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Lua Cheia em Touro – O Essencial Permanece

Desconheço o autor – reprodução

O ciclo iniciado em Libra no dia 19 de outubro atinge seu ápice na Lua Cheia de Touro, neste sábado, às 03h23min no horário de Brasília (Horário Brasileiro de Verão) e às 05h23min no horário de Lisboa. O ciclo de Libra trata, basicamente, de relacionamentos, a Lua Cheia, também e, embora o eixo Touro-Escorpião não tenha a ver com isso de forma direta (Touro-Escorpião trata de relacionamentos no que tange à intimidade e sexualidade), o tema está implicado devido ao ciclo e à posição da regente de Touro, Vênus.

Em Touro queremos e buscamos estabilidade, segurança, firmeza, substância. A Lua Cheia em Touro sinaliza um momento em que a intensidade, a destruição e eliminação simbolizadas por Escorpião precisam ser contrabalançadas pelo vagar, ponderação, solidez e preservação de Touro. É aquele momento em que você desmontou tudo para jogar fora, porque se sente bloqueado, “preso” por tudo o que “possui”, como se tudo fosse um peso morto a lhe arrastar para trás, mas se dá conta que não pode, afinal, jogar tudo fora, porque tem coisas que ainda são necessárias, úteis, coisas que são essenciais para a sua sustentação e sobrevivência. Então precisa proceder com o ritual difícil de separar o que traz segurança real, daquilo que é peso morto, estagnação.

Portanto, além de ser um momento crítico de ponderar sobre o que precisa e deve ser preservado de modo geral na vida – e na área de vida simbolizada pela casa do mapa onde a Lua Cheia ocorre – essa Lua Cheia vem propiciar que a mesma ponderação seja utilizada nas nossas relações.

O ciclo se iniciou com um grande estrondo, com Lua e Sol ficando conjuntos em Libra em oposição próxima a Urano em Áries, indicando um momento crucial de despertar para a qualidade das relações, de deixar de ser tão conciliador, de buscar maior independência, transparência e verdade dentro das relações “certinhas” simbolizadas por Libra. Agora esse estrondo ecoa mais longe, repercutindo na intimidade, na sexualidade, naquilo que nos sustenta e nutre.

A Lua fica Cheia em oposição à conjunção Sol-Júpiter em Escorpião, sextil próximo a Netuno em Peixes e trígono a Plutão em Capricórnio. A oposição a Júpiter sugere a possibilidade de nos conectarmos com a abundância da vida e de nos sentirmos merecedores dela, repercutindo beneficamente na nossa vida. Por outro lado, esse aspecto tenso a Júpiter também indica a amplificação dos temas da lunação, assim como excessos nos desejos e um exagero ainda maior na busca da satisfação de tais desejos e impulsos sensoriais e sensuais. Comida, bebida, sono, sexo… Nunca é o bastante! Sempre queremos mais, e melhor! Satisfação dos instintos e dos sentidos que, dependendo da orientação individual pode se manifestar como satisfação do estômago, da libido ou da segurança material – o impulso é o mesmo e é voraz! A propósito, qual é a nossa fome/necessidade primordial neste momento da nossa vida? Aquilo de que mais se carece pode ser a fonte da voracidade manifestada em outras áreas… Temos fome de sexo/afeto/contato? Podemos nos pegar comendo em demasia para compensar esta carência; temos necessidade de amor/atenção? Podemos nos tornar possessivos em relação a pessoas importantes em nossa vida; temos anseio por segurança? Podemos nos tornar avaros, acumulando dinheiro e posses para nos sentir mais tranquilos… E assim vai!

Touro é o signo das coisas essenciais e o que é essencial para nós? Se nos percebemos compulsivos em relação a alguma coisa, é válido nos perguntar que carências essenciais estamos tentando sanar com tais compulsões. Talvez nem nos demos conta de tais carências e, neste caso, a compulsão/compensação vem funcionar como mascaramento da carência. O ponto chave nos próximos dias é a moderação na satisfação desses prazeres e impulsos sensoriais, para que não tenhamos que lidar com consequências desagradáveis mais à frente.

