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Lua Cheia em Leão – Buscando realizações verdadeiras

Isabel Bryna Reprodução
Isabel Bryna Reprodução

A Lua Cheia deste sábado (Brasília, 23 de janeiro, 23h45min e Lisboa, 24 de janeiro, 01h45min) ocorre no eixo Leão-Aquário, o eixo do indivíduo versus o grupo, do sentir-se especial, versus ser comum e anônimo. Com o Sol em Aquário voltamos nossas atenções para as causas sociais, para as massas e para o bem coletivo, buscando materializar os ideais de justiça social, igualdade, liberdade e fraternidade entre os homens. Nesse contexto tão visionário e idealista, o indivíduo deixa de ser importante, porque o foco é o grupo, é o todo. Mas um dos erros de Aquário e que é parte da sua Sombra é exatamente este: esquecer que a humanidade é feita de seres humanos, pessoas únicas em suas características individuais. Assim, Aquário, talvez o signo mais sociável de todos,  muitas vezes tem dificuldade em se relacionar de um para um, numa base mais próxima e intimista. Para fazer o contraponto a esses ideais abstratos e tão distanciados temos a Lua Cheia ocorrendo no signo oposto, Leão, para nos lembrar da importância do indivíduo em meio ao grupo. Esta Lua Cheia vem trabalhar de forma bem aguda, as sombras de Leão e de Aquário.

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Nicole Dangoor – Reprodução

Essas questões da individualidade e do reconhecimento pelos nossos feitos pessoais são particularmente relevantes nesta Lua Cheia, uma Lua Cheia extremamente conflituosa. A Lua está a 03°29’ de Leão, em oposição ao Sol a 03°29’ de Aquário, ambos em quadratura ampla e aplicativa (aplicativo quer dizer ainda vai acontecer) a Marte em Escorpião, o aspecto maior mais próximo que a Lua faz – o outro é um trígono a Saturno de quase 10 graus – formando uma ampla T-Square fixa. O contato a Marte indica que esta é uma Lua Cheia extremamente volátil e de muita irritação e tensão – sentimos e automaticamente reagimos. Pressentimos uma ameaça no ar e prontamente nos defendemos, o problema é que talvez fiquemos defensivos até mesmo com aqueles a quem amamos. Tal defensividade e sensação de ameaça nasce internamente, é claro, devido a uma discordância entre as diversas necessidades: a necessidade de nos afirmarmos está em conflito com a necessidade de segurança e ainda com nossos objetivos conscientes. Neste caso, a Lua tem como necessidade básica chamar a atenção, sentir-se especial, mas este Marte é misterioso e reservado, quer passar despercebido para poder preservar suas intenções de olhares indiscretos, sem mencionar o Sol que diz que aqui todo mundo é comum e igual.

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Paul & Paveena Mckenzie – Reprodução

Falando no Sol, ele é o único ponto em Ar neste mapa, estando os outros três elementos equilibrados. Como único ponto em Ar, o Sol pode adquirir uma qualidade mais extremista, visto que Aquário já é um signo de extremos. Assim, boa parte do tempo podemos ser intuitivos ou emocionais, mas de repente, sem perceber, a objetividade fria toma conta de nós e nos enrijecemos nela, ignorando todo o resto. Leão, o signo onde está a Lua, é o signo do coração, daquilo que nos faz pular de alegria feito criança que ganha um brinquedo novo.

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Lua Cheia em Leão – Brasília, 23 de janeiro de 2016 23h45min

Esta oposição Leão-Aquário, nos diz repetidamente que há um conflito básico em nossa natureza: o coração (Lua em Leão) quer algo que está em divergência com a consciência objetiva (Sol em Aquário) e se não entramos em consenso conosco mesmos, não conseguimos executar ou realizar esses desejos (Marte em Escorpião).  Se não conseguimos solucionar a equação e integrar essas divergências, o resultado é frustração e sensação de derrota, que nos deixa abespinhados, belicosos, feito bicho selvagem com um espinho na pata que não consegue identificar o que causa a dor. Se estamos muito inconscientes, toda essa beligerância é jogada sobre outros e acusamos o mundo de ser responsável por nossa infelicidade e desgosto. Ou nos tornamos competitivos, compulsiva e infantilmente.

