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Lua Nova em Gêmeos – O mosaico da verdade

A Lua se renovou nesta quinta-feira, a 04°46 de Gêmeos, às 16h44min no horário de Brasília e às 20h44min no horário de Lisboa. É uma Lua Nova que ocorre em meio a muita tensão e perigos, devido à oposição Marte-Saturno que fica exata na semana que vem, mas que já incendeia os ânimos e, no caso do Brasil, literalmente.

Lynn Skordal – Reprodução

Em Gêmeos nos deparamos com a necessidade de criar conexões, de fazer associações de ideias; buscamos o movimento e as interações. Sendo signo de Ar, Gêmeos também é um signo relacional – não no sentido afetivo, claro, mas no sentido da necessidade de conexões, de contato. É um signo de comunicação e conhecimento e seu ciclo nos convida a olhar mais de perto como estamos agindo nessa área da nossa vida. É o momento, então, de renovarmos nossa comunicação, nossos contatos, a relação com o nosso ambiente imediato. É hora de lançarmos intenções relativas à busca do conhecimento e da superação das dualidades.

Lua Nova em Gêmeos – Brasília, 25 de maio de 2017, 16h44min

O mapa da Lua Nova, traz Lua e Sol em sesqui-quadratura – um aspecto considerado menor, de 135 graus – a Plutão, sendo este o aspecto mais próximo. Além deste, Sol e Lua ainda vão fazer trígono a Júpiter em Libra e quadratura a Netuno em Peixes, ambos os aspectos de quase dez graus, muito amplos. De modo que a Lua Nova ocorre de forma relativamente isolada, o que aumenta o potencial de dualidade e ambivalência do signo, além da extrema atividade mental e verborrágica. O diálogo mais intenso dos luminares é mesmo com Plutão, o Deus dos Infernos e dos processos de transformação, mas esse é um diálogo bastante indireto, pois a mente racional e consciente parece não querer ter muito a ver com a sombra, com a obscuridade densa representada por Plutão – tenta ignorar, mas mesmo assim não se vê capaz. A busca pelo controle e pelo poder é feita pela via sinuosa, oblíqua, através, principalmente, do medo e das medidas ditatoriais, disfarçadas de zelo pela ordem e pelo bem estar do outro – é o típico “faço isso pelo seu próprio bem”, enquanto cerceamos a liberdade do outro, quando na verdade estamos com medo dele. Mais do que nunca, a direita não sabe o que a esquerda faz e acusam-se mutuamente dos mesmos crimes – estou falando do ditado popular associado a Gêmeos, mas bem que isso pode se aplicar à polarização extrema que se dá no país atualmente!

Lola Dupré – Reprodução

Somos pressionados por Plutão, inconscientemente, a transformar nossos contatos, nossas conexões, nossa comunicação, nossa relação com o conhecimento e com os fatos. Mercúrio, regente da Lua Nova, também faz contatos distantes a alguns planetas: sextil a Netuno, trígono a Plutão, quincôncio a Júpiter. Mas está em sesqui-quadratura exata a Saturno em Sagitário. Aliás, é interessante notar que esse mapa – e a semana – está cheio de sesqui-quadraturas, um aspecto dito inconsciente, mas precipitador de acidentes e eventos. O aspecto Mercúrio-Saturno exige que confrontemos a verdade dos fatos e, se não o fizermos, as inseguranças continuarão a nos afligir. Mas o complicado é que estamos num momento difícil de identificar o que seja a verdade, porque parece que ela se multiplica e se desmembra, se fragmenta em muitos pedaços, formando mosaicos, ao invés de uma única imagem incorruptível.

Reprodução

Às vezes, tudo o que temos são os mosaicos, que demandam distanciamento, para que a imagem inteira possa fazer sentido: se ficamos próximos demais, perdemos a perspectiva e não conseguimos divisar nada claramente; se olhamos de muito perto, só acessamos uma parte do todo, que por mais que seja correta, não conta a história toda e essa é uma das dificuldades de Gêmeos: perder-se nos detalhes, nos fragmentos, falhando em captar a visão inteira, o quadro maior. Portanto, para analisarmos os fatos e termos um vislumbre que seja da verdade, é preciso distanciamento e nenhum envolvimento. Do contrário, talvez sejamos parciais. E nosso julgamento não será útil nem fidedigno para tomar as decisões que precisamos tomar. É como montar um quebra-cabeças: demanda tempo e paciência, especialmente quando não temos a referência da imagem que está sendo montada. E por vezes, perdemos a referência da imagem por concentrar-nos no exterior e esquecer do que está dentro, da nossa sabedoria interna.

