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Lua Cheia em Escorpião – A maldição – ou a bênção – do Eterno Retorno

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O ciclo de Touro chega ao seu ápice na Lua Cheia de amanhã, dia 10 de maio, que ocorre às 18h42min – 22h42min para Lisboa – , a 20°24’ de Escorpião. Esta é uma Lua Cheia de términos, visto que Escorpião fala de encerramentos de ciclos, para começarmos outros, o que nos dá um vislumbre da eternidade se descortinando diante de nós. É o tempo de trocar de pele, de eliminar energias antigas, limpar o coração de todas as toxinas, abrir-se à compaixão. Enquanto Touro constrói estabilidade, Escorpião a destrói, para que não caia na estagnação. Escorpião destrói tudo aquilo que ameaça impedi-lo de se desenvolver, de avançar para a próxima fase, mesmo que isso não seja necessariamente, um avanço positivo, mesmo que não seja um movimento de crescimento. Entre ficar estagnado ou piorar um pouco, é provável que opte pela segunda opção, se isso implicar movimento, liberação de alguma forma. Mas Escorpião, apesar de não se apegar a coisas e não se deixar possuir por elas, relaciona-se com a posse emocional e aqui há grande dificuldade de abrir mão, de soltar e liberar, mas uma vez que isso ocorra, é definitivo, para sempre. Pode demorar muito tempo até se atingir esse ponto, mas uma vez cruzado esse limiar, não há retorno!

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Como sabemos, a Lua Cheia é um momento crítico, em que a energia atinge seu apogeu e todas as coisas que estavam se avolumando e se arrastando, atingem um ápice e são finalmente liberadas, boas ou ruins. Tensões que foram se acumulando atingem um ponto crítico e explodem e as coisas se resolvem, por bem ou por mal. Como Escorpião é o signo das emoções e sentimentos intenso e profundos, quando a Lua Cheia ocorre neste signo, esse ponto crítico fica intensificado.

Kali, a deusa que cria e destrói a vida – reprodução

A Lua Cheia de Escorpião anuncia um período de destruir tudo aquilo que nos prende e nos impede de dar o próximo passo: apegos a coisas, pessoas, regras; expectativas, medos, inseguranças; situações e coisas que representam segurança e estabilidade, mas das quais reclamamos e nos ressentimos, porque sabemos que tal segurança é fajuta, que usamos isso como desculpa para não fazer o que precisamos fazer, para não agir de acordo com nossa consciência – em resumo, aquilo com que o ego se identifica, mas que não é sua verdadeira essência. Há momentos e situações em que ir contra a maré e destruir algo torna-se muito positivo e pode ser o ato mais criativo e libertador que podemos cometer. Então destruição nem sempre é algo negativo – depende do quê, como e quando. O que é que você precisa destruir hoje?

Lua Cheia em Escorpião, Brasília, 10 de maio de 2017, 18h42min

No mapa desta lunação, a Lua está em sextil muito próximo a Plutão em Capricórnio e, claro, o Sol faz trígono a ele. Plutão é o deus da transformação, da morte, do renascimento, do Mundo Inferior e é o regente moderno de Escorpião. Ao receber aspectos harmoniosos dos dois luminares, sinaliza que estamos abertos, neste ciclo, a enfrentar algumas verdades, a lidar com elas, a nos desapegar e proceder com as mudanças necessárias. Conseguimos olhar para a nossa sombra sem nos chocar tanto com ela e conseguimos perceber o que precisa ser destruído, demolido, pulverizado. E mesmo que doa, destruímos, porque percebemos que de tal destruição, algo novo surgirá, possivelmente, quiçá, mais verdadeiro. A Lua também faz trígonos amplos a Netuno e a Quíron em Peixes – sete graus de orbe – e este trígono, na verdade, cai exatamente no Ponto Médio entre Netuno e Quíron. Além de potencializar a grande sensibilidade dos sentimentos Escorpiônicos, faz aflorar uma grande compaixão por nós mesmos e por aqueles todos com quem estamos envolvidos e, ao invés de raiva, ódio e vingança, queremos apenas nos livrar e liberar dos conteúdos densos, permitindo que sejam purgados e curados. O trígono ao Ponto Médio entre Netuno e Quíron possibilita a mediação, a integração das nossas aspirações e sonhos mais elevados e até os mais fantasiosos, com a percepção do que podemos e não podemos. Uma conciliação torna-se possível, talvez sem amargor e sem ranger de dentes – uma aceitação, quem sabe até resignação, mas ainda assim, algo que vem com sabedoria e serenidade e não precisa ficar apodrecendo dentro de nós e nos intoxicando de amargura. Vemos, reconhecemos e soltamos. E assim, liberamo-nos.