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Como no Símbolo Sabiano do grau 12 de Touro (11°59’) que coloca a imagem de “um casal jovem andando na rua principal olhando vitrines”. Por que um casal jovem estaria olhando vitrines? O que procuram? Será que pensam já em casar-se e olham o futuro através das vitrines? Será que um pensa em dar um presente ao outro? Será que pensam em presentear uma terceira pessoa? Qualquer que seja o motivo, o fato é que, ao invés de olharem um para o outro, ao invés de conversarem entre si, olham para fora, para uma vitrine de uma loja qualquer. Pode significar que têm objetivos em comum, como naquela frase de Michel Quoist: “Amar não é olhar um para o outro, mas olharem ambos na mesma direção”... Apenas me incomoda o fato de essa direção ser uma vitrine de loja – é, pode ser um preconceito meu, mas talvez isso aponte para o consumismo, a posse material de algo; ou pode apontar a busca por coisas de que se precisa realmente… O que nos leva a outras questões: será que olham para vitrines para evitarem olharem-se nos olhos, olharem um para o outro? Será que olham vitrines para evitar o momento de tensão entre eles mesmos? Será que evitam o vazio que se tornou o relacionamento? Será que cumprem o ritual social do passeio do casal pseudo-apaixonado, para quem até uma vitrine banal é mais interessante do que o parceiro que está ao lado?

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É interessante tratar-se de um casal jovem… O que me lembra também os casais – e relações de todo tipo – que submergem nos próprios telefones celulares e geringonças eletrônicas ignorando o outro de carne e osso que se encontra à frente ou ao lado, uma versão moderna do “solidão a dois” de que falava Cazuza… Qualquer que seja a interpretação que demos a este Símbolo, é patente que o casal não olha para si, mas para fora, para o mundo exterior. O olhar para fora pode ser salutar, uma forma de sair da identificação excessiva da imagem de casal, um renovar-se ao absorver informações novas e exteriores à realidade relacional. Mas pode também ser um movimento negativo, como dito acima, um evitar enfrentar o outro e os problemas da união, da convivência. Essa imagem dá margem a inúmeras conjecturas, sendo muitas delas possíveis e plausíveis, e talvez mais de uma se aplique ao nosso caso em particular…

Contudo, considerando-se as configurações desta Lua Cheia, talvez este casal esteja evitando olhar para os próprios problemas e se distrai de tais problemas olhando vitrines, um falso otimismo que tentar consertar o que está errado, por exemplo, comprando uma TV nova, um carro novo, tendo um filho, etc… Por que isso? Porque a Lua Taurina se opõe a Júpiter – vamos focar no prazer, no positivo – e Vênus, regente da Lua Cheia está em oposição exata a Urano – que recebia a oposição, também exata, da Lua Nova lá no dia 19 de outubro – sugerindo que os problemas continuam a pipocar, estrondar, mas talvez tentemos fazer ouvidos moucos a eles, focando no aspecto reluzente do mundo exterior.

O quanto este casal está realmente satisfeito com a relação? O quanto confiam um no outro, o quanto confiam no modelo relacional que escolheram – consciente ou inconsciente? E aqui ouso colocar até o tema fidelidade/monogamia, inspirada pelo post de uma amiga/cliente no Facebook e que também tem tudo a ver com esta lunação: fidelidade, monogamia são temas bem Taurinos, porque nascem exatamente do desejo/necessidade da estabilidade e da previsibilidade que dá tanto a sensação de segurança, quanto leva à armadilha do tédio massacrante do cotidiano banal acachapante e fechado a pequenas ousadias que desafiem nosso conceito de “correto”, “seguro”, “confiável”.

É, de fato, uma lunação de contradições: queremos estabilidade, segurança, mas encontramos questionamentos, dúvidas, rebeldia aos modelos tidos como certos, aceitáveis, constantes, estáveis, seja na gestão da vida concreta, seja na vivência dos afetos. Positivamente pode ser um período de empolgação, de novidades, de dinamismo nas relações, mas isso só vale para aquelas relações que são muitos transparentes, cheias de frescor e vitalidade, onde os parceiros são honestos e não têm medo de encarar suas fraquezas e inseguranças, onde não há apegos, nem ao outro, nem aos modelos “certos” de relacionamento – mas, convenhamos, tais relações são a exceção da regra! Para a maioria das relações, pautadas nos modelos ditos “aceitáveis” e seguros, essa lunação traz muitos desafios à estabilidade, à durabilidade e manutenção do status quo.