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Gêmeos também é um signo de dualidade, de ambivalência e com a Lua Nova sem muitos aspectos próximos essa qualidade fica acentuada. Sobram polarizações e dualismos, em que dividimos o mundo em preto ou branco, bom ou mau, quem está comigo e quem está contra mim – essa característica não é muito alentadora, quando lembramos que este cenário de dualismos já está instalado no Brasil há algum tempo. Enquanto isso, muita gente se beneficia e lucra com as polarizações, que no fundo desviam a atenção dos temas mais cruciais e, enquanto pessoas se atacam mutuamente, os responsáveis pelo caos vão se safando da confusão que criaram e criam.

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Mas além das questões sociais, políticas e coletivas, internamente, há também essa sensação forte de fragmentação, de estarmos estilhaçados e termos dificuldade em fazer sentido do todo que somos nós e este é um sentimento que pode permear todo o ciclo Geminiano, prejudicando o foco nos objetivos e aumentando a busca incessante por coisas fora de nós, quando deveríamos nos concentrar na imagem interior central. As racionalizações são favorecidas, em detrimento da integração dos sentimentos e emoções – temos apenas Netuno e Quíron em Água e não são planetas pessoais, Quíron, aliás, é asteroide – muito Fogo (Vênus, Urano, Saturno) muito Ar (Lua, sol, Marte, Júpiter) e uma quantidade razoável de Terra (Plutão e Mercúrio, sendo Mercúrio planeta pessoal, tem peso maior). Então é muito Ar e Fogo junto, o que alimenta o espírito e a mente racional, mas ignora os instintos e os sentimentos, que podem irromper abruptamente e minar o controle rígido da mente.

Simona Bramati – Reprodução

Por outro lado, Vênus está em quadratura exata a Plutão, que nos obriga a confrontar nosso lado mais passional e visceral e isso cria mais um dilema, vivido principalmente nas relações, mas com grandes chances de imputarmos esses conteúdos densos e instintivos no outro, já que estamos muito identificados com a racionalização objetiva e limpa. O outro se torna então o controlador e o possessivo, talvez até tirano, e não percebemos que são nossas atitudes que precipitam esse controle do outro e, na verdade, ao incorrer no nosso caos pessoal, nós invocamos tal controle, como o extremo da polaridade.

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Contudo, o movimento que rouba o show e carrega essa Lua Nova de tensão é a oposição Marte-Saturno, o pico de um ciclo iniciado em agosto de 2016 – ensaiado já em 17 de abril/2016, quando Marte estacionou para entrar em retrogradação, a 08°54’ de Sagitário, a cerca de sete graus de Saturno, que estava no grau 15. Como eu falava no texto da Semana, na conjunção de 24 de agosto de 2016 ambos os planetas haviam acabado de voltar do movimento retrógrado. Essa conjunção ocorreu em conjunção também a Antares, uma estrela considerada maléfica e precursora de catástrofes. De lá para cá, de fato, muitas catástrofes aconteceram, literal e figurativamente – especialmente nos meios políticos e sociais. A conjunção também aconteceu como foco de uma T-Square mutável, que tinha como base a oposição Mercúrio-Netuno – muita confusão e julgamentos errôneos, levando a ações precipitadas, alimentadas também por medos e inseguranças. Agora a oposição ocorre também numa T-Square, só que dessa vez, Marte-Saturno formam a base da T-Square, da qual Quíron é o foco. Outra coisa importante é que Marte está atualmente Fora de Limites, tornando-se mais primitivo e reativo. Esse cenário é bastante perigoso, tanto nas relações e situações pessoais, quanto nas questões sociais e coletivas que estamos vivenciando, porque mais uma vez dá margem a polarizações e extremismos, em que um se vê cerceado pelo outro, que é visto então como o próprio demônio encarnado. Além disso, classicamente, Marte em tensão a Saturno, aponta para a ofensividade, agressividade, repressão violenta da ação individual, que por sua vez, gera uma contrarreação mais violenta ainda, tudo isso temperado e catapultado por muita irritação, frustração e sensação de impotência e impedimento – dá para se ter uma ideia do resultado, certo?

