As 12 Noites Sagradas – VIRGEM

virgoHoje é o dia e a noite de Virgem, o signo da Donzela. O que houve de especial hoje? Como reflexo deste signo, que rege o cotidiano e a ordem doméstica, nada de especial aconteceu, mas tentei colocar um pouco de ordem na casa e na minha rotina. E você, conseguiu, finalmente se recuperar do frenesi das festas de fim de ano com alguns rituais diários? (Se você não sabe o que são As 12 Noites Sagradas, clique aqui)

“Sim, todo amor é sagrado, e o fruto do trabalho é mais que sagrado, meu amor”  (Beto Guedes)

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Kyriotetes – Reprodução – Desconheço o autor

Do site Festas Cristãs trago a descrição da Noite de Virgem: “Nesta Noite Santa, através do portal da Virgem recebemos os impulsos espirituais dos  os Seres da Sabedoria. As forças do Signo da Virgem configuraram o ventre, que é um aspecto físico do feminino que pode receber e gerar outro ser. A alma, a nossa vida interna também tem esta qualidade do feminino, de levar para dentro, de acolher no íntimo e de guardar a nossa essência, o nosso Eu, para gerar o Espírito individualizado em nós.”

“A Virgem é a imagem terrestre da Alma cósmica, a Sofia, e ela é considerada virgem porque corresponde a um aspecto de nossa alma que permanece intocada pelas necessidades terrestres, e pode então acolher e gerar o Espírito individualizado em nós. Isto significa um estado de entrega e doação constantes, de cortesia e polidez. “ Edna Andrade (1)

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Virgem – Salvador Dali – Reprodução

Regido por Mercúrio, Virgem, o signo da Donzela, também busca informação, mas ao contrário de Gêmeos, que quer saber de tudo um pouco, Virgem procura saber muito de poucas coisas, pois para ele a informação tem que ser ÚTIL, por isso, é o signo do ESPECIALISTA.

Virgem é direcionado para SELEÇÃO e DISCRIMINAÇÃO, para separar o joio do trigo. METÓDICO, tem grande habilidade para PRIORIZAR. ACURACIDADE e ANÁLISE também fazem parte do seu modus operandi. É o signo das coisas pequenas e dos microorganismos, por isso ele presta muita atenção aos DETALHES, sendo às vezes, até exagerado em seu ESCRÚPULO e METICULOSIDADE. É muito HABILIDOSO e técnico, por isso é associado com o arquétipo do ARTESÃO. Um de seus grandes méritos é transformar a matéria feia e tosca em algo belo e sublime. Está em busca constante da PERFEIÇÃO.

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Virgem – De um livro Medieval de Astrologia Wikimedia Commons

É direcionado para o TRABALHO, para a eficiência e para a produtividade. ORDEM e limites são essenciais, e embora seja muito preocupado com LIMPEZA, não necessariamente é organizado sempre. Precisa sentir-se útil e o ato de SERVIR faz parte de sua missão. Ele também precisa aprender a pedir ajuda e admitir que também precisa dos outros – ele odeia precisar de alguém, porque isso o faz vulnerável e signos de controle odeiam se sentir vulneráveis.

“E o que é trabalhar com amor? É tecer o tecido  com fios desfiados de vosso próprio coração, como se vosso bem-amado fosse usar esse tecido. O trabalho é o amor feito visível” Khalil Gibran

 

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Constelação de Virgem – Astrologia Medieval Reprodução

Ao contrário do que se pensa, este signo é extremamente complexo e isso se deve em parte, ao seu regente, Mercúrio, o deus da Alquimia e dos portais, entre outras coisas, assim Virgem é também o signo do ALQUIMISTA, cuja tarefa é purificar, refinar e aperfeiçoar materiais básicos. Essa regência “descreve a natureza inteligente e analítica do signo, mas, como signo de Terra, essa inteligência é usada de forma prática, trabalhando a matéria e a substância para aperfeiçoá-la e curá-la”, diz Clare Martin (2). Por isso Virgem é o signo do cotidiano e está geralmente em sintonia com os ritmos do corpo e sua adequada manutenção, tem necessidade e prazer nos rituais diários, o corpo para ele é um templo sagrado, e através de dietas, rotina e práticas de cura, ele cuida desse templo assim como a Deusa Héstia cuidava do Fogo Sagrado. Por todos esses talentos e tendência ao serviço, também tem grande dom para a cura e para a medicina, especialmente a alternativa. Com tanta habilidade em separar o que é útil do que é mero refugo, Virgem rege no corpo o intestino delgado, que tem como função discriminar o valor de tudo o que foi ingerido, decidindo se absorve ou expurga.