Vênus em Libra, dona da casa, está em oposição exata a Urano em Áries – depois de ter feito quadratura a Plutão na terça-feira – um aspecto que inclina a rupturas, a eventos inesperados nas parcerias, a situações erráticas influenciando a forma como vemos a nós mesmos e como gerimos nossos valores, etc. Sugere ainda a necessidade de reinventar completamente as relações. Como se não bastasse, Plutão faz quadratura ao Ponto Médio (17’ de distância) entre Vênus e Marte, ou seja, há muita destrutividade ou, no mínimo, desafios, associados ao impulso de amar, à paixão, ao desejo, ao enamoramento, à vida sexual e à união sexual/afetiva. Pode-se dizer, com certeza, que há forças poderosas em movimento e que, embora turbulento e descontrolado, o desejo é intenso e visceral.

Marte, regente tradicional de Escorpião, começa a fazer quadratura a Plutão, o regente moderno deste signo. Marte-Plutão intensificam a questão do desejo, mas também acentuam a agressividade, a necessidade de controle e a possessividade, além de simbolizar uma vontade de ferro e determinação inquebrantável.

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Por isso e por tudo o mais que já foi dito é que podemos afirmar que, por mais que queiramos sombra e água fresca, paz e sossego, ainda não é agora que vamos conseguir, pelo menos não enquanto não enfrentarmos estes questionamentos e incertezas. Positivamente, temos a nosso favor a oportunidade de aplicar nossa imaginação e sensibilidade de forma concreta, de modo a perceber outras necessidades mais sutis, para além daquelas sensoriais, como indicado pelo sextil a Netuno – podemos sim, encontrar soluções criativas para nossos dilemas. O aspecto a Plutão traz resistência à já robusta e obstinada Lua Taurina, sugerindo potencial e capacidade de transformação na gestão dos sentimentos e carências físicas ou emocionais e força e coragem para lidar com os desafios.

Urano destacado, tanto na Lua Nova de Libra quanto agora nesta Lua Cheia sugere um ciclo deveras errático e turbulento, mas também traz possibilidades de despertar, de iluminações fundamentais acerca do nosso valor e do que tem valor para nós. Se vamos agir ou não a partir de tais insights e iluminações, é outra história!

A Lua Cheia assinala períodos em que questões maturam e se tornam conscientes, de nós nos tornarmos aptos a lidar com tais questões… Se lá na Lua Nova Urano simbolizava revelações e iluminações desconfortáveis, que precipitaram caos e turbulência, agora, talvez, com a firmeza de Touro, possamos assentar a cabeça e o coração para, a partir de tais insights, tomar as atitudes essenciais ao nosso desenvolvimento e sustentação, incluindo nas questões relacionais.

No que tange às questões concretas e materiais, é um período que requer cautela nas decisões, nos investimentos e no gerenciamento de bens e dinheiro – há propensão a se gastar por impulso, impensadamente e a se arrepender depois. É hora de avaliar o que é essencial, o que tem valor real e deve ser preservado e o que só dá uma sensação ilusória de segurança, sem nos sustentar realmente, sem nos agregar nada efetivamente. O essencial, aquilo que é realmente sólido, permanece, as muletas devem ser descartadas.

Onde você estiver, Feliz Lua Cheia para você!

OBS: Indivíduos com ângulos e planetas entre os graus 07 e 17 dos signos fixos (Touro, Leão, Escorpião e Aquário) sentem mais intensamente essa lunação. A Lua Cheia em Touro pode ainda trazer presentes assuntos que eram importantes no final de abril deste ano (Lua Nova a 06° de Touro – 26 de abril) e ainda reverberar na próxima Lua Nova em Touro, em maio de 2018. É uma lunação para se dar atenção às questões relacionadas a dinheiro, seguranças e ao aspecto material da vida, incluindo a relação com o corpo. Rituais de prosperidade estão favorecidos, assim como a conexão com a abundância da vida e com a própria sensualidade.

