, seja com a parafernália tecnológica, seja com nossos contratos mal pensados com operadoras odiosas, seja nossa própria comunicação interpessoal no dia a dia que anda capenga. Antes de culpar Mercúrio por todos estes problemas e dificuldades, faríamos melhor se o agradecêssemos porque ele está, na verdade, nos fazendo um favor por realçar, salientar problemas crônicos que finalmente se tornam agudos a ponto de nos obrigarem a tomar uma medida, uma atitude e finalmente correr atrás de uma solução que resolva o problema ao invés de apenas remediá-lo. Esse é um dos objetivos de Mercúrio retrógrado: alertar-nos para as coisas que sempre existiram mas que vamos fazendo vista grossa, vamos deixando para depois… Se não resolvemos por bem, na retrogradação as coisas ficam críticas e somos obrigados a levá-las a sério e a dar-lhes a atenção que merecem. 

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Pawel Kuczynski – Reprodução

Em Capricórnio, essa retrogradação mercurial vem chamar nossa atenção também para a utilidade das coisas; para o fato de transferirmos a “autorização” de atualizações, tecnológicas ou não, e também de outros movimentos para “autoridades” invisíveis, como os gestores dos nossos planos de telefonia, sistemas bancários, de transportes, tráfego urbano, o tio Google, os sistemas que gerenciam nossos equipamentos de tecnologia, os sistemas diversos que acabam por gerenciar, indiretamente, boa parte da nossa vida sem que percebamos – pense em todos os “sistemas” dos quais você depende atualmente… É extremamente sedutor simplesmente transferir essa autoridade para atualizações mecânicas e automáticas, mas é também muito perigoso, tanto no plano literal – nossas máquinas atualizam coisas que não sabemos – quanto no plano psíquico, eu abro mão, gratamente, da necessidade de gerir ativamente minha própria vida e me tranquilizo porque há outras entidades cuidando dessas coisas para mim. Eu sei que isso não se aplica a todo mundo, mas aí é que está, a maioria de nós vai seguindo cegamente os ditames dessa rede invisível e que fica a cada dia mais poderosa. Antes era a televisão, e era muito mais fácil identificar o “vilão”. 

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Reprodução

Hoje é tudo muito mais difuso e por isso, mesmo mais perigoso. Muitos de nós – como eu – irritam-se terrivelmente por ver tiradas das nossas mãos decisões sobre as quais gostaríamos de opinar – não podemos mais escolher, já escolheram por nós! Fiquei sabendo, por exemplo, que o meu banco, Bradesco, está instituindo agora um app obrigatório que substitui a antiga chave de complementação de senha, que antes vinha num simples cartão. Quer dizer, não me perguntam SE eu quero. Já decidiram por mim e é isso ou eu não serei capaz de gerenciar minha conta e meu próprio dinheiro! O cerco está se fechando cada vez mais! Sabe aqueles filmes de conspiração em que o herói está sendo perseguido e de repente seus cartões de crédito, seus documentos e tudo o mais é anulado a ponto de ele simplesmente deixar de existir? Isso é mais real do que poderíamos imaginar. Bem vindo à Matrix!

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Qta3 – artista japonesa – Reprodução

Precisamos mesmo de tanta parafernália? Sabemos dizer, honestamente, de todo esse aparato tecnológico, o quê realmente nos ajuda e facilita nossa vida e o quê acaba por nos afastar de coisas essenciais, de pessoas próximas de nós e até de nós mesmos? O quanto essas coisas pensam e decidem por nós sem que nos demos conta? O quanto estamos entregando para estes “sistemas” invisíveis nossa capacidade de pensar, de decidir e de analisar o mundo ao nosso redor? Capricórnio é um signo de controle, no melhor e no pior sentido. Mercúrio retrógrado neste signo vem convidar a refletir sobre o quanto somos controlados de fora, a partir do aparato tecnológico, a partir dos sistemas diversos que gerenciam o mundo moderno, a partir da sistematização do humano à revelia da sua vontade – e não nos enganemos, tem todo um corpo ideológico por trás de tudo isso! Os mecanismos de controle mais eficientes e eficazes são aqueles que, aparentemente, não têm nada a ver com controle, e porque não parecem, não nos defendemos contra eles, estamos de guarda baixa. É o caso da indústria do entretenimento, por exemplo e de toda a estrutura da indústria midiático-cultural. É o caso também de sistemas criados, a princípio, para “facilitar” nossa vida mas que depois você percebe que acaba por engessar muito da sua ação individual. Mercúrio vem questionar se não é hora de retomar pelo menos parte desse controle – sei que é virtualmente impossível existir e funcionar no mundo moderno sem se utilizar destes sistemas, porque estamos quase que completamente dependentes deles- tecnologia, bancos, transportes, redes sociais etc, etc, etc – nomeie você mesmo! Mas precisamos saber, minimamente, para onde estamos indo e o que estamos decidindo ou deixando de decidir!

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Brooke Shaden Photography – Reprodução

E então, vamos continuar abrindo mão, candidamente, da nossa capacidade de escolha e decisão, na ilusão de que estamos sendo “cuidados” (signo oposto, Câncer), ou vamos perder um pouco do nosso precioso tempo para nos atermos ao que realmente queremos, vamos ler as letrinhas miúdas de manuais e contratos para sabermos no que estamos realmente entrando? Vamos analisar com cuidado e buscar fundo, dentro de nós, as razões de fazermos o que fazemos ou vamos continuar feito gado, seguindo a massa de forma confortável, por que é mais fácil, mais cômodo, mais “divertido”? Vamos continuar adquirindo cada vez mais equipamentos, cada vez mais modernos, que suprem necessidades que não temos e tornam nossa vida mais “fácil”, mas também estéril e vazia? Vamos abdicar de sentir verdadeiramente, de viver a vida real em função da digital/virtual?  Ou vamos sair do automático (não, pelamordedeus, sem referências àquela marca de frios!) e retomar o controle da nossa vida e tomar nossas próprias decisões?

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Igor Morski – Reprodução
 NOTA: Em sua retrogradação, Mercúrio voltará a fazer aspectos com Júpiter, Urano e Plutão e isso tem seus significados, como já salientei nos textos semanais. Não mencionei os aspectos aqui porque estava falando especificamente de Capricórnio. Peguei uma linha de raciocínio e a segui. Grata.

Saturno-Netuno – O Mundo em Desintegração

Saturnus_fig274 - Copia (2)Saturno ingressou em Sagitário definitivamente no dia 17 de setembro de 2015, onde permanecerá até 20 de dezembro de 2017, quando ingressa em Capricórnio. Ele já tinha feito uma incursão rápida no signo do Arqueiro de dezembro de 2014 a junho de 2015, mas então regressou a Escorpião para o último round de cobranças naquele signo, de junho a setembro.

Enquanto estiver empreendendo sua jornada por Sagitário, Saturno terá que lidar com dois velhos arqui-inimigos: Netuno, que trafega o último signo de Água e da qualidade Mutável, o último do Zodíaco, Peixes, e também Júpiter, o filho que o tirou do poder, que trafega Virgem até setembro de 2016– aliás, Saturno é o arqui-inimigo e o consequente oposto psicológico de todos os demais planetas, por ser o contra-ponto, aquele que limita o impulso natural do planeta em questão. Neste texto vamos nos concentrar apenas no ciclo Saturno-Netuno. Falaremos de Júpiter-Saturno em outro momento, não sei quando.