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O regente tradicional da Lua, Marte, está em Gêmeos, em quadratura de menos de um grau a Netuno e em trígono a Júpiter, também bastante próximo. Por um lado, isso nos fala do risco de sonharmos alto demais, de sermos ingênuos e embarcarmos na nau das ilusões criadas por nós mesmos e depois nos desapontarmos tristemente – a mente e os nossos desejos podem nos enganar e iludir. Por outro, assinala uma imaginação poderosa, uma qualidade mágica e ainda a enorme capacidade para a abnegação, além do entusiasmo quase inocente das crianças. Felizmente, tal atitude pueril é compensada pela sagacidade da Lua em Escorpião e pela conjunção Mercúrio-Urano, de modo que talvez se consiga sintonizar mais fortemente com os aspectos mais positivos dessa quadratura Marte-Netuno. Se formos mais longe e considerarmos essa conjunção Mercúrio-Urano em Áries – já que Mercúrio rege Marte – veremos que essa lunação também traz uma energia de rebeldia, de subversão, de ser capaz de desagradar para ser fiel e leal a si mesmo e aos ditames da própria consciência. Mercúrio estando conjunto a Urano no dia da Lua cheia, é outro intensificador da energia, trazendo iluminações, mas também transtornos, imprevistos, desordem, caos. Então há um aumento da instabilidade, uma intensificação da “crise” representada pela Lua Cheia e isso pode se manifestar de várias maneiras, tanto em nível pessoal, quanto em termos coletivos. Na verdade, a Lua Cheia potencializa a conjunção Mercúrio-Urano e vice-versa.

Ouroboros, a serpente mítica que engole a própria cauda, representando a eternidade e os ciclos de morte e renascimento – Ficheiros do Google –
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Mas a Lua Cheia de Escorpião também traz presente a ideia do eterno retorno, um conceito filosófico que nasce com o estoicismo e que propõe que a vida é uma constante repetição de si mesma e que o mundo se extingue para voltar a criar-se, um conceito que é bem ilustrado pela figura da Uroboros, a serpente mítica que engole a própria cauda, se extingue e voltar a renascer. É um símbolo da eternidade. Nietzsche discute o mesmo conceito em sua obra e nos provoca se rangeríamos os dentes e amaldiçoaríamos o demônio que sussurrasse tal ideia da recorrência no nosso ouvido, ou se ficaríamos felizes e o bendiríamos, diante da ideia da eterna repetição? O eterno retorno nos fala dos ciclos repetitivos da vida, algo que Escorpião entende bem. Mas será que a repetição é sempre igual? Será que seguimos em movimento circular, repetitivo, quase instintivo? Não seria esse movimento espiral, alterando algo sutilmente, a cada novo girar da moenda? E estamos sujeitos a tal repetição, feito cordeiros sem vontade, ou na verdade, contribuímos e ansiamos por ela? Será a repetição uma maldição ou uma bênção? Não pretendo esgotar esse assunto aqui, até porque não o domino, a ideia é apenas provocar, porque são temas pertinentes a Escorpião e a essa Lua Cheia e porque sempre vale nos perguntar por que somos tão repetitivos, mesmo quando buscamos ser originais. A Lua Cheia, pois, convida a quebrar – ou pelo menos tentar – a repetição, a destruir a roda que nos prende a essa moenda, a esse moinho, que sempre nos joga na cara aquilo que achamos que já havíamos superado.