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Lua Cheia em Escorpião – A Sombra e a Escuridão

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A Lua foi Cheia esta madrugada, às 02h23min no horário de Brasília e às 06h23min no horário de Lisboa. A culminação e apogeu do ciclo que foi iniciado na energia pioneira e individualista de Áries. Há vários temas básicos ressaltados por essa Lua Cheia: a confrontação da sombra pessoal; o combate ao egoísmo e individualismo; eliminação de tudo o que não nos serve mais. Vamos olhar cada um deles em detalhe.

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Darkersideoftemptation – Reprodução

O eixo Touro-Escorpião é fixo e vem falar de desejo, sexo e posse. Tem a ver com poder, o poder material (Touro) e o poder emocional/espiritual (Escorpião). Mas este eixo também fala da vida instintiva, sentida profundamente no corpo para Touro e via sentimentos viscerais para Escorpião. Este par lida com a necessidade de construir algo (Touro) e depois destruir (Escorpião) quando a segurança e a estabilidade viraram  estagnação.  Posse e controle são dois predicados deste eixo, mas se Touro quer possuir (em todos os sentidos da palavra) e acumular coisas, especialmente bens materiais, Escorpião preocupa-se com a posse e controle através dos sentimentos e emoções. Touro é sensorial e sensual, agudamente sintonizado com o corpo e seus sentidos: ver, ouvir, cheirar, degustar, tocar, por isso desejo e sexo são tão naturais para o signo, que se refestela nos prazeres da carne, literal e figurativamente, pois seu foco é o prazer. Já para Escorpião, sexo é uma maneira de se conectar com e possuir o outro da maneira mais íntima e profunda possível e uma forma de conhecer-se a si mesmo e à profundeza abissal da própria alma – o prazer e o gozo são mera consequência disso e potencializados por isso. Especificamente, Escorpião é o signo da transformação, da morte e renascimento, eliminação e regeneração e nos remete à sombra e toxicidade da alma humana.

Lua Cheia em Escorpião - 22 de abril, 02h23min, Brasília-DF.
Lua Cheia em Escorpião – 22 de abril, 02h23min, Brasília-DF.

E por falar em Sombra e em conhecer as profundezas abissais da própria alma, chegamos ao primeiro tema desta Lua Cheia: a Sombra. É interessante notar que Lua e Sol estão praticamente em dueto no mapa da Lua Cheia, ou seja, fazem aspectos apenas entre si, como se totalmente hipnotizados um pelo outro. A Lua faz apenas um trígono super amplo, de quase 10 graus, a Netuno em Peixes e o Sol só se conecta com a Lua.  Isso super enfatiza os temas do eixo Touro-Escorpião e nos diz que não há escapatória, temos que enfrentar seus desafios, mesmo que a integração desses temas seja particularmente difícil. E se não fazemos isso voluntariamente, invocaremos experiências duras e desagradáveis que nos façam entrar em contato isso com isso. Estejamos atentos aos insights, sonhos e sensações que surgirem nos próximos dias – podem nos dizer muito sobre esta sombra.

Gustave Moreau - Reprodução
Gustave Moreau – Reprodução

Essa Lua Cheia me lembra, de maneira bem contundente, o mito da Hidra de Lerna, um dos mais conhecidos mitos associados a Escorpião. A Hidra de Lerna era um monstro que tinha corpo de cachorro e nove cabeças, uma delas imortal. Seu veneno era tão letal que destruía toda a vida ao seu redor. Ela habitava um pântano fedorento e obscuro e aterrorizava a região. Era quase impossível destruir o monstro porque quando se cortava uma cabeça, três outras nasciam no lugar. Hércules batalhou muito com a Hidra e para vencê-la, primeiro ele teve que fazer o monstro sair da caverna escura em que se escondia atirando flechas de fogo, enquanto segurava a respiração para não respirar seu veneno. Mesmo assim, ele estava quase perdendo a batalha quando lembrou-se dos conselhos de seu mestre: “nós nos elevamos ajoelhando-nos, conquistamos nos rendendo e ganhamos, desistindo”. Assim, ele ajoelhou-se e levantou a hidra por uma de suas cabeças, tirando-a da água e elevando-a no ar, em direção ao sol. Afastada da água a hidra perdeu sua força e poder e encolheu de tamanho, permitindo que Hércules cortasse suas cabeças e as cauterizasse, especialmente, a principal delas. No seu lugar surgiu uma joia preciosa que ele enterrou debaixo de uma rocha.