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Virgem – Sabliere da nave da Igreja de Notre Dame de Runan – Wikimedia Commons

A origem da palavra VIRGEM não tem associações com castidade. Significa apenas mulher solteira, às vezes mesmo com filhos. A palavra refere-se ao estado de completude e inteireza interior, de auto-suficiência, de ser dona de si mesma, esposa da vida e dona de sua própria alma. Por isso, Virgem tem um código moral próprio e não costuma seguir códigos sociais cegamente. Para Virgem, o mais importante é integridade interior. Mas vamos falar disso mais profundamente abaixo.

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Selo da Ucrânia – Wikimedia Commons

De modo geral é tímido, MODESTO, DISCRETO e RESERVADO – já perceberam como o símbolo de Virgem se parece com o de Escorpião? Eles são parecidos em algumas coisas! E se é muito crítico com os outros, ele o é ainda mais consigo mesmo. Virgem também é o signo dos ANIMAIS DOMÉSTICOS e DE ESTIMAÇÃO. Podemos começar a entender a grande complexidade deste signo, cuja descrição muitas vezes é reduzida à hipocondria, mania de limpeza e de ordem, ao desvendar seus mitos diversos.

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O Estupro de Prosérpina (Perséfone) – Gian Lorenzo Benini (1621-22) Escultura em Mármore – Galeria Borguese, Roma – Reprodução

O mito mais conhecido relacionado a Virgem é o mito do Rapto de Perséfone por Hades. Perséfone era uma deusa da Primavera: jovem, linda, cheia de vida! A Donzela Arquetípica, pronta para ser colhida e tornar-se mulher. A terra fértil, mas virgem; a vida cheia de possibilidades informes. Da Tríade do padrão de desenvolvimento feminino ela é a jovem, representada pela Lua Crescente, enquanto sua mãe, Demeter é a Lua Cheia e Hécate é a Anciã. Perséfone tinha um vínculo poderoso com a mãe Demeter, o vínculo da mãe e do bebê que encontramos em Câncer, ainda não individualizado porque permanece no abraço urubórico da mãe. Um dia, passeando com as amigas pelos jardins, colhendo flores, ela se afastou para colher narcisos, que tinham sido plantados ali por Hades para atraí-la. No momento em que ela colhe a primeira flor, o chão se abre à sua frente e dele sai uma carruagem assombrosa de cavalos negros e o próprio Senhor dos Infernos à frente. Era Hades em pessoa, que a raptou e levou para o Mundo Inferior, O Grande Lugar Abaixo, onde a estuprou e a fez sua esposa. Demeter, ao dar pela falta da filha saiu a procurá-la e não a encontrando, entrou em desespero, como ficaria qualquer mãe. Ninguém viu, ninguém sabia de nada, nem mesmo as amigas que a acompanhavam. Demeter entrou em luto profundo e praticamente enlouqueceu procurando a filha incessantemente. Ela estava tão zangada quanto triste, mais ainda porque ninguém a ajudava ou dava informação, e os deuses pareciam cegos e moucos.

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Perséfone e a Romã – Desconheço o autor Reprodução