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Desconheço o autor – Encontrado em rebloggy.tumblr – Reprodução

Sentir, precisar, querer, desejar… O que atendemos e o que ignoramos? Não há o que ignorar. Essas necessidades precisam ser integradas conscientemente e quando conseguimos isso, a tensão se torna combustível que alimenta nossa vontade, determinação e disposição executiva na realização de nossos intentos. Contudo, isso é algo que não vem facilmente: há uma sensação de frustração com esta quadratura, como se estas intenções não tivessem ainda sido realizadas, ou tivéssemos nos confrontando com dificuldades internas, dúvidas e hesitações geradas pelo conflito entre as diferentes necessidades e desejos, como já disse acima. Mas vamos ser um problema para nós mesmos? Ou vamos resolver essas dificuldades diretamente?

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Reprodução

Olhemos estes temas, mais profundamente, para além do óbvio. A Lua Leonina deseja ser o centro das atenções, deseja brilhar e receber o devido reconhecimento pela sua singularidade e distinção. Mas a oposição ao Sol em Aquário sinaliza que há uma culpa e que ela não consegue brilhar devidamente, porque a resposta do grupo é de que “isso não é certo”, ela é comum como todo mundo  e deve se colocar no seu lugar. A quadratura a Marte confirma que essa atenção e aprovação não vêm facilmente e que talvez tenhamos mesmo que brigar por ela. Assim, essa Lua Cheia ativa dentro de nós esse conflito clássico da vida familiar e em grupo: como nos sentimos especiais, como expressamos nossa individualidade e potenciais singulares, sem negar isso aos outros. Isso porque a competitividade intrínseca parece nos dizer que não há bastante aplauso para todos, que temos que tomar de outros ou ficaremos sem. E também ativa em nós conflitos ancestrais da natureza humana, aqueles vivenciados na infância, quando estávamos ensaiando na arte de nos afirmar.  Parece que a aprovação e aplauso pelos quais tanto ansiamos não estavam disponíveis, ou pelo menos não sem uma boa luta e continuamos a brigar por eles vida afora, mascarando nossa enorme insegurança com competitividade, sem perceber que isso vira uma motivação inconsciente para nossos feitos, algo compulsivo, que temos que obter a qualquer custo. Então, ao invés de realizar nossos feitos por nós mesmos, nós o fazemos para comprar atenção e adoração de fora, do grupo. O problema é que, se conseguimos, a sensação de sucesso dura pouco e logo nos lançamos a outra busca por mais atenção, porque estamos viciados nisso, é uma compulsão, um buraco sem fundo. Por outro lado, se não conseguimos, fica um gosto amargo na boca, como se nada tivesse valido a pena, não importa o quanto tenhamos feito.

love-meQuer dizer, isso é viver uma vida para fora, para o olhar do outro e não para nós mesmos, pautando esse senso de realização unicamente da aprovação alheia, o que faz de nós um arremedo de indivíduo, um caso patético de narcisismo crônico que, ironicamente, mais afasta do que aproxima as pessoas, porque no processo talvez nos tornemos arrogantes e até tirânicos com aqueles com quem convivemos, demandando atenção como um rei déspota demanda tributos de seus súditos. E pior, em nosso grande orgulho, somos incapazes de reconhecer a importância que o outro tem para nós e do quanto dependemos de seu reconhecimento. No fim, isso indica que nossa pequena criança ficou congelada em sua expressão mais positiva e mostra apenas seu lado mais sombrio: insegura, profundamente carente de afeto e atenção, sentimentos devidamente mascarados pelos muitos feitos conseguidos, mas não genuinamente celebrados e sentidos.

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Historyofhunting.com – Reprodução

O Símbolo Sabiano do grau 04 de Leão – 03°00’ a 03°59’ – conta uma estória parecida a partir da seguinte imagem: “Um homem vestido formalmente, está de pé ao lado de troféus que ele trouxe de uma expedição de caça”. Os troféus de caça são símbolos de competitividade, de algo que foi conseguido com grande empenho, luta e até mesmo correndo riscos e perigos. Originalmente, a caça era algo essencial à sobrevivência, matava-se para comer – a caça, aliás, é algo fundamental à sobrevivência de predadores em geral, como o Leão. Um tema que imediatamente repete as proposições da T-Square Sol-Lua-Marte. Mas aqui a caça não implica necessidade de sobrevivência per si, não se caça para comer; um caçador que exibe  troféus está preocupado apenas em mostrar seus feitos, em mostrar como ele é bom com uma arma e como domina a natureza, matando-a. Está formalmente vestido, quer dizer, tudo é parte de um ritual encenado, um teatro montado para o olhar de uma platéia, nascido da necessidade de impressionar os outros. E se por um lado não há nada de mais legítimo em se obter o reconhecimento por uma realização bem sucedida, por outro, como já discutimos acima, vale questionar a motivação original de tal realização, se é algo que de fato nos alimenta individualmente e espiritualmente, ou se é apenas uma forma de angariar uma atenção que acreditamos que não temos.