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Essa oposição fica ativa por cerca de dez dias, mas terá repercussões por todo o ciclo, já que estava ativa na Lua Nova. Portanto, há que se ter muita paciência e tolerância para que divergências não enveredem por bate-bocas e não descambem para agressões literais e físicas. A frustração é maior porque Gêmeos, signo trafegado por Marte, tem a ver com movimento e deslocamentos e isso requer de nós muita prudência, especialmente no trânsito e nas comunicações – Marte-Saturno é um aspecto famoso por acidentes causados por frustrações.

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Por outro lado, a sensação de impotência pode trazer a chance de exercitarmos a humildade e rever nossos desejos – sempre que Marte é bloqueado por Saturno, somos questionados novamente sobre a validade dos nossos desejos e quereres: realmente queremos aquilo pelo que lutamos? Ou será que estamos numa luta mental egoica, por coisas que nem alimentam nossa alma e nosso coração? O “inimigo” geralmente é o nosso melhor mestre e cabe a nós nos questionar, dentro de nossa própria vida, o que os entraves e bloqueios e o “inimigo” estão tentando nos ensinar. Por que continuar na polarização? Por que não perceber que o “inimigo” é parte de mim? Que os adversários ou opositores são pedaços importantes do grande mosaico que compõe aquilo que sou?

Diagrama de Descartes sobre o dualismo – Reprodução

O Símbolo Sabiano para o grau 5 de Gêmeos (04°46’) traz uma imagem que corrobora essa análise: “Uma revista revolucionária pedindo ação, exibe uma capa sensacional”. Dane Rudhyar, que analisou extensivamente os Símbolos Sabianos, diz que a nota básica deste símbolo é “a tendência explosiva dos sentimentos reprimidos e emoções viscerais”. Ele nos lembra do perigo das polarizações, em que sempre que privilegiamos um lado, em detrimento de outro, mais cedo ou mais tarde invocamos um movimento contrário no extremo oposto, queiramos ou não. E isso enfatiza a qualidade dual da mente, simbolizada por Gêmeos. “Aquilo que está atado rigidamente à forma e à convenção, pode explodir na ausência completa de formas, seja através da revolução ou, psicologicamente, nas psicoses”, diz ele. “Se a ação revolucionária é violenta ou pacífica, amargamente ressentida ou amorosa, o único desejo é ir além das formas estabelecidas”, completa ele – alguma semelhança com o atual estado de coisas?

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Linda Hill, astróloga australiana, também especialista em Símbolos Sabianos, ao analisar o mesmo símbolo diz o seguinte: “Às vezes, a fim de ser levadas a sério ou serem notadas, as pessoas precisam fazer ou dizer algo estimulante, radical ou fora do comum, especialmente quando há uma necessidade, ou um desejo, de mudar as coisas. Há provavelmente um forte sentimento de que a ‘ação’ deve ser tomada – lembre-se, no entanto, de que o status quo pode ser muito difícil de despertar, mudar ou alterar. Como esta é uma “Revista Radical” pode levar a movimentos que são perturbadores ou mesmo ameaçando a estabilidade e segurança em alguma medida. Além disso, a ‘ação’ que está sendo solicitada pode levar a resultados aquém dos desejáveis. Os eventos que se desenrolam podem ser muito carregados emocionalmente” – novamente: qualquer semelhança NÃO é mera coincidência! Ela ainda acrescenta que há propensão a reações exageradas e dramáticas, notícias e mensagens chocantes, revolução, necessidade de reforma, teorias de conspiração, comportamentos ultra-egoístas.

Il segno dei Gemelli nella Rotonda dello Zodiaco – Orodé Deoro – Reprodução

Concluindo, este é um ciclo de muita racionalização e dualidades, que vai requerer de nós um distanciamento desapaixonado para conseguirmos ver a imagem maior do quebra-cabeças que precisamos montar e do mosaico que é a nossa alma, no momento bastante perturbada e conturbado pelas convulsões individuais e sociais. Num sentido mais prático, é hora de lançar as intenções referentes aos assuntos da casa onde você tem Gêmeos no seu mapa natal, além de buscar melhorar a comunicação e renovar as ideias e conceitos nessa área! E já que Gêmeos é o signo da palavra, vale escrever e verbalizar – apenas para você mesmo – o que você deseja realizar neste ciclo, quais são seus objetivos e incluir os detalhes práticos que serão necessários para a realização de tais objetivos! As metas serão muito importantes para mantermos o foco e juntar as diversas partes do grande mosaico que somos nós!