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Pawel Kuczynski – Reprodução

Mas por que eles são inimigos? Porque representam princípios opostos. Enquanto Saturno constrói estruturas, Netuno as fragmenta e dissolve; Saturno quer segurança, Netuno traz incerteza; Saturno busca o que é sólido, Netuno deixa fluido, inconsistente, frágil; Saturno é o princípio da realidade, Netuno o da ilusão, fantasia e imaginação; Netuno sonha, Saturno realiza; Saturno define, Netuno é indefinível; Saturno é a forma, Netuno torna tudo disforme; Saturno encara tudo de cara limpa, é sóbrio, resistente, responsável, austero, gosta da ordem  e da hierarquia, já Netuno é inconsequente, indulgente, permissivo, condescendente, caótico, dissoluto, irresponsável, anarquista, ama o caos e busca escapar da realidade através de álcool, drogas, arte, misticismo, fanatismo; Saturno representa o controle, Netuno o descontrole, a subversão, a loucura, a insanidade; Saturno é a matéria concreta, Netuno é a imaginação abstrata; Saturno enrijece, Netuno amolece; Saturno é severo e duro, Netuno é compassivo e sensível; Saturno separa o indivíduo, corta o cordão umbilical e o obriga a amadurecer, Netuno é o desejo de voltar ao útero e à unidade urobórica onde ninguém é separado e todos somos um; Saturno é a estruturação do ego, Netuno é a sua dissolução; Saturno cria fronteiras e limites para nos separar do mundo exterior – não é à toa que rege a pele, a “fronteira” que delimita e separa nosso corpo do resto do mundo – Netuno dissolve todas as fronteiras e separações; Saturno busca poder e status econômico e social e Netuno não se importa com isso, representando, entretanto o poder da arte, da criatividade, do cinema, glamorizando e criando verdadeiros mitos dentro dessas indústrias; Netuno é o ideal de perfeição etérea, de outro mundo, Saturno é a imperfeição da vida encarnada… Poderíamos ficar horas enumerando porque estes dois se contradizem, mas creio que já é suficiente.

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John Roddam Spencer Stanhope Artista Prerrafaelita Reprodução

Contudo, os dois têm alguns pontos em comum: ambos representam sacrifícios, no caso de Saturno por causa da renúncia que fazemos de um prazer imediato em nome de algo mais duradouro, sacrificamos algo no agora visando ter uma recompensa melhor no futuro. Já Netuno representa nossos anseios, anseios pelo belo e inefável  e em última instância, por redenção e os sacrifícios representados por Netuno, ao contrário de Saturno, não envolvem renúncias ditadas pela disciplina, mas são, antes, o abrir mão de si mesmo e da vontade pessoal em nome de algo maior, em favor de outra pessoa ou do coletivo ou simplesmente porque o indivíduo sente-se esmagado pelas correntes da vida. Ambos também representam a crucificação, Saturno é a crucificação na matéria, na realidade, Netuno é a crucificação-sacrifício que redime a humanidade. Netuno é o Paraíso, o Jardim do Éden onde tudo é perfeito, Saturno é a Queda e a expulsão deste mesmo paraíso, com a consequente condenação de se ter que ganhar a vida “com o suor do rosto”, enfrentando o medo, “as dores do parto”, os  limites, as doenças, a velhice e no fim, a própria morte.

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Shutterstock – Reprodução

Quando, pois, colocamos os dois juntos, na quadratura mutável Sagitário-Peixes, temos sonhos transformados em realidade ou a desilusão amarga diante de fantasias irrealistas; erosão de fronteiras e limites; fragmentação e dissolvição de estruturas religiosas, políticas e econômicas; endurecimento ou desintegração de sistemas religiosos; idealização da figura do pai; regimes autoritários sendo dissolvidos ou sendo glamourizados; estruturas seguras e inquestionáveis dissolvendo-se da noite para o dia; controle no uso de drogas e álcool; medo do desconhecido; medos indefiníveis; desilusão e desencanto com a realidade;  – e assim por diante. Junte os dois princípios e podemos formular outras possibilidades. Uma imagem que ilustra de maneira muito clara a forma como estes dois planetas operam juntos é a imagem das ondas do mar batendo nos rochedos na praia. A rocha é a rocha: dura, inflexível, difícil de mover e de destruir. A princípio você olha e a paisagem é a mesma.  Mas fotografe esta paisagem e olhe para ela décadas mais tarde e perceberá que, com o tempo, o mar erodiu a rocha e mudou a paisagem. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura – é um adágio que retrata a interação de Saturno e Netuno.

"Imaginação é a única arma na guerra contra a realidade" - Alice no País das Maravilhas - tirado do Etsy, via Pinterest - Reprodução
“Imaginação é a única arma na guerra contra a realidade” – Alice no País das Maravilhas – tirado do Etsy, via Pinterest – Reprodução

Se consideramos todas as contradições que estes dois planetas representam, logo entendemos porque seus ciclos são tão desconfortáveis de se lidar, tanto no plano individual quanto em termos coletivos. E, se por um lado Netuno derruba e fragmenta tudo o que Saturno levou anos para construir, por outro, os dois são essenciais à psique e quando em aspecto no mapa natal ou quando em trânsito como agora, representam o potencial formidável de transformar sonhos em realidade, porque Netuno imagina , fantasia e sonha, mas sem Saturno jamais realiza nada, porque carece da capacidade de planejar e de lidar com a matéria concreta, com a realidade e seus prazos e custos. Por sua vez, Saturno tem grande poder de realização e concretização, mas sem Netuno torna-se estéril, excessivamente seco e funcional, sem imaginação, de modo que as coisas que cria podem mesmo ser feias, grosseiras e carecerem de alma e de vida. Não é por acaso que geralmente encontramos estes dois planetas em aspecto nos mapas de artistas e de grandes sonhadores que conseguem colocar em prática seus sonhos e ideais. Porque aqui temos a imaginação aliada à forma.

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Heather Nevay – Reprodução

Mas o que significa e quais as implicações da atual quadratura que Saturno faz a Netuno? Antes de falarmos especificamente sobre a configuração atual entre eles, vamos entender melhor a natureza deste ciclo. Isso porque, quando falamos de aspectos, sempre precisamos nos reportar à fase do aspecto  em termos do ciclo que está em vigor entre os dois planetas em questão, quer dizer, precisamo recuperar quando o ciclo foi iniciado, quando estes planetas estiveram em conjunção pela última vez. Isso é ainda mais importante e crucial quando se trata de planetas lentos, cujos ciclos têm grande impacto no coletivo, no curto e no longo, longuíssimo, prazo. Em se falando de ciclos, o mais rápido de todos eles é o da Lua, cujo ciclo em relação ao Sol é chamado de lunação e cujos ápices são a Lua Nova e a Lua Cheia e que simboliza as mudanças diárias na nossa vida.  Embora os ciclos planetários possam ser estudados em relação a todos os planetas e luminares entre si, os ciclos de maior impacto social e coletivo são os ciclos que começam a partir de Júpiter: Júpiter-Saturno, Júpiter-Urano, Júpiter-Netuno, Saturno-Urano, Saturno-Plutão, Urano-Plutão… E assim por diante. Como cada planeta tem seu próprio ritmo e velocidade, cada ciclo de um par de planetas tem um tempo muito próprio, assim como tem também significados muito específicos, que têm a ver, por sua vez, com a interação dos planetas em questão.

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O ciclo de Saturno e Netuno – Ilustração tirada do livro de Astrid Fallon, Planetary Cycles Reprodução (1)

O ciclo Saturno-Netuno é de 35,9 anos, ou seja, a cada 35,9 anos eles fazem uma nova conjunção, a uma órbita de cerca de 80 graus à frente do ponto em que a conjunção anterior ocorreu. Por exemplo, a última vez que Saturno e Netuno ficaram conjuntos foi entre 1989 e 1990, nos graus 10/11 de Capricórnio. A próxima conjunção ocorrerá em 2026, a 0° (grau zero) de Áries, isto é, 80 graus à frente do grau 10 de Capricórnio. Cada ciclo menor como este pertence a um Grande Ciclo de 323 anos e este Grande Ciclo consiste no tempo que os dois planetas levam para se encontrem de novo no mesmo signo referencial – outro exemplo: a conjunção Saturno-Netuno em Capricórnio anterior a 1989 aconteceu em 1666. Cada conjunção dura cerca de dois anos, dependendo da orbe que se usa – se usamos orbes amplas, de 8 a 10 graus, por exemplo, de fato estamos falando de um período de dois anos.

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Reprodução

Conforme dissemos, a última vez que Saturno e Netuno estiveram em conjunção foi entre os anos de 1989 e 1990, com as conjunções exatas acontecendo em 03/03/1989, 24/06/1989 e 13/11/1989. Ao longo dos últimos 26 anos, esta conjunção se desdobrou depois em outros aspectos,  sextil, quadratura,  e trígono crescentes, seguidos de oposição, simbolizando a fase cheia do ciclo e novamente trígono, quadratura e sextil, neste caso, minguantes.  Portanto, esta é a quadratura minguante do ciclo, que representa uma espécie de teste/prova final para as coisas iniciadas quando da conjunção. E o que estava acontecendo entre 1989 e 1990? Alguém lembra? Como não lembrar!?