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O Símbolo Sabiano para o grau 21 de Escorpião diz o seguinte: “obedecendo à sua consciência, um soldado resiste às ordens que recebe”. Aqui há um conflito claro entre obedecer e atender às expectativas sociais, às regras e leis e seguir a própria consciência, arcando com as consequências por tal desobediência. Quando o meio social e suas regras tornam-se poderosos por demais, diz Rudhyar, “o indivíduo não precisa se sentir atado espiritualmente, nem mesmo aprisionado. Ele ainda pode demonstrar sua liberdade interior e provar-se um ‘indivíduo’” e não apenas um seguidor cego de ordens absurdas e alheias ao seu coração. Essa é uma verdade de Escorpião, que geralmente está disposto a pagar o preço por suas escolhas impopulares, por não seguir a manada, nem fazer questão de ser aceito e aprovado. Aqui há o conflito entre os códigos morais exteriores e os nossos valores pessoais – às vezes é preciso transgredir, quebrar as regras, mesmo que arquemos com consequências duras. Linda Hill, outra estudiosa dos Símbolos Sabianos, nos lembra que “há uma escolha difícil entre nossa lealdade a um relacionamento, a um trabalho, um país, etc. e nossas crenças internas, nossa verdade interior e nossas ambições pessoais. Liberdade verdadeira só pode ser encontrada dentro, quando se confronta essas situações com um senso de integridade e um completo entendimento das consequências possíveis”. Nem tudo o que é legal, é necessariamente correto e temos visto bastante disso recentemente. E por mais que muitas vezes nossas escolhas nos coloquem em colisão com forças maiores do que nós, sejam essas forças mundanas ou de outra esfera, ainda precisamos ser capazes de ser leais a nós mesmos, o que quer que isso signifique. E longe de nos sentir desajustados, talvez isso reflita um desvio salutar da norma, porque, como diz Krishnamurti “não é um sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”. Então, a Lua Cheia sugere destruir o que nos prende e nos ata, quebrar as regras distorcidas, as normas que não promovem a vida, mas apenas fazem cumprir ordens sem sentido e que vão contra aquilo que acreditamos, aquilo que nossa consciência diz. E há um preço a pagar. Sempre há. Mas, como diz um outro pensador, Kipling, “nunca é alto demais o preço a pagar pelo privilégio de se pertencer a si mesmo”, e de escolher a própria integridade interior, mesmo que isso também seja parte do eterno retorno e da ilusão da novidade. E é por isso que Escorpião briga e paga o preço!

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Para além de tudo isso, essa Lua Cheia também nos faz sentir profundamente conectados com a rede da vida, em toda a sua poderosa manifestação e percebemos que, mesmo em situações de conflito e de morte aparente, a vida segue seu ciclo, ela é mudança constante, ela pulsa, viceja, modifica-se, muda de corpo, de invólucro, mas continua a pulsar, em nós, no outro, no mundo à nossa volta. Talvez sejamos apenas efêmeros demais para perceber as mudanças reais, porque, o que é uma vida humana diante da eternidade? Essa percepção pode nos revigorar e nos dar uma nova perspectiva sobre as coisas, os erros, as “perdas”, aquilo de que precisamos abrir mão, nos desfazer, para viajarmos mais leves, menos enferrujados, menos pesarosos e defensivos, menos apegados ao controle dos resultados. E aquilo que deixamos para trás, as cascas e peles antigas, vão virar adubo, irão se transformar, no eterno ciclo do vir a ser.

Numa nota mais pontual, o Ascendente do mapa levantado para Brasília é Sagitário, que é regido por Júpiter, que está retrógrado em Libra, na casa 11, em quadratura a Plutão e quincúncio quase exato a Netuno. Júpiter segue como carro chefe da locomotiva, como tem estado há vários meses. Isso tudo repete um pouco o tema do entusiasmo pueril, visto que Júpiter está retrógrado e em tensão a Netuno. Parte de nós simplesmente não quer ver, não quer enxergar a verdade, os dissabores, as tristezas e desalentos e prefere continuar a se enganar. Olhando para a situação do Brasil, Júpiter faz quadratura a Plutão retrógrado e talvez alguns movimentos na esfera social e das instituições públicas levem a mais perdas, concretas, materiais e também no senso de autoestima do povo. Netuno está na 4 – somos feitos de bobo dentro de casa, pelos nossos, como tem ocorrido há séculos! Mais do mesmo! Se se considera o mapa do Brasil que tem Aquário Ascendente, a Lua Cheia ativa o MC; se se considera o mapa que tem Peixes como Ascendente, o Ascendente desta lunação para Brasília, também vai ativar o MC do mapa natal. De um jeito ou de outro, essa lunação mexe bastante com figuras de autoridade e com a imagem do Brasil, com o rumo do país.

OBS: A Lua fica Cheia numa condição chamada “Wobble”. Nunca estudei isso a fundo, mas como já me perguntaram, isso é um termo astronômico, que representa uma oscilação, uma instabilidade, quando parece que a Lua “dança” da esquerda para a direita, parecendo “bambolear”. Esses períodos de Lua Wobble, de acordo com alguns estudiosos,estão relacionados com catástrofes, começos e fins de guerras, conflitos e situações fora de controle. Mas antes de se desesperar, saiba que a Lua entra nessa condição cerca de três ou quatro vezes por ano, então, não é nada tão raro assim!