Um ótimo e feliz ciclo para você!

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Mãe: padecer no paraíso?

Mãe
Do Google Images – Reprodução

Vênus está em Câncer neste dia das mães (10/05/2015), parecendo favorecer a celebração desta data tão importante para a cultura ocidental. Como eu dizia no post sobre Vênus em Câncer, este é um posicionamento que nos remete não só à figura da Mãe, mas também à da parteira, aquela que ajuda a trazer vida nova ao mundo, aquela que media a vida, que tem um pé no outro mundo, já que vai lá agarrar a criança do “outro lado” da fronteira, na dimensão da pré-vida, para trazê-la para o mundo da encarnação e da matéria, sejam estas crianças de carne e osso ou feitas de qualquer outro material que não a carne humana.

Neste artigo uma leitora comentou algo que achei muito pertinente e que trago aqui: “Não tenho duvidas que para canalizar positivamente esta posição (Vênus em Câncer) é preciso muito labor quanto à construção da sua própria identidade. Assim temos um reposicionamento: saímos do cuidado infantil, super protetor e dependente, para de fato construir-se num lugar de cuidado maduro, ainda compassivo, mas firme e seguro com o outro. Penso que a figura simbólica da parteira que você utilizou no aprofundamento desta posição foi também tão adequado para este momento: final de semana do dia da mães. Em termos sociais e políticos há uma discussão intensa sobre as novas configurações familiares e seus papeis, sobre o papel da maternar que não precisa ser somente de um gênero, da importância de se dispor a conhecer uma nova lógica de cuidado na saúde, enfim toda uma ampliação de conceitualização sobre cuidar. De fato uma re-significação.” Sim, Taís, concordo com você. A maternidade e a nova família em suas diversas configurações precisam vir para a pauta do dia, precisam ser discutidas. Por outro lado, a maternidade, per si, é uma prerrogativa da fêmea, assim como a doação do semen é prerrogativa do macho. Falo do ato de gerar e de parir e seus desdobramentos, no caso da mulher, na espécie humana, sobre a vida e a psique femininas.

Catherine Abel
Catherine Abel – Reprodução

As configurações deste domingo das mães parecem dar pano pra manga para adensar esta discussão. Eu diria que são, no mínimo, provocativas. A Lua em Aquário é a menos maternal das Luas, desejando se expressar de forma livre e desprendida, livre de responsabilidades amorosas, desapegada e distanciada. Busca maternar a humanidade e não a um filho carne da sua carne, sangue do seu sangue (estou falando de um arquétipo puro, no casa de Lua natal, obviamente essa Lua sofre a influência de aspectos e o resto do mapa também deve ser levado em consideração). Vênus em Câncer, que poderia ser super maternal e doce, está em quincunce exato a Saturno, adicionando ainda mais ambivalência a essa questão.  Aliás, o quincunce natural formado por Câncer-Aquário, salientado por Lua e Vênus, aponta imediatamente para esse dilema entre maternagem e liberdade, criar vínculos ou preservar a individualidade.

parto (2)

O que me leva a uma reflexão sobre o peso da maternidade na nossa sociedade. Na nossa cultura as mães são endeusadas e mistificadas há séculos, postas num pedestal. Sim, devemos tudo a elas, uma vez que lhes devemos a vida. O ponto é que sendo a mãe colocada num altar, a maternidade corre o risco de se tornar um fardo enorme para essas mulheres, que são apenas pessoas comuns e humanas, sujeitas a sentir raiva, ressentimento, tristeza, desamor, a ter dias ruins, como todo mundo. Os clichês nos dizem que “ser mãe é padecer no paraíso”, que mãe é toda amor, proteção e ternura. Sempre. Enquanto não estou duvidando que o amor materno seja incondicional e incomensurável, isso me lembra que a essas mulheres não é permitido admitir suas ambivalências acerca da maternidade.