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Pawel Kuczynski – Reprodução

Depois da Segunda Guerra Mundial, estabeleceu-se a chamada Guerra Fria, que, resumindo muito, era basicamente uma disputa econômica, tecnológica e política entre Estados unidos e União Soviética e seus respectivos aliados, sendo que um bloco, o ocidental, tinha regime democrático-capitalista e o outro, liderado pela União Soviética, era de regime  socialista/comunista. No fim dos anos 1980, o Socialismo amarga uma grave crise e devido à conjuntura econômica, política e social, a União Soviética e outros governos comunistas e socialistas do Leste Europeu entram em colapso e a Guerra Fria finalmente chega ao fim. O símbolo maior do fim da Guerra Fria foi a queda do Muro de Berlim, que foi a culminação de um processo que envolveu muitos conflitos nos países do Leste Europeu e que durou todo o ano de 1989, seguido da dissolvição da União Soviética, que fragmentou-se em vários estados independentes. Outros acontecimentos dessa época também muito marcantes foram: a retirada do exército soviético de Cabul, depois de nove anos lutando contra rebeldes afegãos; Reagan deixa a Casa Branca após oito anos de mandato e começa a Era Bush; no Brasil, ocorre a primeira eleição direta para presidente, que elege Fernando Collor de Mello, que decreta o confisco da poupança dos brasileiros logo após sua posse em 1990; Edir Macedo começa a ganhar poder e compra a TV Record; na China a juventude se manifesta e há um banho de sangue nos conflitos da Praça da Paz Celestial – que ironia o nome dessa praça! – evento do qual todos lembram por causa da imagem de um estudante franzino enfrentando, sozinho, tanques de guerra; no Irã, o Aiatolá Khomeini coloca a prêmio a cabeça do escritor Salman Rushdie, por entender que seu livro Os Versos Satânicos ofende o Islã; Tim Berners-Lee inventa a World Wide Web – bendito seja! Já em 1990 ocorre a reunificação das duas Alemanhas, a Guerra do Kweit e a abertura econômica no Brasil, para citar só alguns dos eventos mais importantes (quem tiver curiosidade sobre outros eventos internacionais, dê uma olhada na Linha do Tempo da BBC, cujo link está ao final deste artigo).

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Reprodução

Durante todo este período temos a conjunção tripla de Saturno, Urano e Netuno em Capricórnio, todos eles em sextil a Plutão, que trafega Escorpião. Saturno, por ser o mais rápido, distancia-se no fim de 1990 e ingressa em Aquário em 1991, enquanto Urano e Netuno permanecem em conjunção até meados de 1997.

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V. Kazanevisky – Reprodução

Saturno segue seu caminho e o ciclo vai se desdobrando em sextil (1995), quadratura  (1998/99), trígono (2001/02), oposição (2006/07), trígono novamente (2011) e agora, a última quadratura entre 2015 e 2016, finalizando a série de aspectos maiores em 2019 com o último sextil. Sugiro que o/a leitor/a pesquise o que acontecia durante estes anos, tanto na sua vida pessoal quanto em termos sociais e coletivos, para ter uma noção mais clara do tom do aspecto atual, porque os temas estão interligados. Quem tiver tempo e curiosidade, pode também pesquisar o ciclo anterior a este: 1669, 1675, 1684, e, especialmente, os anos de 1692/93, quando ocorreu, pela última vez, essa mesma quadratura minguante atual, com Saturno em Sagitário e Netuno em Peixes. Vale a pena olharmos o passado e a História, para podermos vislumbrar o que o futuro nos reserva, porque a história se repete, porque o ser humano se repete, enfadonhamente. Só para dar um aperitivo: 1692 foi o ano do processo e julgamento das Bruxas de Salém.

Agende uma consulta e veja como este ciclo se desdobra no seu mapa natal, que planetas e casas eles trafegam e quais as implicações disso na sua vida!

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Coorlartlog – Reprodução

O que percebemos analisando este ciclo em particular, iniciado em Capricórnio, é que houve uma fragmentação de estruturas de poder que antes eram vistas como sólidas e imutáveis. Mas, especialmente, depois de décadas de Guerra Fria e do terror de uma guerra nuclear rondando o mundo, a derrubada e dissolução (Netuno) do Muro de Berlim (Saturno) – olha só que manifestação literal destes dois princípios arquetípicos! –  criou expectativas e infundiu um novo idealismo coletivo no mundo ocidental. Começou-se a sonhar que a paz era possível, que a democracia era realmente a solução para todos; idealizou-se figuras de poder, projetando-se a imagem do “salvador” em determinados governantes ou sistemas; por outro lado, sistemas tradicionais outrora descartados, ressurgiram e ganharam novo status e valor. Tendo ficado estabelecido o fracasso do comunismo e socialismo, o mundo ocidental abraçou de vez o modelo capitalista-industrial, glamorizando a livre iniciativa e neoliberalismo, que ganhou força a partir deste período.

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Johnson Tsang – Reprodução

Agora, com a quadratura minguante, como é comum à fase minguante de todo ciclo, precisamos rever tudo o que foi iniciado lá entre 1989 e 1990, especialmente o que não deu certo. Agora somos confrontados com o excesso de idealismo que projetamos sobre as transformações de então, a cegueira que escolheu não ver as consequências da industrialização sem freios; precisamos encarar a falência e dissolução de muitas estruturas que pareciam ser indissolúveis e dentro disto está esse modelo econômico de super exploração da natureza, que não se sustenta e que nos trouxe ao ponto de caos em que estamos hoje. Lá em 2006, quando ocorria a oposição de Saturno a Netuno, a ONU já declarava aquele o Ano Internacional dos Desertos e Desertificação, mas parece que não chamou suficiente atenção, porque de lá para cá a coisa só degringolou! O que vemos são regimes ditatoriais e fascistas chegando ao poder novamente, ameaçando empreender uma nova “caça às bruxas” em termos políticos e religiosos; blocos ultra-conservadores ganhando ascensão e destaque na política de vários países e também nas religiões mais tradicionais; e o jogo do empurra de autoridades no que tange às responsabilidades ambientais, sociais e morais como nunca se viu – o Ocidente reclama da tirania e fundamentalismo do Estado islâmico, mas quem foi que vendeu as armas que eles utilizam em seus ataques terroristas? Acaso EUA, França, Inglaterra e todos os outros podem se isentar desta culpa? Criaram e alimentaram uma serpente de veneno letal que está à solta e fora de controle, pronta a picar seus próprios criadores. E agora, para onde vamos a partir daqui? Continuaremos a ver muros cair, literal ou metaforicamente

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Reprodução

Saturno faz três quadraturas a Netuno, nas seguintes datas: 26/11/2015, 18/06/2016 e 10/09/2016. Esta primeira fica exata apenas algumas horas depois do pico da Lua Cheia de Gêmeos e por isso mesmo, é super potencializada por essa lunação e já se manifestou de forma bem nefasta, nos atentados orquestrados por grupos religiosos fundamentalistas em várias partes do mundo e, particularmente no Brasil, pela ruptura da barragem da Vale/Samarco no Rio Doce, causando um desastre ambiental sem proporções, indelével para o ambiente e para as populações afetadas. A desintegração (Netuno) dessa barragem (Saturno), cheia de resíduos tóxicos (Netuno-Plutão), é também uma manifestação bastante literal dos princípios deste ciclo. No dia em que a barragem se rompeu, dia 05/11/15, à tarde, a Lua estava em Virgem, em oposição exata – ou muito próxima, dependendo do horário, não consegui descobrir a hora exata do desastre – a Netuno em Peixes e em quadratura a Saturno em Sagitário, formando uma T-Square Mutável, com Saturno de foco. A Lua é o corpo celeste mais rápido do nosso sistema e seus trânsitos não são vistos como particularmente impactantes no longo prazo, mas ela pode ser o gatilho que detona uma situação previamente montada, especialmente no caso de “desastres esperando para acontecer”, como era o caso. Ela vem e estimula, é a faísca que dá início à explosão num ambiente que já era altamente combustível. Os outros planetas rápidos, como Vênus, Marte, Mercúrio e ainda o Sol também podem funcionar como gatilhos ao acionarem e estimularem as configurações lentas, assim como as lunações e eclipses – e aqui temos muita sorte já que não teremos nenhum eclipse estimulando essa quadratura, porque apesar de o eixo nodal estar atualmente trafegando a polaridade Virgem-Peixes, ele está no fim da polaridade, enquanto Saturno e Netuno estão ainda no primeiro decanato de Sagitário-Peixes, signos da Cruz Mutável.