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Uma ótima Lua cheia para você! quebre as regras distorcidas, destrua aquilo que não gera mais vida, que perdeu o viço e apodreceu e já não alimenta, nem entusiasma! Ou se renova, ou será destruído!

Ouroboros, a serpente mítica que engole a própria cauda, representando a eternidade e os ciclos de morte e renascimento – Ficheiros do Google –
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Lua Nova em Escorpião – Renascendo das Cinzas

Grand-Arts-Tumblr - Reprodução
Grand-Arts-Tumblr – Reprodução

A Lua Nova deste domingo (30 de outubro, 15h38min no horário de Brasília e 17h38min no horário de Lisboa) convida a uma introspecção profunda e visceral. Uma introspecção que permita a regeneração e o refazimento da alma, que passou por tantos embates nas últimas semanas. É uma Lua Nova super potente, não só porque ocorre em Escorpião, mas também porque acontece às vésperas do Halloween, a noite de Todos os Santos e de todas as almas, modernamente chamado de Dia das Bruxas – não, não é uma invenção americana! É um tempo em que portais são mantidos abertos por um número de horas e muitas revelações podem emergir do inconsciente. Entenda a origem e a importância do Halloweeen.

Esse é um ciclo de morte e eliminação, mas também de cura, regeneração e renascimento; que expõe nossas feridas mais pungentes, não para que soframos mais ainda, mas para que possamos saná-las e curá-las, transmutando a energia densa do sofrimento e da dor, no bálsamo da redenção, da cura e da liberação – liberação de si mesmo e da vida que estava estagnada. É o ciclo da transformação.

Lua Nova em Escorpião - Brasília, 30 de outubro, 14h38min
Lua Nova em Escorpião – Brasília, 30 de outubro, 14h38min

Depois de um ciclo Libriano cheio de percalços e nada harmonioso, um ciclo explosivo na área das relações, o ciclo de Escorpião vem permitir a salutar digestão emocional de todas as mudanças drásticas das últimas semanas – é hora de renascer das cinzas! A Lua se renova a 07°43’ de Escorpião, em conjunção a Mercúrio, sugerindo que muitas revelações importantes continuam a vir à tona, algumas nos surpreendendo grandemente, outras apenas confirmando o que nossa intuição já sabia. A Lua também está em trígono a Netuno, indicando um ciclo de grande sensibilidade e compaixão. Estes são os únicos aspectos que Lua e Sol fazem, mas que estão muito próximos da plenitude. Além disso, no mapa levantado para Brasília, Quíron está bastante proeminente, conjunto ao Ascendente, sugerindo um ciclo de se identificar feridas antigas e de se proceder com o tratamento e a cura.

Innana-Ereshkigal - Escultura Sumeriana - Museu Britânico - Reprodução
Innana-Ereshkigal – Escultura Sumeriana – Museu Britânico – Reprodução

Uma Lua tão introvertida me lembra o mito sumeriano de Innana e Ereshkigal: no mito sumeriano A Descida da Deusa, Inanna, a Rainha dos Céus, tem que descer ao inferno para visitar a irmã Ereshkigal, a Deusa do Mundo Inferior. Innana tem que passar pelos sete portões que levam ao mundo inferior e em cada um deles despoja-se de algo que a identifica como deusa do Mundo Superior: vestes reais, roupas, jóias, cetro, coroa, até ficar completamente nua. Então ao chegar lá a irmã a mata e pendura num gancho de açougue para apodrecer. A linda e exuberante rainha dos céus é largada no submundo, pendurada como um pedaço de carne morta assistindo à própria putrefação. É mais ou menos como nos sentimos atualmente, depois do fechamento do último ciclo cheio de crises e rupturas e depois de todos os embates deste ano: uma sensação de impotência, um luto que precisa ser vivido por tudo o que morreu e deixou de existir, uma confrontação da própria tristeza e humores sombrios.