Desconheço o autor - Reprodução
Desconheço o autor – Reprodução

Este mito é emblemático dos temas de Escorpião, que precisa trazer à luz da consciência os conteúdos virulentos e obscuros do inconsciente pessoal e às vezes, familiar e coletivo. Se ele não faz isso, essa energia inconsciente e putrefata o envenena, intoxicando também a tudo o que ele toca. Quando decide enfrentar o monstro, o resultado é a transformação de tais conteúdos na joia preciosa da consciência e do domínio de mais uma parcela de si mesmo. O fato de Hércules se ajoelhar e abaixar diante do monstro indica a cautela e o cuidado que temos que ter ao nos aproximar do Inconsciente e da Sombra, que são extremamente poderosos e se nos aproximamos de forma descuidada e leviana, podemos ser destruídos no processo, portanto, é preciso muita humildade.

Miasma - Austen Mengler - Reprodução
Miasma – Austen Mengler – Reprodução

Essa Lua Cheia salienta fortemente o tema desse mito e algo que chama bastante a atenção é que os dois planetas que regem Escorpião, Marte e Plutão, ficaram ambos retrógrados há menos de uma semana, ambos mudando de direção em menos de 24 horas entre si. Isso nos lança, de forma mais contundente e entranhada no desafio maior de todos: o monstro com o qual temos que lidar não está lá fora, está aqui dentro. Mais do que nunca, não temos nada a ganhar em culpar ou acusar a outros ou ao mundo por nossas dores, problemas e fracassos. Precisamos reconhecer e combater a Hidra venenosa dentro de nós. Com muita humildade, perscrutar nossas sombras, nossa toxicidade, nossa lado mais baixo e instintivo, a ambição e o desejo de poder, o ceticismo e o cinismo, a fixidez e estagnação da vida, nossa própria destrutividade, tanto em relação a nós mesmos quanto àquilo que nos cerca. Se formos bem sucedidos no combate, descobriremos que junto com o lixo e os conteúdos reprimidos que foram jogados no inconsciente, também há tesouros preciosos que podem ser restaurados e enriquecer nossa vida emocional. Mais: ao confrontar tais conteúdos sombrios, empoderamo-nos verdadeiramente, manifestando nossa luz e potencial criativo com mais segurança.

Fausto - Água Forte de Rembrandt - Reprodução
Fausto – Água Forte de Rembrandt – Reprodução

Uma outra estória a que nos remete esta Lua Cheia é a de Fausto, uma lenda alemã recontada magistralmente por Goethe, que tinha, ele mesmo, Escorpião no Ascendente e que é trazida para ilustrar o capítulo sobre Escorpião no Livro A Astrologia do Destino, de Liz Greene (1). “Fausto era um médico comum e obscuro, que tinha anseios de prestigio e sede de poder, riqueza e reconhecimento. Ele faz um pacto de sangue com o demônio Mefistófeles: em troca de seus desejos de poder mundano, Mefistófeles terá sua alma. E de fato, ele conquista e consegue tudo o que ambiciona. O foco de Goethe é o egoísmo de Fausto, que é a porta de entrada para Mefistófeles, o demônio símbolo do espírito da negação, aquele que murcha toda a inocência. Fausto negou a Deus, desprezando-o – uma atitude de cinismo e de negação da vida, um dos males que Escorpião tem que combater dentro de si mesmo, mas que às vezes, nem ele mesmo percebe, pois está inconsciente dessa negatividade destrutiva da vida.  É como uma apatia, um tipo de depressão, uma convicção de que, em ultima análise, nada vai funcionar.