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Estes desastres, que são, na verdade, tragédias anunciadas, materializam o medo e a angústia que já vínhamos sentindo há meses e explicitam nossa profunda desesperança e desencanto diante de uma realidade sombria. Esse “mar de lama e de sangue” escancara nossa desilusão com políticas e políticos nos quais projetamos tantos anseios; cristaliza nosso desapontamento diante da promessa de felicidade fácil e infinita, porém fraudulenta, do modelo consumista que nos é vendido; desnuda o profundo medo do futuro do planeta em termos de recursos naturais, devido aos desmandos e inconsequências cometidos ao longo  de décadas ou séculos; anuncia tempos sombrios de retrocesso e de redenção duvidosa para a humanidade; reflete a decepção com lideranças religiosas de instituições diversas, especialmente das mais tradicionais… E nós sentimos isso na alma, de forma muito crua e visceral. Em nível individual, estamos inseguros, receosos, incertos; sentimos a atmosfera pesada e uma desesperança que anuvia a visão e nubla nossos horizontes de nuvens cinza-chumbo; duvidamos de projetos pessoais, duvidamos de nós mesmos, duvidamos do futuro e não acreditamos mais em nada nem em ninguém. Sentimo-nos como que atolados na lama, nós mesmos, sem conseguir nos mover, porque há momentos em que pareçamos estar numa areia movediça e qualquer movimento só nos fará afundar mais. Sentimo-nos péssimos por não poder dar esperança aos mais jovens de que “tudo vai ficar bem”, porque nós mesmos não o sabemos, ou nos sentimos pior ainda, por mentir deslavadamente insistindo na falácia do tal do protagonismo, palavra da moda que instila fervor proporcional à dificuldade de sua realização em larga escala. Indivíduos com planetas ou ângulos em signos mutáveis – Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes – sentem esse peso de forma mais aguda e intensa, especialmente quando o Sol, Lua ou ASC estão envolvidos. Indivíduos nascidos na década de 70 são encurralados por essa quadratura, porque vivenciam, ao mesmo tempo, a quadratura Netuno-Netuno, um dos movimentos simbólicos da crise de meia idade – ou seja, são pegos no meio do fogo cruzado, ou melhor dizendo, no meio desse lamaçal!

Agende uma consulta e veja os significados e transformações da quadratura Saturno-Netuno no seu mapa natal e na sua vida!

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Reprodução

O futuro imediato traz sim, muita incerteza: Saturno permanece em quadratura a Netuno por todo o ano de 2016 e em boa parte deste período temos o “caldo engrossado” por Júpiter em Virgem, que se opõe a Netuno e quadra Saturno, significando maior retração econômica, recessão e uma possível proliferação de estados depressivos e de desencanto. Saturno trafega Sagitário, signo de expansão econômica, cultural, religiosa e espiritual, signo regido por Júpiter. Saturno em Sagitário vem cobrar a conta da expansão irresponsável e inconsequente que tomou lugar nos últimos anos e décadas. A crise de 1929, marcada pela quebra de Wall Street e que deflagrou um período longo de recessão econômica no mundo todo, ocorreu num trânsito de Saturno por Sagitário, combinado com uma quadratura de Urano em Áries a Plutão, que trafegava na época o signo de Câncer, não por acaso, oposto a Capricórnio, signo que Plutão trafega atualmente, ou seja, temos a mesma quadratura Urano-Plutão nos céus atuais, que, embora não fique mais exata, ainda permanece em orbe de 3/4 graus por quase todo o anos de 2016. Portanto, os próximos dois anos e os ciclos em questão dão seguimento às transformações e despertamentos iniciados em 2008 e nos convidam a uma reflexão e revisão profundas e viscerais dos nossos sistemas de crenças, das estruturas religiosas, dos sistemas e estruturas de poder, do paradigma cientificista e ultra-racional que explora e subjuga a Natureza indiscriminadamente e dos modelos políticos e econômicos que nos levarão à falência do planeta se não forem modificados – aliás, já atingimos um ponto em que não há retorno, o que precisamos é tentar diminuir o impacto daqui para a frente. Contudo, é melhor este estado de espírito atual, em que finalmente “caiu a ficha” do que o oba-oba consumista em que vínhamos. Como diz Sri Sri Ravi Shankar, “É bom estar desiludido. Significa que você está fora da ilusão e veio para a realidade.” E isso é, essencialmente, trabalho de Saturno-Netuno.

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Neste cenário lúgubre, líderes religiosos que se auto-intitulam redentores e salvadores da pátria, novos messias, líderes fanáticos e fundamentalistas, falsos profetas e ilusionistas, como simbolizados por Netuno em Peixes, junto com seus grupos, seitas e facções ultra-conservadores e intolerantes quanto à fé alheia, tendem a proliferar feito erva daninha, angariando legiões de fiéis que se voltam para eles sedentos por um fio de esperança que seja, por alguma certeza e segurança, num mundo em que as certezas simplesmente deixam de existir.

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Claudia Lúcia McKinney – Reprodução

Netuno representa o estágio da Solutio na Opus Alquímica. Na Solutio o Rei (Saturno) precisa morrer e é uma morte por afogamento (Netuno). O velho ego, enrijecido e podre, precisa ser dissolvido. Assim, o Rei se afoga, sob o olhar atento do alquimista, que assiste a tudo da margem, sem interferir. O alquimista é a consciência, que sabe que o ego e suas couraças precisam morrer, se dissolver, se desintegrar. Como o alquimista, precisamos deixar este Velho Rei morrer e abrir mão de tudo o que ele representa, para que possa ocorrer uma renovação verdadeira, para que se possa renascer mais limpo e purificado. E se por ocasião da conjunção, lá em 1989, Saturno estava mais forte, porque estava em seu próprio signo, Capricórnio, agora acontece o oposto, é Netuno quem está mais poderoso em Peixes e Saturno está mais enfraquecido, visto que trafega um signo alienígena à sua natureza de constrição, o expansivo Sagitário.

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O Rei deve se afogar – Imagem Alquímica – Atalanta Fugiens – Michael Maier – século XVI – Reprodução

A quadratura Saturno-Netuno se dissipa no fim de 2016, porém Saturno faz também quadratura a Quíron e esses dois em conflito não representam muito alento também não. Além disso, em 2017 Saturno ingressa em Capricórnio. E o que tem Capricórnio? Ora, é o Retorno de Saturno de todos os eventos que ocorreram em 1989/1990, assim como para as pessoas nascidas naqueles anos, ou seja, Saturno fará conjunção à conjunção Saturno-Urano-Netuno que acontecia naquele período, enquanto Netuno faz quadratura ao mesmo ponto – quer dizer, a cobrança e o acerto de contas acerca destes modelos falidos e excessivamente idealizados continua.

yuumei deviantartO meu intuito aqui não é deixar o/a leitor/a deprimido/a ou assustado/a. É, antes, provocar uma reflexão. Eu também não tenho pretensão nenhuma de ter respostas prontas e de dizer o que vai ou não acontecer. Obviamente que estes ciclos se desdobram desde que o mundo é mundo e sobrevivemos até aqui, estamos vivos e contando a História – a diferença é que antes, o homem não tinha alcançado o poder bélico e industrial de que dispõe hoje. Voltando ao que eu dizia, não quero deixar ninguém ainda mais sem esperança, muito pelo contrário! Repito: quero provocar uma reflexão a respeito dos nossos modelos e paradigmas enrijecidos e falidos – eles precisam mesmo se desintegrar, se dissolver e ser purificados nas Águas Grandes de Netuno.  Precisamos deixar ir, porque com Netuno, é o melhor que podemos fazer, abrir mão, soltar o que não presta/serve mais para liberar-nos para o novo. Isso tudo não deve nos desanimar e fazer jogar a toalha, mas sim lavar-nos da indecência e dos pecados políticos, econômicos, sociais e ambientais que temos cometido, conscientizarmo-nos de nosso papel individual. Também quero lembrar que neste cenário soturno e nebuloso que temos diante de nós, temos a grande responsabilidade de vigiar e orar, de cuidar de nós mesmos e tentar minimizar ao máximo – perdão pelo trocadilho absurdo – nosso impacto negativo pessoal nesta conjuntura, ou, melhor dizendo, tentar contribuir qualitativamente com atitudes conscientes, de sobriedade no consumo de tudo, desde a água, a todos os recursos naturais, energia, produtos industrializados, etc; tentar melhorar nosso entorno primando pela integridade individual, para que consigamos causar, em algum momento, uma transformação na identidade cultural e coletiva neste planeta; viver de forma íntegra, correta, buscando melhorias não só para si, mas para o todo, para o mundo. Até porque, um dos motivos de chegarmos ao ponto em que chegamos é termos aberto mão de nossa responsabilidade pessoal, esperando que governos e estados tomassem conta de nós, numa fantasia de redenção absurda digna de infantes incapazes – aliás, talvez ainda sejamos infantes dependentes de um salvador que nos salve de nós mesmos! Se estamos revoltados e desalentados por Mariana, devemos nos mexer em nossas comunidades para que o mesmo não aconteça em outras barragens. Quantas centenas de barragens existem pelo Brasil afora? Nem todas são de resíduos tóxicos, mas ainda assim, estarão seguras? Porque não se começa um movimento, por exemplo, de averiguação técnica de todas as barragens no país? Vamos esperar acontecer de novo? Quantas mais são da Vale, que já se provou criminosa? São medidas práticas que precisam ser pensadas e acionadas, só para começar por um problema!