Innana e o leão, um de seus animais-símbolo - Reprodução
Innana e o leão, um de seus animais-símbolo – Reprodução

Assim como Innana, deusa dos céus luminosos, deusa da beleza e do amor – uma Afrodite arcaica, que bem representa o signo de Libra – nós também precisamos nos desvestir de nosso lado mais luminoso, de tudo aquilo que nos identifica como pessoas civilizadas e sociáveis, belas e virtuosas, para adentrar as profundezas abissais do nosso próprio Mundo Inferior e lá confrontar nosso abismo pessoal, o fracasso, a dor, a impotência, o desespero, a tristeza, o luto, o nada, o vazio. E lá permanecer o tempo necessário para que esse luto assente, para que lhe demos seu lugar de direito – porque se não enfrentamos a dor e o luto na hora certa, eles voltarão mais tarde mais potentes e amedrontadores para nos assombrar.

innana-ereshkigalEreshkigal é a contraparte sombria de Innana e precisamos não só reconhecê-la, mas dar-lhe seu devido valor, seu lugar de direito na vida e na psique. No mito, Innana fica três dias pendurada apodrecendo no Mundo Inferior. Mas ela não era tão tola e ingênua assim… Ela tinha deixado ordens expressas lá em cima, para o caso de algo dar errado, pois sabia que estava adentrando um lugar perigoso e sombrio – ela sabia a fama da sua irmã – seu lado sombrio. Seu avô engendrou, a partir da sujeira que carregava debaixo das próprias unhas, duas pequenas criaturas andróginas que tinham a função de carpideiras, de pranteadores. Escorregando pelo Mundo Inferior sem ser notados, eles se aproximaram de Ereshkigal, que sofria muito pela morte do seu marido e também porque estava grávida e teria um parto difícil pela frente. Como diz Sasportas ao contar este mito, “algo morreu, mas algo está nascendo”. As criaturas carpideiras chegaram junto de Innana e começaram a chorar junto com ela, a ouvir-lhe e dar-lhe razão, a dizer-lhe que “sim, sua dor era horrenda; sua condição era terrível, que ela tinha razão de estar zangada e enlutada”. Ao ser ouvida, aceita e não julgada, Ereshkigal finalmente se acalma e dá a eles aquilo que eles lhe pedem: que Innana volte à vida e seja liberada para voltar ao Mundo Superior. Agradecida, Ereshkigal consente e faz Innana reviver e ela pode, finalmente, voltar ao Mundo Superior. Mas ela não é mais a mesma deusa que empreendeu a terrível descida. Não. Ela retorna completamente transformada, mais madura e ciente dos seus próprios mistérios e escuridão – afinal, a luz é o par da escuridão, assim como Ereshkigal é o outro lado de Innana. Innana é a luz e a beleza e Ereshkigal é a sombra e o terror da vida. Ambas se refletem porque são metades da mesma unidade.

Reprodução - Desconheço o Autor
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Assim como as carpideiras, precisamos também reconhecer que nossa raiva e a tristeza são legítimas, só assim eles poderão ser acalmados. Da mesma maneira, depois de termos descido às profundezas do nosso próprio inferno pessoal, tivemos um período de assimilação e agora estamos prontos a renascer, transformados, renovados, mais sábios e experientes. Como a Fênix ou como a Serpente, estamos prontos a começar uma nova fase – mas isso, somente se já tivermos empreendido o confronto da nossa própria dor e sombra, da nossa destrutividade. Só podemos transformar e transmutar aquilo que aceitamos e algo que precisamos aceitar é a presença de Ereshkigal em nós e na vida. “Só aceitando Ereshkigal-Plutão como parte da vida permite que a mágica da cura funcione” (Howard Sasportas).

Assim, o ciclo que ora se inicia convida a purgar os venenos, as tristezas, o luto, as perdas, os rancores e a nos render à compaixão, para conosco mesmos e também para com o outro. Quíron pode representar uma dor excruciante, mas também a opção pela aceitação e pela cura consequente.

Os dois dispositores da Lua Nova, Marte e Plutão, estão em Capricórnio, tendo feito conjunção há poucos dias. Isso sugere que sejamos bastante pragmáticos na condução desse ciclo. Profundos, sensíveis, compassivos sim, mas também resilientes e realistas.