Fausto - Harry Clarke - Reprodução
Fausto – Harry Clark -Reprodução

Mefistófeles poderá levar a alma de Fausto se ele tentar, em qualquer momento, parar a vida e agarrar-se ao momento presente ao invés de permitir a mudança e o fluxo da vida, essa é a barganha, algo que tem a ver com a fixidez de Escorpião, que geralmente tenta possuir algo bonito e prazeroso ao invés de deixar a vida fluir, daí nasce realmente a possessividade e o ciúme associado a este signo. No fim, Fausto quase incorre neste erro fatal, mas seu espírito inquieto o salva e embora ele tenha sujado suas mãos e se corrompido, este é um aspecto necessário de sua busca não apenas por poder, mas pela iluminação e pelo amor. Portanto, ele é perdoado”. Quando se fala de Escorpião aqui, isso não se refere somente aos nativos do signo. Escorpião e todos os signos são arquétipos da experiência humana, ou seja, todos nós vivenciamos isso em alguma instância em nossa alma e um retrato disso é que todos temos Escorpião em algum lugar do nosso mapa natal – mesmo que não haja planetas ali, a energia escorpiônica governa aquela área de vida e é ali que nos defrontamos mais fortemente com nossa sombra mais profunda.   

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Os mitos da Hidra e de Fausto nos lembram que a sombra deve ser confrontada pelo espírito humano e é em Escorpião que essa batalha se dá de forma mais fatídica e decisiva. Escorpião, ao olhar e lidar com todos estes materiais sombrias, em si mesmo e no coletivo, redime não só a si, mas traz à tona conteúdos ancestrais que precisam ser purgados e purificados, para que uma transmutação possa ocorrer. E repetindo, com Marte e Plutão retrógrados, o exercício da vez é confrontar esta sombra em nível pessoal e individual, olhar para dentro, para o mais fundo de nós mesmos, com honestidade e coragem e reconhecer que temos um lado demoníaco, a capacidade para o mal. Assumir que, embora tenhamos a escolha de não atuar e nem agir a partir de tais sentimentos, todos nós temos a mesma capacidade para o egoísmo, a mentira, a vilania, a desonestidade, a inveja, o ciúme, o ódio, o desejo de matar e de ferir, o rancor, e todos os mais baixos sentimentos e instintos humanos, inclusive o desejo de poder e a capacidade para corromper e ser corrompidos, uma reflexão extremamente pertinente no momento atual do Brasil em que os políticos personalizam todos estes conteúdos sombrios que não assumimos em nós.

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Esta Lua Cheia de Escorpião é o ápice do ciclo iniciado em Áries e, de formas diferentes, Áries e Escorpião são signos que falam de egoísmo e individualismo, provavelmente porque têm em comum o mesmo regente, Marte, o princípio da agressividade e da afirmação do indivíduo. Assim, a meu ver, o primeiro tema se desdobra no segundo: um dos maiores desafios no confronto com nossa sombra é reconhecer e combater nosso grande egoísmo e individualismo, algo que vemos claramente na cultura vigente mas, convenientemente, esquecemos que a cultura é reflexo do inconsciente individual e que agrupado ao inconsciente dos demais indivíduos, forma o inconsciente coletivo. Assim, é fácil reconhecer que a cultura é egoísta, mas eu? Imagina, claro que não! É a cultura individualista e de  violência em que estou inserido que não deixa eu expressar minha compaixão e altruísmo!

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Por sinal, este é o tema do Símbolo Sabiano para o grau 03 de Escorpião (02°30’): Vizinhos ajudam num mutirão para construir uma casa numa pequena vila. O símbolo vem reforçar essa necessidade de combatermos o individualismo dentro de nós e em contraponto, desenvolvermos a cooperação como um valor. Vizinhos se juntam num mutirão para construir algo, num verdadeiro espírito de comunidade, ao invés de se manterem isolados, cuidando somente de seus próprios interesses, protegendo-se, paranoicamente, uns dos outros. As tarefas mais difíceis e mais desafiadoras geralmente são melhor executadas em cooperação, afinal, como diz o antigo ditado, “duas cabeças pensam melhor que uma”, imagine então várias cabeças! Ou seja, vários talentos e habilidades somados podem conseguir, em menos tempo e usando menos recursos o que, para um indivíduo sozinho, demandaria muita luta e esforço. A percepção de que precisamos uns dos outros está bastante clara aqui, assim como a necessidade de renovarmos o sentido de comunidade e ajuda mútua, de criarmos uma cultura de cooperação – algo que parece bastante esquecido na vida urbana e super ocupada que levamos.