Um dia ela encontrou um garoto, que ao vê-la em tal estado deplorável, compadeceu-se dela e perguntou se podia ajudar. Ele a reconheceu e contou que tinha visto a filha ser abduzida por Hades – em outras versões diz-se que na verdade foi Hécate quem lhe deu essa informação. Demeter recorreu a Zeus, que não quis interferir. Ora, Demeter era a deusa dos cereais e da agricultura e neste estado de desespero, as plantações já tinham parado de crescer, havendo escassez de alimentos. Ela então resolveu entrar em greve, assim nada mais nasceria, os homens morreriam e não havendo homens, quem honraria os deuses? A estratégia funcionou e Zeus então resolveu interceder, enviando Hermes para negociar a liberação de Perséfone. Zeus, claro, como bom malandro que era, sabia de tudo, e na verdade o rapto foi feito com seu consentimento. Hermes foi então ao Reino de Hades negociar. Hades concedeu que ela fosse embora, desde que ela não tivesse comido nada ali embaixo. De fato, até aquele momento ela não havia comido nada no Mundo Inferior, e estava, na verdade definhando. Mas já na saída ela resolve comer umas sementes de romã. Por causa disso ela fica obrigada a passar metade do ano sobre a terra, com sua mãe e a outra metade com Hades, no Mundo Inferior – esses períodos simbolizam Primavera e Verão, quando ela está sobre a terra, que fica fértil, e Outono e Inverno, quando ela está no Mundo Inferior, o período em que a terra descansa para a próxima temporada de plantações. Assim ela se torna a Rainha dos Infernos e passa a reinar ao lado de seu marido.

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Virgem – Deutsche Fotothek Astrologie & Sternzeichen & Kalender – Wikimedia Commons

Esse mito fala daqueles momentos na vida em que compactuamos com o inconsciente para que coisas inimagináveis aconteçam. Ocorre quando já passamos da hora de mudar e não percebemos e a vida vem e nos força a mudar. Perséfone, bonita e jovem como era, pronta pra se casar, já tinha sido cortejada por Hermes, Ares, Apolo e Dionísio, mas sua mãe recusou a todos, querendo que a filhinha continuasse na barra da sua saia. Isso enfureceu a Afrodite, a deusa do Amor, que infligiu uma paixão avassaladora em Hades, que a pediu em casamento a Zeus, seu pai. Zeus, por sua vez, concedeu, sem nada dizer a Demeter. A própria Perséfone é terrivelmente ambivalente, pois primeiro vai colher as tais flores de Hades; segundo, come as sementes de romã já na saída. No fundo, ela mesma estava cansada da sua vida de solteira e de ser a filhinha da mamãe; ansiava por novos desafios. (3).

Esse Destino de Perséfone é um tema muito relevante para Virgem, diz Liz Greene, que explora também outras imagens míticas associadas com este signo (novamente, os parágrafos abaixo, que estão em itálico, são uma tradução livre e resumida desses mitos e da interpretação de Greene, como consta de seu livro A Astrologia do Destino). (4)

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Escultura de Astraea/Dike – 1886 – Assinado “A.” possivelmente trabalho de August St. Gaudens. Old Supreme Court Chamber, the Vermont State House, Montpelir, Vermont. August 2007. Reprodução

A Constelação de Virgem foi associada com a deus Astraea ou Dike, que representava o princípio da justiça. Ela era também filha de Zeus e vivia na terra entre os homens, durante a Idade de Ouro, mas com o tempo, a corrupção humana aumentou e ela desgostosa passou a detestar os homens por causa de seus crimes. Ela era a forma de vida manifesta em cada animal, planta ou homem. Ela regulava os ciclos da vida e representava alei, não a lei dos homens, mas a lei da natureza, os ritmos naturais derivados dos movimentos do sol e da Lua. Assim, ela representava a ordem intrínseca da natureza e seu desgosto diante da corrupção humana é o desgosto que virgem expressa normalmente diante da desordem e do caos. 

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Artemis de Efesos. Século I AC – Cópia romana da estátua do Templo de Éfeso – Museu de Éfeso – Turquia – Wikimedia Commons

Para Astraea, tudo tinha um tempo e um lugar e não é de admirar que com tal deidade relacionada ao signo, Virgem seja tão propenso a ritualismos. Astraeas era associada com várias outras deusas da antiguidade, inclusive com a própria Venus. É dito que ela era filha de Aurora, o milho ou trigo em suas mãos a identificam às vezes como Ceres; outros dizem que ela era Fortuna, porque sua cabeça desaparecia entre as estrelas, ela parecia também com Isis… Mas principalmente, ela se parecia com Atagartis, uma deusa Siria adorada sob o nome de Virgo Caelestis Carthage, associada com Urânia e a Lua.