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Confirmando esse tema da necessidade de introspecção, o Símbolo Sabiano do grau 8 (07°00’ – 07°59’) de Escorpião coloca a imagem seguinte: “Um lago tranquilo banhado pela luz da Lua”. De acordo com Lynda Hill, astróloga australiana estudiosa dos Símbolos Sabianos, esse símbolo fala da capacidade ou necessidade de reflexão. O lago reflete a Lua como se fosse um espelho. Ela questiona: “o que há em nossa situação presente que carece de mais reflexão? Há a necessidade de olhar mais profundamente, para dentro de nós mesmos ou do outro? Ou será que as coisas estão sendo avaliadas de um ponto de vista muito superficial, em que as coisas são meramente um reflexo de alguém ou de algo mais? É bom lembrar que águas paradas costumam ser profundas e que muitas coisas podem não ser o que parecem à primeira vista”. Assim, é momento de olhar mais de perto, mais profundamente para todas as nossas questões, dores e crises recentes, para talvez avaliá-las com mais acuracidade e retidão.

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Dane Rudhyar, analisando este mesmo símbolo, traz uma outra visão, que também vale a pena explorar: “poder-se-ia enfatizar a sugestão romântica que tal imagem evoca, mas mesmo em nível do relacionamento amoroso, o que está implícito é a rendição de dois egos pessoais à inspiração dos sentimentos transcendentes que são essencialmente impessoais. O amor se expressa através dos amantes, pois amor real é um poder ou um princípio indiferenciado cósmico, que simplesmente se concentra a si mesmo nas almas de seres humanos que refletem sua luz. O mesmo é verdadeiro quando se trata do amor do místico por Deus. O homem luta arduamente para realizar grandes coisas através de aventuras ousadas, mas uma hora chega em que a única coisa que realmente importa é apresentar uma mente calma sobre a qual uma luz celestial possa ser refletida”. Dessa forma, creio que a interpretação de Rudhyar também se relaciona, indiretamente, com o mito de Innana e Ereshkigal, porque mesmo Innana, Rainha dos Céus, precisou se submeter a esse poder transcendente, a rendição de sua identidade celestial, do seu ego pessoal, a algo que era maior do que ela mesma.

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E sim, como disse Rudhyar, podemos evocar aqui o romantismo inferido pela imagem ancestral da Lua refletida num lago. Sendo Escorpião um signo de Água, as águas profundas e paradas – como as águas de um lago – e estando essa Lua em trígono tão próximo a Netuno, não podemos deixar de evocar essa outra dimensão, mais mundana mas não menos importante deste mapa: de fato, essa é uma Lua Nova muito romântica. Não o romantismo piegas e açucarado dos romances best-seller – Marte e Plutão no signo da Cabra jamais permitiriam isso, muito menos Vênus conjunta a Saturno! – mas o romantismo verdadeiro e profundo, daqueles que enxergam o outro verdadeiramente, no mais fundo de sua natureza, cheia de idiossincrasias e defeitos, cheia de imperfeições, como só Escorpião é capaz de enxergar e, ainda assim, aceita, por saber que é da natureza do humano ser imperfeito. Um romantismo que nos faz querer nos comprometer, querer nos transformar e ser melhores, para nós mesmos e para o outro e que, ao invés de julgar, tem compaixão pela falibilidade desse outro, porque sabemos que é a mesma que carregamos em nós. E, como bem disse Rudhyar, o romantismo que deixa implícito a rendição do ego pessoal a algo maior: o Amor, a eterna busca do Escorpião, a busca permanente do humano que caminha pela Terra.

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Em termos mais gerais, o ciclo de Escorpião representa um momento, na jornada astrológica, em que precisamos eliminar as peles e couraças velhas e rotas, que não nos servem mais; o momento de confronto com nossa sombra pessoal e com a sombra coletiva; um momento de purgação e depuração dos conteúdos tóxicos da nossa alma; um momento de morte e decomposição, assim como de cura, regeneração e renascimento. Assim, precisamos identificar em que áreas de nossa vida (aquelas áreas representadas pela casa em que temos Escorpião no mapa natal) precisamos morrer, nos decompor, para nos regenerar e renascer. Portanto, aproveite e faça sua própria RE-flexão e eliminação e a subsequente renovação das intenções, ou o lançamento de intenções completamente novas para o novo ciclo, de acordo com a casa em que a Lua Nova cai no seu mapa.

OBS: O ciclo de Escorpião culminará na Lua Cheia de Touro, uma Super Lua que é a mais brilhante e mais próxima da Terra em cem anos. Astrologicamente a Super Lua não tem grandes implicações, exceto que, por estar no ponto mais próximo da Terra, o perigeu, sua influência é sentida mais poderosamente, aumentando a intensidade da lunação. A Lua será Cheia em touro no dia 14 de novembro, às 11h52min no horário de Brasília.

Feliz Lua Nova para você!

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