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Lairie Lipton – O quarto Cavaleiro do Apocalipse Reprodução

Em resumo, só iremos sair desse grande enrosco, dessa encrenca sem precedentes, quando nos conscientizarmos da nossa responsabilidade pessoal, quando nos dermos conta de que não há separação entre realidade e corpo físico, alma, mente e espírito – esse é o modelo da Era da Razão, que está sendo desmontado e desmantelado. Da mesma maneira, não há separação entre eu o outro, somos feitos da mesma matéria e substancia, viemos da mesma origem e para lá voltaremos. Quando nos dermos conta disso, de que eu e o universo somos um só, então teremos uma chance de transcender essa realidade bruta e limitada, teremos, finalmente, aprendido a lição!

Em termos práticos, essa configuração também sugere proliferacao descontrolada de vírus e bactérias, o que leva a epidemias e, às vezes, até mesmo pandemias.

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PARA REFLETIR – Jung, em Psicologia do Inconsciente – Foto tirada da Fanpage Despertar Coletivo – Reprodução

 

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Reprodução

Quem tiver curiosidade sobre os principais eventos do ano de 1989 na esfera mundial, dê uma olhada nessa Linha do Tempo da BBC: Linha do Tempo 1989

(1) Astrid Fallon – Planetary Cycles at a Glance – Booklet – Fallon AStro Graphics

Vênus-Saturno – Confiar para desabrochar

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Vênus em Virgem está em quadratura plena a Saturno em Sagitário e uma imagem me vem à mente: a flor de cacto.

O cacto é um dos vegetais mais autossuficientes que existem na natureza. É capaz de ficar longos períodos sem água, sobrevivendo da pouca umidade do ar. É uma planta da aridez dos desertos e caatingas do mundo. Suporta secas e escassez extrema de nutrientes, porque seu organismo é adaptado para lidar com a escassez. Tão adaptado que desenvolveu formas muito sofisticadas de sobrevivência e defesa. Seus espinhos, além de prover a defesa contra animais, também ajudam a armazenar água quando chove, tendo um aproveitamento máximo da umidade mínima. Enquanto outras plantas armazenam umidade na folhagem, o cacto não tem folhas e armazena a umidade e os nutrientes no próprio centro do caule, uma polpa super nutritiva a que muitos sertanejos já recorreram na caatinga para matar a própria sede.
cactoCom seus espinhos e aparência rústica, o cacto tinha tudo para ser uma planta feia, mas isso não é verdade. É, na verdade, uma planta graciosa em sua rusticidade, suas inúmeras espécies apresentando formas variadas, desde famílias minúsculas àqueles mandacarus gigantescos. E florescem! Linda e exuberantemente! Dão flores belíssimas, algumas, inclusive exalam um cheiro de podre pavoroso – outro mecanismo de defesa contra predadores potenciais que queiram extinguir suas sementes…

f695ae9ffaec1e1cae0dabaf3a1715ecVênus em Virgem é como um cacto: autossuficiente, adaptada para sobreviver na aridez do deserto, com poucos recursos e pouca atenção – ela se basta a si mesma, é dona de si. Quando colocamos Saturno na equação, estamos falando dos espinhos, um formidável sistema de defesas, que a protege contra os perigos. Mas aqui, esse sofisticado mecanismo de defesa é usado não só para defender sua integridade e autonomia, mas também os parcos recursos, conseguidos a duras penas. O indivíduo racionaliza que foi muito difícil chegar a esse ponto sozinho, sem contar com ninguém, além de si mesmo… Então, como vou abrir mão, não só de minha própria segurança e autossuficiência, como também disso que foi construído? O que o indivíduo falha em perceber, é que no caso, não se trata de divisão, mas de soma. Que se optar por manter-se completamente autossuficiente e defendido, será ótimo e se estará seguro, com certeza, mas se permanecerá na aridez do deserto e mesmo que a florada seja de grande beleza, os espinhos farão com que se permaneça intocável.

d0404340614e1212b49ad844c18fc63aAssim, Vênus-Saturno precisa entender que cria as próprias condições de solidão e “infelicidade” afetiva, por se manter fechada, defensiva, às vezes, inabordável. A rejeição intuída e tão temida, torna-se, portanto uma realidade. É preciso admitir que por mais eficientes que sejamos, não podemos prover tudo por nós mesmos e que, se ousarmos confiar o bastante que, assim como o cacto que tem espinhos mas também flores, a vida também se apresenta multifacetada: bela, sofrida, doce, amarga… Há prazer e há dor, há acolhida e há rejeição, há amor e há desamor… Teremos uma chance de romper o círculo vicioso de desconfiança que acaba por criar as condições que tememos. E assim é. A crença e vibração que alimentarmos, é a que se concretizará lá na frente. Então, não seria melhor abrir-se e confiar um pouco que somos também capazes de despertar amor, cuidado, devoção e instinto de proteção nos outros? Trata-se também de confiar em si, de perceber-se belo, amável, valoroso e perfeitamente merecer de admiração, afeto e amor. Somente a confiança em si mesmo e no outro pode nos fazer desabrochar plenamente. Sim, é preciso baixar a guarda para poder ser feliz, para variar.

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Vênus Retrógrado – A Síndrome do Patinho Feio

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O Nascimento de Vênus – Boticelli – Reprodução

Qual o significado dos planetas retrógrados em trânsito e no mapa natal? Neste artigo vamos falar da retrogradação de Vênus e o que isso simboliza na psicologia do indivíduo, além das mitologias associadas a este período e seus efeitos quando em trânsito.

Princípios Básicos da Retrogradação

Antes de falarmos do ciclo de Vênus, alguns princípios básicos precisam ser levados em conta quando se fala de planetas retrógrados:

a)      os Luminares Sol e Lua nunca ficam retrógrados;

b)      o movimento de retrogradação é uma ilusão de ótica que nos faz perceber o planeta deslocando-se para trás e isso acontece devido ao relacionamento do planeta em questão com o Sol, e devido às diferentes velocidades de rotação da Terra e dos demais planetas, assim, para os planetas interiores, Mercúrio e Vênus, a retrogradação ocorre em períodos próximos à conjunção inferior com o Sol, enquanto que no caso dos planetas exteriores (posicionados depois da Terra no sistema solar), a partir de Marte, o ciclo retrógrado está diretamente relacionado à oposição ao Sol;

c)       os planetas exteriores Urano, Netuno e Plutão, devido à lentidão de seu movimento e à distância do Sol, passam boa parte do tempo em movimento retrógrado e seu impacto no mapa natal é menos perceptível, a não ser que estejam próximos do ponto estacionário, quando adquirem ênfase especial, pois além de ter sua ação e significado realçados, provavelmente mudarão de direção nas progressões secundárias. Com Júpiter e Saturno não é muito diferente – aliás, de Júpiter em diante a retrogradação tem impacto mais definido em Astrologia Mundial e em Astrologia Horária e Eletiva;

d)      assim, os planetas cujo ciclo de retrogradação é mais perceptível em Astrologia Natal são Marte, Vênus e Mercúrio e considerando-se que Mercúrio fica 20% do tempo retrógrado (três vezes ao ano, em períodos de aproximadamente três semanas), isso não chega a ser tão traumático, com exceção de situações específicas em áreas regidas pelo planeta – o impacto também é menor porque certamente Mercúrio mudará de direção nas Progressões Secundárias. De forma que, em Astrologia Natal, os planetas cuja ação é alterada de forma significativa quando retrógrados são Vênus e Marte, dois planetas relacionados ao simbolismo do masculino e feminino. Vênus fica retrógrado cerca de 40 a 45 dias a cada 18 meses e Marte parece mover-se para trás de 60 a 80 dias, a cada 2,13 anos – Leia sobre Marte Retrógrado.