Ela era, pois, fértil e ao mesmo tempo estéril, um caráter profundamente complexo, como é o signo de Virgem. Este signo parece incorporar um grande paradoxo, diz Greene, um paradoxo que mistura a idéia de uma deusa muito correta e severa, ao lado das deusas lunares prostitutas e orgiásticas dos cultos da Ásia Menor.

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A Artêmis negra de cem seios – Não consegui descobrir a localização – Reprodução

Muitas dessas deusas tinham em seus templos sacerdotisas vestais que se prostituíam no culto sagrado da deusa; em algumas regiões, as mulheres comuns, como parte do culto à deusa, precisavam ir ao templo pelo menos uma vez na vida, se prostituir, deitando-se com o primeiro estranho que aparecesse numa realidade em que os homens, na verdade, eram também devotos da deusa e se dirigiam ao templo como forma de honrá-la – as mulheres precisavam fazer isso especialmente antes de casar-se. Não importava a quantia oferecida, a mulher não podia recusar, pois seria uma ofensa à deusa. Depois do intercurso sexual ela se tornava santa aos olhos da deusa e ia embora pra casa. “Assim, as virgens eram iniciadas dentro da santidade do templo, sacrificando sua virgindade e experimentando os primeiros frutos de sua sexualidade” (5). Uma dessas deusas era Ishtar, chamada a Mãe das Prostitutas; havia também Mylitta, Hátor, Atargatis e a própria Artêmis Negra de Éfeso, a de cem seios – todas essas deusas eram prostitutas e eram chamadas deusas virgens, inclusive a própria Afrodite e outras deusas gregas, notadamente de vida sexual intensa. 

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A religiosa casa-se com Cristo e vive para Ele Reprodução

Tanto virgens quanto mulheres casadas precisavam fazer essa oferenda pelo menos uma vez e algumas mulheres que não desejavam levar vida casta nem se casar optavam por se tornar Virgens Vestais, não se casando com nenhum homem, mas tornando-se noivas do deus, que é o mesmo princípio da vida religiosa cristã, que aliás, está também relacionada a este signo: é sabido que as freiras casam-se com Jesus Cristo, enquanto os padres casam-se com a Santa Madre Igreja, que é também a Esposa do Cristo – claro, no Cristianismo há o preceito do celibato. Neste sentido, diz Greene,a prostituta é como a virgem mítica, pois ela é uma imagem arquetípica da mulher livre que é casada primeiro consigo mesma, com seu ser interior, e só depois com um homem. A palavra ‘virgem’ significa então, não castidade, mas seu oposto: a gravidez e a fertilidade da natureza, livre e incontrolável, correspondendo ao amor fora do casamento, em contraste à natureza controlada do amor dentro do casamento.

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Shamhat, a primeira Prostituta Sagrada de que se tem registro – uma mulher sumeriana de alta classe – Tadarida – Reproduçao

Daí vem a origem da palavra VIRGEM, que nessas línguas antigas e arcaicas, não tinha nenhuma associação com sexualidade, mas sim com o estado civil. A mulher virgem era a mulher solteira, que não tinha marido e nem devia satisfações de seus atos a ninguém. Greene cita o estudiosos John Layard sobre a origem dessa palavra:

“Em primeiro lugar, embora nós hoje pensemos na palavra ‘virgem’ como sinônimo de ‘casto’, este não era o caso nem com a palavra grega parthenos ou com a palavra hebréia almah, da qual ‘virgem’ é a tradução bíblica mais comum. Pois os gregos a usavam para falar de garotas não casadas, fosse ela casta ou não, e Ra, de fato, aplicável a mães solteiras. A palavra hebréia, da mesma forma, significa ‘não casada’, sem referencia a castidade pré-marital” (4).

 

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A jovem Virgem Maria – Desconheço o Autor – Reprodução

A associação da palavra virgem se dá a partir do Cristianismo e da introdução da Virgem Maria como único modelo possível para a feminilidade dentro da vida cristã. Na verdade, é mais uma manifestação do patriarcado e seu controle sobre o feminino. Assim, ao longo dos séculos virgem passou a ser associada com intocabilidade sexual, com castidade e “pureza virginal”.