mae e bebe
Do Google Images – Reprodução

Pense comigo: ter um filho é um rito de passagem que significa uma morte. A mulher morre como filha e jamais será a mesma; sua vida livre e solta se acaba de forma definitiva porque haverá, para sempre, um ser (ou mais de um) que lhe ocupará pensamentos, tempo, atenção e por um longo tempo este ser será completamente dependente dela para absolutamente tudo. Ela não conseguirá mais sequer ir ao banheiro sozinha – momento que simboliza o cúmulo do conceito moderno de privacidade – porque um filho estará com ela a demandar sua atenção. Crianças são seres tirânicos que demandam atenção e energia em tempo integral, permanentemente. E eu tenho certeza que todas as mães, absolutamente todas, já sentiram, em algum momento de suas vidas, vontade de desaparecer, ou melhor, de fazer aquela criança desaparecer, nem que fosse momentaneamente – algumas talvez tenham tido ímpetos assassinos em alguns momentos; outras às vezes têm ataques de raiva e fúria, ressentem-se da falta de tempo e liberdade, do excesso de cobranças… E depois morrem de culpa e se sentem mães desnaturadas, mães terríveis, quando talvez tenham apenas sido humanas nas suas reações diante de criaturas extremamente exigentes que literalmente lhes sugam todas as energias. Muito disso é porque na nossa cultura não é dado à mulher reconhecer suas ambivalências, reconhecer que não importa quão infinito e incondicional o amor por aquele filho seja, em alguns dias ela gostaria de ter um tempo só para si, de não ter responsabilidades, de não ter filhos lhes puxando as saias… De voltar a ser uma filha sem maiores compromissos que não fosse o de cuidar de si mesma.

Mae negra
Desconheço o autor – Reprodução

Lua em Aquário vem nos convidar a refletir sobre isso no dia das mães. Vênus em Câncer em quincunce a Saturno em Sagitário aponta para esta ambivalência de forma gritante: a responsabilidade que o amor implica, as renúncias à liberdade e o peso do compromisso com o ser amado, seja ele um filho ou o parceiro. Lua e Vênus em signos tão antagônicos também vêm nos falar do conflito entre ser mulher independente e ser mãe; do quanto sacrificam de seus desejos femininos e pessoais em função da maternidade.

parto
Reprodução

Eu não sou mãe – por motivos diversos e conjunturas que não vêm ao caso mencionar aqui – e talvez, apenas talvez, jamais parirei um filho de carne e osso que saia do meu ventre. E embora eu possa dizer que não fui mãe até hoje por questões circunstanciais, essas ambivalências para mim sempre foram muito evidentes. Filho é algo para sempre, não tem retorno. Assim como o mapa natal, não dá para dizer para o divino: “olha só, não gostei, dá pra trocar?” Ou então “Deus, cansei da brincadeira, posso devolver?”. Embora a maternidade represente delícias impossíveis de serem postas em palavras e que somente a vivência é capaz de explicar, pela minha observação da vida de amigas, irmãs e outras mulheres importantes para mim, sei que ser mãe também tem suas agruras muito além das noites mal dormidas porque o filho tem dor de barriga, mas o fato é que pouco se fala disso, da ambivalência que toda mulher provavelmente sente acerca da maternidade, embora, no fim do dia, ao por o filho na cama ela perceba e sinta que faria tudo de novo para ter nos braços aquela pequena criatura, aquele pequeno tirano, que preenche tanto a sua vida de tantas maneiras. “Ser mãe é padecer no paraíso”. Sim, parece que o clichê, afinal, reflete brilhantemente a dubiedade que cerca a maternidade. Contudo, penso que nos dias atuais não se pensa muito sobre seus significados mais profundos. Infelizmente.