Vênus Retrógrado

Vários impactos são possíveis quando Vênus está retrógrada mas antes vamos entender o ciclo de retrogradação de Vênus e sua mitologia. RETROGRADAÇÃO é um movimento em que, do ponto de vista da Terra, o planeta parece se mover para trás. Na verdade, o planeta em questão não se move para trás, isso é uma ilusão de ótica causada pela posição do planeta em relação ao Sol. Cada planeta tem um ciclo de retrogradação diferente, que depende de sua distância do Sol. Como é um fenômeno que se dá diretamente por causa da relação dos planetas com o Sol, seus efeitos implicam questões que o ego precisa trabalhar no longo caminho em direção à inteireza e completude. No caso de Vênus essas questões têm a ver com amor, relacionamentos, sexualidade, valores, auto-estima, prazer,  beleza, arte, senso estético, gostos, dinheiro, gerenciamento dos recursos etc…

Gostaria de ressaltar que este texto é baseado principalmente no livro Retrograde Planets, de Erin Sullivan(1), um dos melhores e mais completos textos já publicados sobre o assunto, e também nas minhas observações com clientes.

Mitologia

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Urânia e Calíope – Simon Vouet – Reprodução

Sullivan começa o capítulo relacionado a Vênus chamando a atenção para a dualidade de Vênus e lembra o mito em que Afrodite nasce de Zeus e Dione, como duas deusas: Afrodite Urania, celestial, inteligente, espiritual, filha do pai e Afrodite Pandemos, das pessoas comuns, preocupada com a sensualidade e com a sexualidade, a filha da mãe. Poderíamos relacionar Afrodite Pandemos com o terroso signo de Touro, pelas suas características instintuais, alinhadas com o corpo, a fisicalidade e os cinco sentidos; já Afrodite Urania rege Libra e seus ideais estéticos, civilidade e racionalidade. Ela menciona esse mito porque ele é extremamente relevante para os períodos de retrogradação deste planeta, especialmente para a Conjunção Inferior.

A Proporção Áurea

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O Pentagrama formado pelo ciclo de retrogradação de Vênus

Vênus tem grandes ciclos de 8 e 243/251 anos. O seu ciclo menor é de cerca de 18/19 meses, ou seja, a cada 18/19 meses ele desaparece no céu para aparecer somente por volta de 45 dias depois. O seu ciclo de retrogradação é um dos mais raros, tanto que apenas cerca de cinco por cento de mapas natais apresentam Vênus retrógrado. Durante oito anos o planeta fica retrógrado apenas cinco vezes, cada vez num signo diferente, até voltar ao signo inicial. Quando traçamos e unimos as linhas através destes signos, um desenho se forma: uma estrela de cinco pontas, um pentagrama. O número cinco e o pentagrama têm uma simbologia que é, em si mesma, extremamente rica e tão antiga quanto o surgimento dos primeiros números. O número cinco é relacionado com a Proporção de Ouro, o Número Áureo ou Número de Ouro, uma proporção muito usada na arte e arquitetura e que é relacionada à letra grega PHI. Este número é extraído da Seqüência de Fibonacci, uma sequência de números naturais, na qual os primeiros dois termos são 1 e 1, e cada termo subsequente corresponde à soma dos dois precedentes: 0,1,2,3,5,8,13,21… Representa crescimento constante, estando envolvida com a natureza do crescimento em espiral geométrica perfeita, uma espiral encontrada exaustivamente na Natureza, como por exemplo no padrão de crescimento das conchas marinhas.

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Reprodução de Google Imagens

O número cinco relaciona-se também com o número de dedos das mãos e pés humanos, simbolizando a capacidade de entendimento e a  subseqüente capacidade de criação e realização a partir desta compreensão. Os estudos esotéricos associam o número cinco com a inteireza do mundo material. Sullivan diz que o padrão criado pelo ciclo de retrogradação de Vênus forma a base da Proporção de Ouro e esse número de ouro é ativado durante os períodos em que o planeta estaciona, direto ou retrógrado, a intervalos de 72 graus, que é a divisão exata de 360 graus do círculo perfeito. Quando se traça esse ciclo em detalhes minuciosos, ele forma uma imagem ainda mais bela: uma mandala que é a imagem de uma flor de lótus. Só isso já nos deixa extasiados com a simbologia e numinosidade deste ciclo. Mas tem mais.

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Cinco Conjunções Inferiores repetidas formam um pentagrama
Domínio Público – Ficheiros do Google

O ciclo mágico de Vênus retrata sua dança cósmica com o Sol e a Terra. Vênus nunca fica mais do que 48 graus distante do Sol. Quando atinge 45-48 graus à frente do Sol está no ponto máximo de elongação Leste e aparece linda e fulgurante no Céu noturno, como Hésperos, a estrela Vespertina, filho de Eos, deusa da alvorada. Então ele diminui velocidade e o Sol parece chegar mais próximo, até que estaciona a não de mais que 30° à frente do Sol. Este é o ponto estacionário-retrógrado SRx e lentamente ele começa a mover-se para trás, ou assim nos parece, até que se encontra com o Sol, quando se dá a Conjunção Inferior ou Conjunção Baixa. Essa conjunção é chamada de “inferior” exatamente porque está na mesma longitude do Sol, entre este e a Terra.

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O ciclo de Vênus – Domínio Público – Ficheiros do Google

Diz-se então que toma lugar um Casamento Sagrado, uma conjunção alquímica, entre o Sol, Vênus e a Terra, completamente oculto de nossas vistas, pois, estando tão próximo do sol, o brilho de Vênus desaparece e ele torna-se invisível para nós. Erin Sullivan olha para as culturas Asteca e Maia para explicar o que ocorre aqui, porque segundo ela, de acordo com todas as evidências, essas culturas Mesoamericanas entendiam verdadeiramente a retrogradação de Vênus, tanto em movimento quanto em simbolismo.  Ela menciona os estudos de Bruce Scofield sobre os painéis de El Tajin (México) que começam com Vênus como a Estrela da Noite. Ele diz que na fase retrógrada Vênus “toma a forma de um homem e anda pela Terra”(2). Então ele (Vênus) encontra a deusa do amor Xochiquetzal e a faz quebrar suas promessas de pureza… A partir daí as noites de Vênus são regadas a música, dança, bebida e amor e ele se casa com a deusa. Dessa união surge um monstro e o jogo passa a ser no mundo inferior, jogo que Vênus perde e por causa disso ela/ele deve ser morta pelo Sol. Ele/Ela é de fato sacrificada pelo Sol, mas renasce depois como Estrela da Manhã, na forma feminina.

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Xochiquetzal – Repodução de Google Imagens

Depois dessa união cósmica, certamente ela, Vênus, não será mais a mesma. Depois da Conjunção Inferior, o planeta vai ficando para trás do Sol, até que quando chega a aproximadamente 10 graus atrás do sol, alguns dias depois da conjunção, ele finalmente começa a aparecer no céu novamente, como a Estrela Dalva, a Estrela da manhã. Ao atingir cerca de 30 graus atrás do Sol, estaciona novamente e retorna ao movimento direto. Apesar do movimento direto, Vênus ainda está lento e após um mês ele atinge o ponto máximo de elongação ocidental ou Oeste, atrás do Sol cerca de 45 a 48 graus, neste ponto ele é associado a Eósforo (Fósforo), também filho da deusa da Alvorada e irmão de Héspero. Pouco mais de nove meses depois, metade do ciclo de 18-19 meses, ocorre a Conjunção Superior, chamada assim porque desta vez, é o Sol que fica no meio entre a Terra e Vênus.