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Painel de mármore da Igreja de Santa Maria dos Anjos – Francesco Bianchini – Wikimedia Commons

Por aí se tira de onde vem também a complexidade de Virgem. Esse paradoxo coloca um conflito permanente e é a partir desse conflito que o padrão de desenvolvimento de Virgem aparece, diz Greene. Porque Virgem está eternamente cindido entre esferas de vida aparentemente irreconciliáveis, “seja esse conflito entre a carreira e a vida pessoal; entre o casamento e a independência (um tema comum); entre espiritualidade e o materialismo; entre moralidade e abandono, Virgem luta com estes opostos vida afora, tentando abarcar aos dois lados”. A forma com que o ego resolve esses dilemas normalmente é vivenciar um lado enquanto sacrifica o outro, mas isso traz um problema em si mesmo porque parece que ao signo não é permitida essa divisão “preto e branco” da vida. E aqui, Greene lembra Perséfone, dizendo que seu problema foi exatamente esse, ela escolher permanecer virgem ao invés de abraçar o lado prostituta/cortesã, seu lado não vivenciado representado por Afrodite, o que leva à sua abdução por Hades, ou seja, ela mesma invoca seu destino ao recusar-se a tentar conciliar esses opostos – coisa que Jung sempre nos lembra, aquilo que não reconhecemos em nós, vivenciamos como destino.

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Hetairas se banqueteam – de Mirna, Grécia, cerca de 25 AC – Museu do Louvre – Reprodução

Toda esse paradoxo cria uma tensão incrível em Virgem, que é conhecido como um signo super controlado. “A moralidade interior de Virgem, quando é genuína e não emprestada do coletivo prevalecente – como é o caso com os nativos mais tímidos do signo – não está em desacordo com o que pode ser considerado um comportamento sexual muito pouco convencional. Ainda, essa moralidade interior pode ser muito forte e não menos baseada num senso de ‘correção’ do que códigos mais convencionais de comportamento”, diz Greene. Greene vai em frente dizendo que em sua prática analítica encontrou muitas prostituas profissionais que tinham grande ênfase no signo de Virgem, e que em todas elas havia esse forte senso de integridade moral, acompanhado de uma profissão que a sociedade considera imoral ou mesmo amoral – ela questiona, quem são de fato as verdadeiras “putas”.

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Desconheço o autor – Reprodução

Relembrando o mito de Perséfone e associando-o com estas questões complexas do dizer “sim à vida”, Greene diz que isso não quer dizer que Virgem está fadado a sofrer violência sexual ou abduções de qualquer tipo. Isso ocorre apenas como resposta à escolha de permanecer “inocente” para sempre, repudiando a vida em toda a sua fertilidade, como representada pelas deusas Astraea e todas as outras. Neste caso, a vida irrompe, feito o deus dos infernos e a “força” a experimentar a vida em toda a sua magnitude de sentimentos e experiências. “Obviamente, essa questão não é exclusivamente sexual, mas envolve toda a visão de vida. A prostituição da virgem não quer dizer disponibilidade sexual a qualquer um, não mais do que ‘virgem’ significa castidade. Eu entenderia isso muito mais como uma abertura ao fluxo da vida, uma boa fé de confiar na ordem natural das coisas, uma aceitação da penetração da vida e da mudança. É, pois, o destino da donzela, da Coré ou Perséfone ser sacrificada, para que ela possa ser uma mulher plena e quem sabe, mãe. Esse é seu “destino”, embora não precise ser literal, pois Virgem pode se casar de várias formas e ter filhos diversos, pois “maternidade no sentido mais profundo é a nutrição de potenciais e o trazer à luz um padrão interior para a vida exterior, então, o tema mítico se aplica tanto a Virginianos homens quanto a mulheres.

Ida-Ehre-Schule in Hamburg-Harvestehude Keramik-Relief Jungfrau von Richard Kuöhl.
Relevo em cerâmica na Escola Ida-Ehre em Hamburgo

Virgem é ainda relacionada com a deusa Héstia, a Deusa da Lareira e do Fogo Sagrado. Era uma deusa mais voltada para as questões espirituais. Era também considerada uma deusa virgem, porque nunca foi relacionada a nenhum homem ou deus e, de fato, não há parceiros sexuais associados a ela, que dedicava-se ao templo e seus serviços.