Montserrat Gudiol
Montserrat Gudiol – Reprodução

De novo: eu não sou mãe, não tenho autoridade nenhuma para falar disso. Estou falando a partir da minha experiência com clientes, da forma como experimentaram suas mães, das expectativas que tinham sobre elas, e de quanta confusão foi criada em função disso, de essas mulheres talvez não poderem admitir suas ambigüidades sem culpa, nem que seja apenas para elas mesmas; de não perceberem que não há nada de errado em duvidar, às vezes; que não são monstros por quererem sumir de vez em quando, por questionarem suas escolhas… Porque quando admitimos nossas dúvidas, elas deixam de ser um bicho-papão e param de nos assombrar; e então não precisamos ter rompantes de fúria cega que amedrontam todos à nossa volta, filhos ficando aterrorizados com aquela mãe terrível que abduziu sua mãe amorosa e compreensiva, tomando o seu lugar; e certas mães não precisariam atuar essa dúvida na forma extremada do abandono de recém-nascidos, ou mesmo em maus tratos absurdos infligidos  a seus rebentos – sim, eu sei que a questão da violência materna não é tão simplista assim, apenas desconfio que essas mulheres atuam e manifestam energias e frustrações que não são somente delas como indivíduos, mas que pertencem a todo o coletivo. Mulheres cuja ambigüidade é maior do que o amor materno – isso me lembra a Mrs. Dalloway de Virginia Wolf. Não sei o que dizer sobre isso. Não sou mãe, não sou psicóloga nem nunca estudei o assunto a fundo – como disse, estou tecendo provocações. Mas admitir para elas mesmas seus sentimentos já é muita coisa, assim talvez percebam que o filho não tem culpa de nada. E poderão, penso eu, se responsabilizar sem tanto peso, pelas escolhas sem volta que fizeram.

blogs.babble
Do blog blogs.babble – Reprodução

Enfim, eu estava escrevendo sobre o céu do fim de semana quando tudo isso me ocorreu ao olhar Vênus-Saturno e a Lua Aquariana. Acho que as famílias seriam mais saudáveis se as mulheres pudessem admitir suas ambivalências sem tanta culpa e tanto peso. E se os filhos se lembrassem que suas mães erram, que são falíveis, que são apenas humanas e não santas perfeitas como quer nos fazer acreditar a cultura e o comércio no afã de vender mais. E se os mesmos filhos lembrassem também que, a despeito de todas as dificuldades e sacrifícios, de toda a ambivalência, admitida ou não, elas resolveram trazê-los à luz, renunciando a tanta coisa e a outras formas de vida, porque na balança do que vale a pena, elas escolheriam tê-los de novo, simplesmente porque o amor não tem explicação nem medidas, porque a maternidade tem, sim, compensações que as palavras jamais conseguirão traduzir. E lembrassem ainda que na hora do sufoco, por causa de um filho, uma mulher vira um bicho feroz e é mesmo capaz de matar, se necessário for, para defendê-lo.

Eu tive o enorme privilégio de ter duas mães. Minha mãe biológica morreu quando eu tinha quatro meses de nascida. Tinha apenas 35 anos e eu não a conheci – não tenho sequer fotografias, absolutamente nada. Mas a tenho no meu coração e a ela sou e serei profundamente grata por toda a vida, por ter escolhido me ter, a despeito da vida dura e cheia de incertezas que ela teve. Também sou profundamente grata, e sempre serei, à minha tia, que me criou como filha e que me deu tudo o que tinha, que fez tudo o que podia para eu ser o que sou. A essas mulheres simples, comuns e profundamente humanas, eu reverencio e honro. Diante delas me dobro e me curvo e lhes apresento toda a minha mais profunda gratidão!

Obrigada, Mãe! Obrigada Mães!

OBSERVAÇÃO / EDITADO:

Algumas/alguns leitoras ou leitores podem achar que carreguei nas tintas, como me apontou uma leitora na página do Facebook. Sim, é verdade que carreguei nas tintas falando de filhos tirânicos e mães que desejam desaparecer. Talvez esses sejam os extremos da polaridade, mas a sombra é mesmo uma figura de extremos. Se a cultura e a sociedade alimentam e reforçam a fantasia da super mãe e da mãe perfeita e as mulheres se cobram caber nestes modelos, no fim do espectro, para compensar, teremos sim, a imagem da Mãe Terrível e Tirânica como sombra, ameaçando irromper a qualquer momento de descuido. Portanto, quanto mais nos reconhecermos como comuns e assimilarmos e admitirmos as ambivalências, como já repeti tanto acima, menos propensos estaremos a cair presas do complexo materno da Mãe Terrível.

Mother - Margarita Sikorskaia
Margarita Sikorskaia – Reprodução