Sabiansymbols.typepad.com Reprodução

Lynda Hill, analisando este símbolo em seu livro 360 graus de sabedoria, questiona que tipo de “troféus” estamos buscando, alertando que algumas pessoas talvez apreciem, de fato, aquilo que estamos mostrando, mas outros talvez estejam completamente desinteressados e nem um pouco impressionados com o que vêem. Talvez outros ainda fiquem com ciúmes ou inveja e isso, secretamente, alimenta nossa vaidade. Estes troféus podem ser qualquer coisa: aquisições materiais, diplomas, viagens, aventuras, qualquer coisa que nos leve a nos sentir “especiais”. E ela diz que é essencial o questionamento: “realizamos algo, verdadeiramente? Se sim, é claro que devemos ser reconhecidos e congratulados por tal feito; OU isso são apenas ‘coisas’ que reivindicamos para nós mesmos sem considerar de onde vieram ou sem nos importar com o que teve que ser feito para realizá-las?”. Em outras palavras, por que fazemos o que fazemos? Fazemos por nós mesmos, porque nos preenche de alegria e traz satisfação e plenitude ou apenas para impressionar e despertar inveja no olhar do outro, que nos dirá, consequentemente que somos “especiais” e melhores do que ele?  Se é assim, temos o círculo completo e voltamos ao objetivo do começo, que era mascarar nossa insegurança e carência. 

A Força
Arcano 11, A Força – Tarô de Nei Naiff

Por fim, este símbolo me lembra ainda o Arcano 11 do Tarô, A Força. Este arcano mostra uma mulher segurando um leão com as mãos e não está claro se ela abre ou fecha a boca do leão. Sabemos que uma mulher, e mesmo um homem, salvo em circunstâncias extremas, não seria capaz de dominar um leão pela força física ou bruta, assim, inferimos que está em curso um outro tipo de domínio. O domínio suave e sutil da sensibilidade do coração sobre as paixões desenfreadas. A capacidade de dominar nossos instintos, nossa natureza animal e bruta, com a força da consciência e com o coração amoroso. Dominar as paixões descontroladas, a criança mimada  e egoísta. Dominar, não matar. Hoje o humano aniquila a natureza lá fora, sem perceber que aniquila, por conseguinte, sua própria natureza interna, desconectando-se dela. A Força vem nos mostrar a necessidade de acharmos o ponto de equilíbrio entre a força animal e instintiva e a força corajosa de um coração gentil. Quando entendermos isso, não precisaremos mais de troféus, não precisaremos matar a natureza, mas estaremos convivendo com ela em harmonia; não dependeremos do olhar invejoso do outro para nos sentir apreciados, realizados e especiais porque nossa criança interna estará saudável, segura e feliz! A fera dominada por um coração gentil. Conseguiremos isso algum dia?

Watercolor - Fashion Illustration Print - Desconheço o autor - Reprodução
Watercolor – Fashion Illustration Print – Desconheço o autor – Reprodução

A Lua Cheia em Leão, em si mesmo, convida a celebrar nossa criança interior, a força do coração e a paixão saudável que alimenta nossa busca por realizações legítimas. A coragem de ser nós mesmos, celebrando o que temos de mais especial e único. Brincar e celebrar a alegria de ser quem somos, como somos e a força mais poderosa de todas, a força do coração, o amor. E tenhamos sempre presente: “felicidade é aquilo que preenche a alma e não o olhar do outro” (Andreia Meneguete).

Reprodução

OBS: Vale mencionar um fato muito triste e curioso: a Lua estava exatamente neste grau de Leão, no dia 1° de julho de 2015, quando um caçador americano matou o leão Cecil, na África, causando comoção e indignação global. Nessas horas a gente se assusta em ver como um símbolo se manifesta, às vezes, de forma muito literal.