 

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A Deusa Vesta / Héstia – A Deusa da Lareira e do Fogo Sagrado Reprodução

Virgem, como a origem do nome diz, é assim, um signo que vem desenvolver integridade interior. É um o signo que vivencia o maior sentido de inteireza e completude interior. Na minha prática astrológica (eu, Eunice), tenho encontrado muitos virginianos e virginianas divididos neste conflito: a busca de um relacionamento que parece, às vezes, fora de alcance. Normalmente há no mapa natal uma repetição do conflito, pois se de um lado há grande ênfase em Virgem e em algum outro signo independente (Áries, Aquário, etc), de outro, pode haver uma ênfase tão grande quanto em signos ou planetas relacionais, como Câncer, Libra, Escorpião. Freqüentemente a pessoa luta não só com seu dilema interior, mas com uma reclamação dos parceiros de que se sentem “obsoletos” dispensáveis. Isso porque virgem não percebe que na sua inteireza, emite mensagens contraditórias ao parceiro, verbalmente dizendo que o quer, mas, em gestos, deixando claro que privilegia sua autossuficiência mais que ao relacionamento. O que essas pessoas precisam entender é que realmente os relacionamentos “tradicionais” são modelos que não necessariamente  lhes servem e que eles precisam criar seu próprio modelo de relação, um modelo que respeite sua profunda necessidade de privacidade, de auto-suficiência, independência e de espaço e reserva. E obviamente, respeitar a si mesmo e as essas necessidades, reconhecendo-as e honrando-as, para que o parceiro possa fazer o mesmo. O ideal seria encontrar um parceiro com necessidades parecidas.

“As coisas não precisam de você, então por que eu tinha que precisar?” (Marina Lima)

Depois de tudo o que vimos sobre Virgem e sua complexidade e paradoxos, não admira que seus arquétipos e figuras sejam estes abaixo:

A Donzela, A Virgem Grávida, A Freira, O Religioso, A Prostituta, O Artesão, O analista, O Aprendiz, O Carpinteiro, O Alquimista, A Secretária, Ceres e Prosérpina / Demeter e Perséfone,  Astrae / Vesta  / Artêmis.

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A Constelação de Virgem – Guido Bonatti – Wikimedia Commons

A Sombra de Virgem está ligada ao seu oposto complementar que é Peixes e enquanto Virgem traz a ordem, separa, categoriza e cataloga, Peixes simboliza o caos, a falta de limites, a mistura de tudo. Virgem é exclusivo, Peixes é inclusivo. Os dois precisam aprender um com o outro. Virgem precisa aprender a ser mais inclusivo e ver o todo e Peixes aprende com Virgem a discriminar, a ter limites, a ter ordem.

Também faz parte da sombra de Virgem a mania de achar que sabe mais que todo mundo, assim pode tornar-se um chato. Outro elemento é que na busca constante da PERFEIÇÃO, pode perder-se nos detalhes, focando somente no que está errado ou defeituoso, esquecendo-se de olhar o todo, por isso é essencial ter perspectiva.

Virgem é um signo complexo e cheio de paradoxos e quando não consegue conciliar esses opostos dentro de si, torna-se excessivamente racional, deixa de sentir e pode cair em comportamentos ritualísticos obsessivos relacionados à limpeza e alimentação, originados também da necessidade compulsiva de CONTROLE. Outras manifestações podem ser hipocondria, criticismo excessivo e destrutivo, trabalho compulsivo (work-aholic) e o vício mais comum de todos: a preocupação.

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Virgem – Arte Medieval – Desconheço o Autor – Reprodução

Há um poema gnóstico atribuído a Sofia-Sabedoria, que Liz Greene diz refletir magistralmente o paradoxo de Virgem. É parte de os Evangelhos Gnósticos encontrado em Nag Hammadi, citado em Os Evangelhos Gnósticos de Elaine Pagels (6).

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Sofia alquímica – Google Imagens – Reprodução

Trovão, Mente Perfeita

Pois eu sou a Primeira e a última.

Sou a reverenciada e a escarnecida.

Sou a promíscua e a consagrada.