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O “Dresden Codex” maia, que calcula as aparições de Vénus. Domínio Público – Ficheiros do Google

Vênus Retrógrado no Mapa Natal

A simbologia de todo este ciclo é muito rica e profunda. Vênus representa nossa capacidade e necessidade de socialização, de dar e receber afeto, nossos valores, auto-estima…  Assim, uma das características mais recorrentes quando o indivíduo tem Vênus retrógrado no mapa natal é a androginia psicológica. Isso é simbolizado pela a Conjunção Inferior, quando Vênus funde-se tanto com o Sol quanto com a Terra, incorporando as qualidades celestiais de Urania (Sol) e as qualidades terrosas e instintuais de Pandemos (Terra), qualidades femininas e masculinas; é simbolizado ainda no mito Mesoamericano, quando Vênus se torna masculino enquanto dança com a deusa Xochiquetzal.

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Conjunção Inferior de 11 de janeiro de 2014, em Capricórnio
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Vênus – Reprodução de Google Imagens

Isso quer dizer que a pessoa tem um senso de completude e inteireza, sendo emocionalmente independente e livre, com um corpo de valores morais e estéticos muito próprios e completamente independentes dos valores sociais vigentes. Mas isso é algo que só vem com o tempo, porque até que a pessoa aceite e viva a partir desse código próprio e aceite a si mesma como diferente, ela passa por muita confusão e senso de inadequação e estranheza. Obviamente, sua relação com o corpo também é muito particular e Sullivan ressalta que essas pessoas “freqüentemente têm dificuldade de separar suas próprias necessidades daquilo que é esperado delas, então elas se retraem, seja numa negação ascética das necessidades corporais e demandas viscerais, seja nos aspectos sensuais da vida (…) As manifestações possíveis são inúmeras mas variam de relacionamentos múltiplos a praticamente celibato. A forma de expressar afeto é diferente dos modelos vigentes, e a pessoa tende a ser emocionalmente mais reservada”.

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A Flor de Lótus, padrão formado por sucessivos ciclos de retrogradação de Vênus – Reprodução de Google Imagens

Outro dom de Vênus retrógrada é a criatividade infinita, relacionada desta vez com a simbologia do número cinco e do Número Áureo. Nascer com Vênus retrógrada ou estacionário, diz Sullivan, “significa uma conexão poderosa com este Número de Ouro. A natureza introvertida e contemplativa desses indivíduos é altamente imaginativa e deve achar maneiras de externar o metafísico através do físico”.  Essas pessoas vivem normalmente à frente do seu tempo, ou num tempo diferente de sua época e seu senso estético pode ser totalmente avant-garde, lançando moda e ditando tendências, ou completamente incompreendido. De um  jeito ou de outro, eles precisam achar canais de expressão para toda essa imaginação e criatividade e assim, o mundo das artes está cheio deles.

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Reprodução de Google Imagens

Particularmente, relaciono Vênus retrógrado no mapa natal com o que chamo de a “Síndrome do Patinho Feio”. A pessoa normalmente se acha e se percebe muito diferente da família de origem, tendo dificuldade de abraçar seus valores e tradições. Sua relação com o corpo também pode ser complicada e a pessoa pode se achar feia ou sem atrativos, pode ser vítima de bulling na família e na escola por ser tão diferente e “estranha”. A pessoa pode também se sentir não amada, ou sentir que por algum motivo não é digna de amor. Assim como o patinho feio, ela pode sentir-se uma estranha no ninho e clientes já confirmaram em consulta que chegavam a suspeitar terem sido adotados, tal o nível de diferenciação dentro de suas famílias.

A sexualidade é outra questão que pode ser tabu no início da vida, quando o indivíduo ainda não consegue pensar por si mesmo e não consegue compreender a si próprio e às suas emoções e formas de sentir, tão diferentes do que é considerado “aceitável” no meio em que vive. E há ainda relatos de abusos sexuais, embora isso não seja regra. Contudo, como todos sabemos, a estória do patinho feio termina bem. O patinho não é um patinho, é um cisne, cujo ovo foi perdido pela mãe-cisne e adotado pela mãe-pata. Ao crescer torna-se um cisne belíssimo e vai em busca de sua própria “turma”. Gradativamente o indivíduo vai percebendo que apesar de se sentir “diferente” isso não necessariamente quer dizer “errado” e, se estiver no ambiente adequado, pode aprender a se aceitar como é, manifestando seus melhores potenciais. Se este ambiente não é tão favorável, mesmo assim, funciona como motivador e catalizador para que a pessoa parta numa busca ou saga de auto-entendimento fora dali. O caminho dessas pessoas nunca é fácil, mas certamente é muito rico e profundo, assim como a simbologia do ciclo Venusiano.

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Dimitar Voinov – Reprodução de Open Art Group

Vênus Retrógrado em Trânsito

Quando Vênus fica retrógrada em trânsito, “algo misterioso toma lugar, uma reformulação da ordem natural, um retorno a um lugar ideal onde tudo o que é manifesto pode parecer com uma replicação simplificada da perfeição cósmica”(3). Assim como o planeta desaparece de nossas vistas, recolhendo-se para um lugar desconhecido e misterioso, que nossa limitada percepção não consegue alcançar, assim também, de certa forma nos recolhemos. Nesse tempo de introspecção sutil – sim, porque precisamos continuar funcionando no mundo – ocorre uma reavaliação interna dos nossos valores; dos nossos relacionamentos e da reciprocidade existente ou não neles; de nossa auto-estima. Porém, como a retrogradação de Vênus é uma das mais inconscientes, é possível que nem percebamos o que ocorre, e então, nos pegamos rompendo relacionamentos amorosos ou de amizade, sentimo-nos isolados, diferentes. Como em tudo o que é cíclico, não há começo ou fim, apenas uma espiral evolucionária, em que a cada vez em que o ciclo é ativado, ele ressoa a partir de todos os outros, pois são inseparáveis e falam dos mesmos temas, seja no passado ou no futuro. É útil então olhar para os ciclos anteriores e recordar o que ocorria no período. Vale a pena refletir sobre o que era importante para você naquela época, quais eram seus valores, a quantas andava sua auto-estima, como estavam seus relacionamentos, como estavam suas finanças… Essas perguntas adquirem mais significado se você souber em que área do seu mapa natal esse trânsito ocorre e se a conjunção Inferior faz aspecto com algum planeta no mapa.

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Kairos – Francesco Salviati – Wikimedia – Reprodução

Em termos práticos, de modo geral, quando Vênus está retrógrada, é aconselhável um retiro estratégico, uma desaceleração da vida social para que as condições para as mudanças sutis que precisam ocorrer sejam favoráveis e para que nos sintonizemos com nosso mundo interior. Assim, ao invés de reclamar de solidão, dê-lhe boas vindas e faça aquelas atividades para as quais nunca tem tempo por causa do frenesi da vida diária; procure a Natureza e contemple-a em meditação passiva (parado) ou ativa (com movimento). Medite sobre a qualidade dos seus relacionamentos; reveja seus valores – eles continuam a refletir quem você é ou quem está se tornando? Reveja sua relação com o mundo e com seus recursos materiais; reveja sua relação com os assuntos da casa em que Vênus trafega atualmente (* veja relação básica abaixo). E reveja o que acontece com o signo em questão no seu mapa individual, se há planetas ou pontos importantes e como você se relaciona com estes arquétipos e princípios.

(*)Vênus retrógrada em trânsito leva a questionamentos nos assuntos da casa em que trafega. Veja os significados básicos das casas do mapa natal:

Casa 1 – O Eu, a forma como você vê a vida em geral, como é visto  pelas outras pessoas, sua identidade

Casa 2 – Valores, recursos materiais e imateriais, talentos, dinheiro, como você ganha e como gasta dinheiro

Casa 3 – Comunicação, educação, irmãos, ambiente imediato, viagens curtas

Casa 4 – Família, o clã, o Pai, o lar, a casa, o passado familiar, as origens

Casa 5 – Criatividade, auto-expressão, artes, recreação, lazer, romances, jogos, como você relaxa

Casa 6 – Trabalho cotidiano, emprego, serviço, corpo, saúde, rituais diários, animais de estimação

Casa 7 – O outro, relacionamentos, casamento, parcerias afetivas ou profissionais, litígios,

Casa 8 – Transformação, renascimento, sexualidade, o que se partilha na intimidade, os valores e o dinheiro dos outros

Casa 9 – Educação Superior, filosofia de vida, fé, religião, viagens longas, outras culturas

Casa 10 – Imagem Social, seu papel no mundo, vocação, carreira, a mãe.