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Este símbolo também nos diz que, confrontar nossa sombra individual, especialmente no que tange ao egoísmo, pode nos levar a um senso de um renovação, da construção de algo novo e sólido, de algo que, por sua própria natureza, tem o propósito de unir as pessoas e fazê-las se perceberem umas às outras novamente, a saírem um pouco do seu isolamento, cinismo e ceticismo quanto à nobreza da alma humana, algo que o Escorpião às vezes esquece por estar tão entranhado na própria escuridão: na alma humana também há luz, uma verdade simbolizada pela flor de lótus nascendo na lama do pântano! A adequada e necessária integração entre Sombra e Luz é que nos fará mais genuinamente humanos e compassivos e mais capacitados a exercer, viver e ser o amor verdadeiro.

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Além de confrontar esta Sombra, purgar seus conteúdos tóxicos e integrá-los à consciência, a  Lua Cheia de Escorpião convida a identificar tudo o que morreu em nós e nossa vida para que possamos eliminar e nos livrar desses conteúdos putrefatos – sem equívocos: essa eliminação não é da Sombra, a Sombra não se elimina, apenas se integra! O problema é que Marte, o regente tradicional de Escorpião, está envolvido numa configuração super confusa e que tira a clareza e a lucidez: Marte é foco de uma T-Square mutável que tem por base a oposição Júpiter-Netuno. Ao fazer quadratura a Júpiter, seu dispositor, Marte fica mais inflado e tem mania de grandeza e talvez tente super compensar a sensação de impotência, simbolizada pela retrogradação, com bravatas e quixotadas; já a quadratura a Netuno potencializa a impotência porque traz apatia, insegurança, medo, dúvidas e vontade de desistir, visto que Netuno mina a resistência Marciana de maneira insidiosa. Portanto, é preciso ter cautela para não nos deixarmos abater no confronto com esta sombra: embora tenhamos potencial para a monstruosidade, não seremos monstros, se nos fizermos conscientes. Assim, é necessário olhar nossas fraquezas como adubo rico que transforma a escuridão em beleza – a lótus nascendo do lodo.

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Tomaz Alen Kopera – Reprodução

Também é preciso cuidado para não confundirmos o que deve ser eliminado e o que ainda pode ser reciclado e se temos dificuldade em identificar as partes mortas, podemos simbolizar fazendo limpezas práticas na nossa casa, liberando tudo aquilo que já não usamos mas que está jogado/guardado em algum canto, como símbolo de algo que vivemos e que ficou estagnado na lembrança. Essas coisas geralmente funcionam como bloqueios e entulhos energéticos, porque ali está estagnado o sentimento original ao qual nos apegamos e que nos prende à coisa toda, à história original que nos remete ao pecado maior de Escorpião: o desejo de parar o tempo e fixar o momento, para jamais se desfazer de seu poder e beleza. Aliás, às vezes, temos grande dificuldade de esquecer um relacionamento desfeito porque não queremos nos desapegar no próprio sofrimento, já que ele foi a única coisa que restou – é, parece doido, mas as pessoas fazem isso. Portanto, o outro grande desafio é eliminar e deixar morrer todas essas coisas, eliminar a estagnação e aquilo que realmente não está funcionando, para podermos voltar a fluir com a vida – isso é particularmente aplicável para a área dos relacionamentos, então, se você quer se livrar de relações tóxicas e mal sucedidas, a hora é esta!

Feliz Lua Cheia para você! Esteja pronta/o para lidar com os conteúdos sombrios que surgirão nas próximas duas semanas. Não fuja deles, confronte-os! E que os confrontos nos amadureçam e nos levem à regeneração!

Carrie Ann Baade - Reprodução
Carrie Ann Baade – Reprodução

 

(1) The Astrology of Fate – Liz Greene – Weiser Books