Sou a esposa e a Virgem.

Sou a mãe e a filha.

Sou os membros de minha mãe.

Sou a estéril e muitos são os seus filhos.

Sou aquela cujas bodas são grandiosas mas não tomei um marido.

Eu sou a parteira e aquela que não pari filhos

Sou o alívio de minhas dores de parto.

Eu sou a noiva e o noivo

E é meu marido quem me gerou.

Sou a mãe do meu pai

e a irmã do meu marido

e ele é a minha prole.

Sou conhecimento e ignorância.

Sou impudica e casta.

Sou força e medo.

Sou néscia e sábia.

Sou ímpia e aquela cujo Deus é grande.

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Virgem – Johfra Bosschart Reprodução

Meditação para Virgem:

Observação: A qualquer momento, se sentir qualquer desconforto ou mal estar, interrompa o exercício e abra os olhos.

Recolha-se a um lugar onde não será perturbardo por pelo menos 20 minutos. Afrouxe qualquer peça de roupa e faça-se confortável. Respire profundamente várias vezes até chegar a um estado de relaxamento completo. Então visualise que está num templo sagrado antigo, ancestral, no topo de uma colina. De lá você pode ver a planície abaixo, verdejante, com plantações exuberantes. Respire fundo e sinta-se calmo  e confiante. Entre no templo calmamente. Dirija-se ao altar. Veja as velas acesas, as flores frescas, tudo transmitindo um senso de ordem e sacralidade. Sinta um senso de reverência crescer em seu interior. Reverencie a divindade que está no altar curvando-se respeitosamente. Agora, sinta qual a posição mais adequada para você: em pé, sentado, ajoelhado… E olhe com reverência pra o altar. Quem é a deusa que olha de volta para você? Você tem algum pedido a fazer a ela? Ela tem algo a deizer a você? Escute atentamente.

Agora, caso não esteja sentado, sente-se. Estenda suas mãos para a frente e veja em cada uma das mãos um dos lados do conflito que o divide. Olhe para cada um deles e sinta o conflito. Qual mão pesa mais? Abra os braços, separando as imagens, colocando cada uma delas numa lateral do seu corpo. Agora imagine que você sai do seu lugar e assume a posição da imagem da direita. imagine-se vivendo toda a sua vida a partir dessa escolha; fique alguns momentos sentindo isso. Então saia, volte ao centro e entçao, assuma o lugar da esquerda. Sinta novamente como seria viver a viver somente a partir dessa perspectiva. Volte ao centro novamente e sinta o conflito ainda mais forte. Agora recoloque as imagens nas mãos, como se fossem duas bolas de energia. gradualmente tente aproximar as mãos. Pouco a pouco, sem forçar. Até que você consiga juntar as mãos e fundir as duas bolas, as duas imagens em uma só. Veja se consegue. Sinta o que isso significa. Como VOCÊ se sente? Olhe essa imagem longamente e deixe que ela cale fundo dentro de você. Aos pucos deixe a imagem se desfazer. Levante-se, faça sua reverência à deusa e despeça-se. Saia do templo e olhe novamente o tempo lá fora. Como você se sente? Respire fundo e gradualmente volte ao momento presente e ao ambiente da sua casa. Abra os olhos e seja fiel ao seu desejo: escreva ou pinte, desenhe, etc.

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Virgem – Vitrais da Catedra de Chartres – Chartres, França – Wikimedia Commons

Música para Virgem:

 

(1) Site Festas Cristãs: http://www.antroposofy.com.br/wordpress/as-doze-noites-santas-6a-noite-santa-constelacao-de-libra/

(2) Clare Martin – Mapping the Psyche – CPA Press

(3) Jean Shinoda Bolen – As Deusas e a Mulher – Ed. Paulus

(4) Liz Greene – A Astrologia do Destino – Weiser

(5) Nancy Qualls-Corbett – A Prostitua Sagrada – Ed. Paulus

(6) Elaine Pagels – Os Evangelhos Gnósticos – Ed. Cultrix

Outras Fontes Consultadas:

Sue Tompkins – The Astrologer’s Handbook – Flare Publications – UK

Joanne Wickenburg – Um Guia do Mapa Astral – Ed. Pensamento

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