Casa 11 – Amigos, networking, projetos de longo prazo, associações diversas.

Casa 12 – O inconsciente pessoal e coletivo, Carma, motivações escondidas, redenção

(Leia sobre Marte Retrógrado)

Referências bibliográficas

(1), (2), (3) – Retrograde Planets – Traversing the Inner Landscape – Erin sullivan – Samuel Weiser, 2000.

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Vênus em Câncer: parteira e mediadora.

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Arnold Böcklin – Venus Anadyomene Venus   elevando-se do mar Reprodução

Assim como em Virgem, Câncer é outro posicionamento de Vênus pouco explorado e sujeito a clichês e frases feitas: boa cozinheira, grudada na mãe, sensível e cuidadora, sentimental, etc., etc. Mas será que é só isso? Confesso que tendo eu mesma Vênus em Câncer – e eu adoro minha Vênus! – essas definições sempre me frustraram. Não porque não sejam verdadeiras – olha, pode apostar que eu sou uma excelente cozinheira, algumas das minhas especialidades são famosas aqui pelas bandas de Cuiabá, quem provou que o diga – mas porque acho que são superficiais, só contam parte da história.

Câncer é sim, um signo romântico, sensível e compassivo, de natureza introspectiva e de sentimentos profundos. Vênus aqui busca vínculos duradouros, expressa afeto cuidando e nutrindo de formas diversas, fazendo o outro sentir que pertence, seja ao redor de uma mesa abundante, seja ao oferecer compreensão e colo num momento difícil ou mesmo através do riso compartilhado – sim, ela tem humor! E você já viu coisa que favoreça mais o criar laços do que o riso compartilhado? Rir junto das mesmas coisas definitivamente une as pessoas, às vezes mais do que compartilhar momentos tristes ou lágrimas (1).

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Erika Craig – Reprodução

Tímida, quando atraída por alguém, vai “comer pelas beiradas” e dificilmente usará a abordagem direta – a não ser que haja outros posicionamentos no mapa indicando o contrário – por receio de se machucar. Sim, pode ser um posicionamento defensivo e o receio de se entregar existe porque o indivíduo sabe que uma vez entregue, não tem volta: a entrega é profunda, por inteiro, corpo e alma – daí a necessidade de se preservar, porque da mesma maneira, se a entrega é tão profunda, as marcas serão indeléveis e caso a relação dê errado, será muito difícil se desvincular e superar a perda. Não existe estar “mais ou menos envolvido com alguém”, ou se envolve ou não – algo muito diferente da Vênus Geminiana. Vulnerável, vai fazer muito para esconder o que realmente sente para não se expor e só se revelará realmente se se sentir em águas seguras.

homem e mulher
Reprodução

Segurança emocional, vínculos duradouros, pertencimento, compaixão, intimidade profunda são certamente valores desta Vênus tão tenaz quanto sensível. Mas para além dos vínculos afetivos e dos sentimentos profundos, o que mais expressa e significa essa Vênus? Vênus em Câncer, diz Liz Greene (2), é uma parteira, uma mediadora que se conecta com os reinos oceânicos da imaginação e que busca trazer à luz e dar forma a essa riqueza oceânica de imensa e infinita criatividade. Ela tem uma conexão profunda com esses tesouros ancestrais e oceânicos e quer ser amada de maneiras várias que a ajudem a manter essa conexão, a trazer toda essa fecundidade à luz, que a ajudem a ser essa parteira que dá vida a esses elementos incorpóreos, a mediar os reinos invisíveis para o reino do visível. Dar forma à incomensurável criatividade e imaginação. Esse é o seu valor mais profundo: a fecundidade da natureza e da vida, por isso seu instinto de proteção é tão aguçado.

Robert Hagan, Australia
Robert Hagan, artista australiano – Reprodução

Câncer é regido pela Lua e Lua e Vênus têm muitas afinidades: as duas querem vinculação, as duas são gregárias, portanto, não é à toa que a Lua está exaltada em Touro. A Lua é o luminar que representa tanto os sentimentos quanto o corpo, e em Câncer, Vênus conecta-se de forma visceral, tanto a partir do sentimento quanto a partir do contato físico, do corpo – daí sua sensualidade também enorme, embora não tão explícita quando em Touro – porque o corpo é o templo do sentir e através do qual, sendo ela parteira, tantos “filhos” e criações são paridos, sejam filhos de carne e osso, sejam eles poemas derramados, canções enlevadas ou telas carregadas de sentimentos, não importa, o importante é que serão conteúdos que tocam o cerne da alma das pessoas de uma forma difícil de definir – como indefinível e misteriosa pode ser também essa Vênus.

Reprodução
Reprodução

Câncer é o signo também da memória e aqui Vênus guarda lembranças preciosas de todas as relações. Gosta de guardar objetos de valor sentimental e às vezes pode ser difícil se desfazer deles, assim como pode ser difícil esquecer os amores. Há grande dificuldade de se desapegar dessas recordações palpáveis, como cartas, presentes, bilhetes, uma flor, um artefato qualquer que lembre aquele encontro ou aquele dia especial… E como tal, vai ter dificuldade de dizer adeus, apegada a todas essas lembranças. Às vezes, Vênus em Câncer luta para esquecer um amor que não deu certo, uma relação desfeita, mas sabota a si mesma porque apega-se ao próprio sofrimento, porque paradoxalmente sente que depois de tudo terminado, o sofrimento que restou é a única coisa que a liga ao bem amado, agora fora do seu alcance… Até que ela perceba que se apega ao sofrimento como forma de manter viva a memória do amor perdido, chorará rios de lágrimas, delongando, desnecessariamente, sua dor. É, definitivamente desapego não é o seu forte (2).

Reprodução
Reprodução

Dependência emocional pode ser um problema, mas apenas se o indivíduo não descobriu e solidificou um senso de valor e auto-estima próprios; se a parteira não está de fato trazendo `à luz vida nova, se não é a medium, o canal que contribui de uma forma toda sua com a beleza no mundo. É necessário manifestar o potencial criativo, sentir-se fecunda e doadora de vida, sentir que tem valor em si mesma, independente do outro estar ou não na sua vida. Porque dependência emocional e apego estão diretamente relacionados com falta de autoconfiança e de auto-estima sólida e saudável. A dependência também é equilibrada caso haja Fogo e Ar suficientes no mapa ou um Saturno ou Urano fortes para contrabalançar uma possível necessidade excessiva de vinculação, se for o caso – para traçar um retrato completo de Vênus, ou de qualquer outro planeta, sempre é preciso levar em conta signo, casa e os aspectos. Vênus em Câncer ligada a Urano dá uma coloração bem diferente, assim como aspectos a Plutão ou a Saturno, e assim sucessivamente.

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Christian Schloe – Voyagem – Reprodução

Em termos práticos, Vênus em Câncer costuma gastar dinheiro criando um lar aconchegante, agradável, um verdadeiro ninho, já que tem talento de sobra para tanto e se outros aspectos no mapa concordarem, pode até dispensar o decorador. Pode ser sim, ótima cozinheira e cuida dos outros nutrindo-os literal ou figurativamente, mas isso também vai ser expressão dessa conexão com a natureza profunda das coisas, um ato criativo que se disfarça de prosaico. Segurança financeira é importante, tanto quanto a emocional e dependendo do resto do mapa, também pode ser ótima poupadora, tendo um feeling admirável para saber a hora de investir e a hora de esperar.

Vênus trafegando por Câncer favorece especialmente aos Cancerianos de Sol, Lua ou Ascendente. É um período propício para dar uma repaginada no visual, para encontrar amigos e ganhar presentes; para embelezar o lar e fortalecer os laços amorosos.

E você, que tem Vênus em Câncer, se reconheceu nesta descrição? Deixe aqui seus comentários!  E viva essa Vênus romântica, mas também extremamente rica, possuidora de grandes tesouros escondidos, inescrutáveis e inefáveis!

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Reprodução de Journeytothegoddess

Fontes:

(1) Sue Tompkins – The Astrologers Handbook – Flare Publications

(2) Liz Greene – Venusian Mysteries – Seminário proferido no CPA, no Outono de 2009, Londres, UK

(3) Stephen Arroyo – Chart Interpretation – ACRCS Publications